26 novembro, 2007


[exterior, noite] voz em off: - viver? É muito perigoso... [pausa] voz cansada: - tudo...pode...acontecer... [farolete da polícia iluminando um beco]. Cena 1. um homem nu, absolutamente magro, come a bunda de uma mulher de plástico. O policial ilumina a cena com o farolete e grita: - oh shit!!! O outro policial aponta a magnum 45 para o peito do esquelético tarado e fala entre dentes: - welcome to hell fela da gaita. [corte – a cena congela – um senhor distinto, vestindo roupas do princípio do século aparece e traduz as falas dos policiais] (pigarro) – boa noite senhoras, senhores. O objetivo dessa minha singela aparição é deixar um pouco mais claro o linguajar desses policiais, e, se possível, transformar essa película em algo proveitoso. (pigarro) – o magro comendo a mulher de plástico, apesar de nada acrescentar, mostra como são solitários os corretores da bolsa. Vale como performance, algo assim meio zé celso. O primeiro policial, ao vê-lo, exclama: - oh merda. O outro, que saca a arma, com um linguajar misturado de inglês e ceares, vocifera: - bem vindo ao inferno, filho de um instrumento musical. Como se vê, são hilários. Bom, mas o que eu queria realmente dizer com isso é que...[corte – o policial com a arma na mão descongela e dá dois tiros no peito do comentarista – (tihuana canta tropa de elite osso duro de roer)] – os idiotas falam demais! Aliás, falando nisso, e aproveitando que está gravando, eu... ta gravando? Bom é que eu queria mandar um beijo pra minha filha que ta aniversariando, e dizer que nunca mais eu chuto a boca dela com coturno, e...[o outro policial descongela, atira no magro, na mulher de plástico, no companheiro, no farolete do carro, na fachada de néon que ilumina a cena, no diretor, no câmera e na claquete] após soprar o cano da arma fumegante, ele exclama: - my name is silva! João da silva! Ao longe se ouve uma pacata música dos ratos de porão: “de pé contra o muro, de pé contra a lei. Pra ser condenado, pra ser fuzilado, não há esperança pra eu ou você”.

22 novembro, 2007


BENDITA TÚ
QUE INFLAMA AS ÁRVORES
SOPRA MAIS QUE O VENTO
E JOGA PALAVRAS DE LAVA NO VENTILADOR
DO TEMPO.
BENDITA TÚ
QUE YEM VENENO E ANTÍDOTO
NOS BICOS TÚRGIDOS DOS SEIOS.
BENDITA TÚ, QUE COMEÇA TODAS AS REVOLTAS
E AS APLACA, ACALMA, TRANQUILIZA.
SENHORA VENDAVAL E CHAMA
QUE TRAZ NOS LÁBIOS CANÇÕES DE
RENDIÇÃO E VITÓRIA
BENDITA TÚ
CUSPINDO NAS BANDEIRAS
PAIRANDO ALTANEIRA ACIMA DE TUDO E TODOS
NOTA DEZ
NO QUESITO ALEGORIA
E VIDA.

Abro a porta.
O coração amotinado
Ergue a cabeça, sai,
Sem cautela alguma
Como se inexpugnável fosse.
2
Notícias da alemanha:
A carne enlouquece
Vacas e galinhas tremem de medo
Croatas tremem
De medo e frio
Parados no semáforo.
3
O branco quadro negro
Não anima.
Amigos em nome
Afogados no nada
No silêncio do nada.
A camareira para na soleira
Solta o balde, o rodo, o pano sujo
Horrorizada.

21 novembro, 2007




18 de janeiro. Lembro do dia porque era o aniversário de giletinha. Porque giletinha? Porque mesmo dizendo que era homem, sempre que ficava sozinho com um da gente ele queria dar o cú. Nós estávamos brincando de empinar papagaio quando os tratores chegaram. Pararam bem em cima do campinho de futebol. Enrolamos as linhas, as pipas, e corremos pra lá. Que novidade era aquela? Um monte de homens com capacetes brancos, e um monte de tratores com nomes esquisitos: “caterpillar”.

- moço, o que é catrepilha?
- é o nome do priquito de sua mãe! Sai fora monte de catrepilha!!!

O som das risadas marcou o nome da turma. Viramos as “catrepilhas”. Nos acostumamos a andar por lá. De vez em quando roubávamos alguma coisa dos operários, de vez em quando algum deles comia o giletinha. Somos parte importante daquela construção. Ousaria dizer, que cada um de nós é um dos tijolos daquele velho prédio amarelo. “condomínio borba gato”. As “catrepilhas” do borba gato. Eles roubaram nosso campo de futebol, e nos deram uma história.

20 novembro, 2007


Na narinária corredor da ventania corre branca e célere a dama branca do xadrez que diz: um dia é tu! Vates cantando músicas inaudíveis. Atonal. World music atonal. Cabelinho riria. Mas cabelinho é irreal. Como todas as minhas memórias editáveis ou não. Saudade de beber ayahuasca. De me sentir mais bicho que gente. Abrir todas as moléculas e dizer sim! Onde os comprimidos de não pensar? Pink floyd em um cd perdido. Perdidos... perdidos no space. Cadê a porra daquele robô que dizia “perigo, perigo!!!”..................................assisto de novo novamente matrix. Jonhy mnemomic. Ciberpunks tão reais em suas cúpulas geodésicas de terror futural. Quero comer com coentro. Chorar. Ficar puto porque tem gente escrota que ameaça crianças, que ameaça músicos, que ameaça a vida. Não gosto do gosto do anonimato. Por isso faço tantas trapalhadas: tentativa “real” de ser reconhecido, e nunca, em hipótese nenhuma, anônimo. Cago pra audiência. Escuto cazuza na multidão. Diferente. Eller. Vontade de rir sozinho. Pequenininho. Meio tarântula dylanesca. Porque fazer sentido? Pra quem? Gosto de foder com minha namorada. Gosto do cheiro estranho e terno da sua boceta. Gosto de olhar o dia de manhã, quando a lombra ta serenando. Sol. Nuvens. Céu azul de doer. Caralho! Hoje é dia de se fazer coisas diferentes, ou não? Estou com o espírito de matar hotentotes. Saudade de guga cabeção, de sidney, de mim quando tinha dezoito anos. Eu quero.
Quero.
E tem gente bem te vi.

02 novembro, 2007


Por quem os sinos dobram

Fico pensando nos meus mortos enquanto cazuza verbaliza meus sentimentos: “meus heróis morreram de overdose...” engraçado pensar no finito. No que se acaba. Na árvore que tomba sob o seu próprio peso incomensurável. Penso nos vivos que quero mortos. E nos meus mortos – tão vivos – debatendo comigo nos corredores mal iluminados do borba gato. Sebastiana me empresta comprimidos para dor de cabeça, me convida para acender velas, incensos, escutar músicas de maysa. Silencio. Gal costa “esqueçam os mortos, que eles não levantam mais”. Ela e bob dylan e caetano estão errados. Os mortos estão de pé. Cantando. Recitando poemas de amor e vida. Quero não pensar, mas não consigo. Minha vó está ali, sentada em sua cadeira de balanço, fazendo um crochê interminável. É real? É um filme de bunuel? Meu pai vem entrando agora, com uma pasta preta em cada mão. – pixote! Tudo bom? Eu? Tava no maranhão. – minha tia acabou de colocar seus óculos escuros, contar uma piada e perguntar: - será que ainda tem alguma cerveja na geladeira? Normando para o carro em frente ao bar de silvany, calças jeans surradísimas, um chapéu preto. Seu sax repousa no banco traseiro do carro. “esqueçam os mortos...” mortos não são feitos para se esquecer. São feitos para se lembrar. São para pontear nossa história. Ou pelo menos, a minha história. Meu mortos. Meu baú de brinquedos anti-matéria. Todos eles moradores do meu edifício, editando, contando e recriando a história da carochinha onde não existe final.

20 outubro, 2007


quero aprender a criar anjos

se voam,

meu coração se dilaçera de medo

se corto-lhes asas,

deixam de ser anjos.


quero aprender a criar meninas

se querem,

tenho medo do seu querer poderoso e volátil

se digo mais não que sim

deixam de ser meninas

transformam-se em miniaturas

de gente grande


anjos e meninas

não vem com manual

16 outubro, 2007

das coisas que encolhem


luana me disse

ontem

que ela não acredita

que seu pé cresceu.

luana me disse

que o sapato

é que encolheu.

luana sabe

luana tem a alma

de um sabiá.

15 outubro, 2007


Tempo de fogo
Armas de querer nenhum nas asas dos olhos chamuscados
O tempo? É um. É um verso. É uni verso.
Madalena comia devagar os ossos de seu velho pai enquanto apresentadoras de programas infantis vomitavam meninos e meninas em rede nacional. Madalena lia as páginas do velho diário de sua mãe enquanto seu papagaio cantava músicas esquisitas de duplas sertanejas. Madalena xingava seu avô nagô enquanto suas irmãs dançavam ciranda ouvindo canções imaginárias.
Tempo de água
Almas torturadas presas em corpos magros molhados pelas lágrimas de mil serafins
O tempo? É aço. Cansaço. Estardalhaço.
Madalena ligava o rádio a televisão o computador tudo ao mesmo tempo agora madalena sabia que não tinha tanto tempo pra tanta informação madalena se masturbava ferozmente recitando cantilenas aprendidas em velhas salas de igreja madalena sonhava um vestido de noiva um bom bom de alecrim um filme do gordo e o magro em tecnicolor uma arma uma arma uma arma arma arma
Pra matar
O tempo.

04 outubro, 2007


Allen ginsberg, eu não sei em que lugar do céu você coça seu umbigo judaico americano. Allen ginsberg, eu não tenho a menor idéia do que você possa dizer ao seu deus poeta, sionista e degenerado. Allen ginsberg, os estados unidos continuam invadindo, torturando e julgando todos os povos da terra, embora eu saiba que você não tem porra nenhuma a ver com isso. Allen ginsberg, eu gostaria de poder te ler um belo poema de Manoel bandeira, mas não sei decorado, e o livro, eu tive que vender pra comprar uma carteira de cigarros. Allen, Allen, eu descobri alguns códigos, mas eles não abrem nem a metade das portas de huxley. Allen, Allen, eu fico daqui do interior da Bahia imaginando se teu deus sionista te recebeu numa boa. Allen, pressupondo que você esteja no céu, onde você escuta seus be-bops ensandecidos? Quando bebo além do limite imagino você, Whitman, normando, chet baker e charlie parker em uma nuvem jam-session. Bêbados, felizes e implorando uma asa, uma nova chance no inferno da terra. Allen, eu imagino que você detestaria esse tempo de agora... os garotos e garotas detestam poesia, escutam coisas que eles chamam de música, que faria qualquer tocador reles corar de vergonha. As drogas? Quase todas sintéticas, ou batizadas, uniformes... eles conseguiram padronizar até a lombra! Allen, se eu tivesse teu endereço, te mandaria o livro do gustavo “o amor é uma coisa feia”. Do caralho man! Ele tem a alma atormentada dos beats, e sabe cozinhar, e escreve com a mão pesada dos velhos. Dos que vaticinam. Dos que viram poster´s na posteridade. Te mandaria também os escritos de gabi. A ciber punk baiana que tem dinamite em seu sangue moreno e belo. E que acha tempo pra ensinar meninos doentes a re-aprenderem a rir. Sabe Allen ginsberg, seu escroto judeu-americano, quando eu tinha 14 anos vi teu livro “uivo” em uma prateleira lá em fortaleza. Uivei contigo de capa a capa. Quando acabei de ler, peguei um caderno, uma caneta, e nunca mais deixei de escrever. Allen, você é um velho judeu morto. Eu sou um velho cariri ainda vivo. E a poesia, meu camarada, NÃO MORRE NUNCA.

03 outubro, 2007


1
Daí que eu pensei: fôda-se filho da puta! Sem saber bem pra quê eu pensei isso, ou de quem. Daí que eu comecei a imaginar que nada do que ta rolando é real. Até porque não seria possível. Saber se alguém desenhou em uma caverna a um milhão de anos não torna minha arte menos ruim, ou a justifica. Sou produto interno do meu interno produto?
- cala a boca seu mentecapto. Minha filha ta ficando assustada!!!
- Enfie sua filha no cá!


2
bunuel come os próprios olhos com maionese
ferlinghetti bebe cerveja escura e olha com olhos de viado os cabelos coloridos das putas
rosebud! Rosebud!
E a alma ensangüentada de Felipe sai se arrastando dentre os ferros retorcidos de sua motocicleta outrora verde agora fumegante e esbelta
Eu amo o batom de tia minie
Eu amo tomar anfetaminas azuis, desobesin, e tudo fica atonal e lento
- cala a boca seu escroto nazista! Meu papagaio quer cometer suicídio!
- Enfia teu papagaio no cu!

3
um sebo. Uma alma. Um livro sujo e belo. Gravuras. Maconha. Cerveja. Amigo que diz cale a boca. Amigo que diz hoje não dá meu velho. Mulher que diz hoje não dá meu velho. Uma música esquisita. Quem toca? Um recado da mãe: tome o remédio. Tome uma atitude. Tome. Tome. Quem canta a porra da música? A ex-mulher querendo a grana. A pensão. As filhas querendo bonecas. A fêmea bela querendo sexo. Quem canta essa merda de música? A maconha sumiu. A cocaína ta batizada. O filme é terrível. CAZUZA! O ESCROTO QUE CANTA A FILHA DA PUTA DA MÚSICA É O VIADINHO DO CAZUZA. AQUELE MARAVILHOSO.
- cala a boca seu orangotango! Você ta assustando minhas samambaias!
- Enfia tuas samambaias no cu.

4
a literatura é arma sem alma é calma sem palma é salmo sem reza é corpo sem vela é sopro sem vento é luz sem descanso é puta sem dentes é trinca na chapa é chopp sem gelo é vinho batizado é sonho decapitado é sonho
açúcar
mascavo.

02 outubro, 2007


tenho que contar coisas

dizer aos outros que vejo coisas que não sei se são

são?

cabral diz que nada é assim tão sério, mas ele fuma pequenos pedaços de rapadura, tenho medo de suas colocações doçes, de seus doçes delírios, de sua língua sem sal ou mal.

tenho que juntar palavras

mas elas são assim

sem sim, sem não,

e dormem tranquilas em redes sem armador algum

as paredes dizem: cale-se e cáliçes de vinho tinto morno apareçem como por encanto.

de cada canto um ponto

de macumba pop baiana

mãe de santo ciber-punk recita salmos da trilogia matrix

eparrê minha mãe escrota e bolorenta

eis-me aqui cristo histérico

hipoteticamente são.

cabral diz: cruz

credo cabral.

cabral diz: fume tarântulas. escreve pro bob dylan.

diz assim: atotô atotô.

presentemente eu posso dizer: ausente. au au au sente. sente o quê meu mano brown.

a verdade me viu hoje,

mas saiu apressada, disse que se demorasse muito o gelo ia derreter.

29 setembro, 2007


Sebastiana descobriu a cor das flores aos dezoito anos. Assim, sem mais sem menos. Olhou uma flor no jardim de frente a casa de sua mãe e disse: “azul”. Como se dissesse algo de incomensurável. Seria banal, não fosse o fato de Sebastiana nunca ter falado até aquele dia. Sua mãe teve uma crise tão grande de alegria que vomitou vinte e três besouros. Seu pai, a novecentos e vinte e sete quilômetros dali, sentiu uma coisa no coração. Pensou: “puta que pariu! Ou eu tô tendo um ataque, ou Sebastiana descobriu o mistério das palavras.”

20 agosto, 2007

semana sem lei


Domingo: pareçe que é sempre sol quando se quer chuva. E vice o verso de Florbela espanca. Providência 1: lembrar de tomar o biotônico. Providência 2: lembrar qual o motivo de tomar o biotônico. o rádio toca “canção brasileira”. Raimundo Fagner era do caralho. Sim, mas hoje é domingo. Dia de olhar a mulher de dia. De lamber as crias. De escutar wolfmother e Vanessa da mata. Mônica salmaso, um pouco. E na hora da cerveja: led “black dog” zeppelin. No domingo dá dó da segunda. E a cara de felicidade número 29 dos apresentadores do fantástico não ajudam em nada... boa noite bonner. Boa noite o caralho!

Segunda: de caminhão. Slow motion. Gente triste. Ônibus. Dois policiais assassinados por ciganos. Uma moto caída na pista. Uma musicado camisa de Vênus remoendo no cérebro. Caetano esteve aqui. çê. Cantou pra quem teve dinheiro pra chacoalhar as jóias. O melhor? O tempo esconde. Tomada um: uma aranha, sem pressa, tece um ouço mais de teia ao redor de uma mosca desavisada. Corta. A máquina torna tudo chaplim. Tempos modernos. A noite vem chegando. Boa noite? Putaqueopariu.

Terça: projetos arquivados. Largar tudo? Amanhã. Gonzo. Gonzo. Gonzo. Lembrar de comprar um litro de campari. De beber devagar. De divagar. Projeto: ensinar alguém a ler. Pra ter alguém com quem falar. Não morrer de sede em frente ao sebo. Não distribuir porcos as pérolas. Fade in. Um abismo. Uma vagina. Uma novagina. Pra calmar a dor de se saber só no meio de um milhão.

Quarta: aprender a cozinhar. A discutir menos. A engolir comprimidos sem água. Sonhar feriados longos. Escutar cazuza na memória: “você na multidão, você é diferente”. A câmera fecha no dente de ouro da puta do posto. Ao longe, uma canção dos Stones. Satisfaction um caralho. Vademecum. Dominus vobiscum. Me imagino dentro de um filme. Só assim é possível. E a porra do texto? Esqueci. A tarde, lentamente se funde na noite. Boa? Boa uma porra!!! Uma bela porra meu camarada.

Quinta: um bom filme, talvez. Um livro lido. Relido. Hilda hilst. Dorothy lamour na voz de ednardo. Um vinho gelado. Uma anfeta. Afeta. Afeto.

Sexta: peixe. Amigos bossa novistas.violão. cerveja. Discussões filosóficas sobre o rio são Francisco, a maconha a polinésia francesa, o atol das rocas, a poética de Ana Cristina César, a validade da arte dos irmãos campos, as drogas químicas, o suicídio, a maionese, os cadarços dos sapatos, o sexo tântrico das borboletas.

Sábado: dia de pagar peãozada. Procurar o que fazer de noite. Discutir no trampo. A noite demora. Vai rolar branco. Vai rolar preto. Vai rolar rave. Cadê a porra da lua? Cinqüenta conto. Dá? Dá. Ritmo. De fim de tudo. A tarde é lenta. Enta. Enta. Sábado. Enfim. Grito. Mordida. Costas arranhadas já quase domingo. Domingo... puta que o pariu!!!!!

26 julho, 2007


Artefatos de vidro e sonho


1
Me vejo no lagarto encantado
que recita versos em cima da pedra
caem folhas outonais
dos lábios dos semáforos em chamas
cariris solitários
pedem a morte em seus mini castelos
nada porque lutar, lugar nenhum pra chegar

Me vejo no lagarto encantado
que torna verde tudo que vê
voam andorinhas de vento
passando pelos ouvidos dos hidrantes
cariris homeopáticos
cheiram a morte em pratos rasos
nada porque sonhar, lugar nenhum pra querer
me vejo no lagarto encantado.
Some. Sumo.

2
Se ousasse, marte
se tentasse, mirtes
se subisse, temesse,
falasse...
morte.

3
Tenho medo e digo: amo
mas poderia dizer qualquer coisa, sim poderia.
Sonho cores impossíveis, penso, só penso
frases recheadas de enigmas paraplégicos.
Mesmo assim tenho medo e digo: amo.
E entendo tão pouco disso que gargalho do que digo.
Acendo velas de cheiros exóticos,
escuto zeca baleiro e chet baker
cozinho coisas esquisitas na panela, dentro de mim.
Os passarinhos, que não entendo, voam no lixo, voam do lixo, voam.
Eu tenho medo, e digo: amo.
E lendo amo nos meus poetas, e ouvindo amo nos meus cantores,
e assistindo amo nos meus filmes mudos, sei
que o que sei é quase nada.
não amo.

18 julho, 2007


A esperança bebe cerveja sem medo
E come pastéis com óleo de antes de ontem
trepa sem camisinha sem se incomodar com comentários
Cheira, bebe e mente
Escuta cazuza, roro e lê jack london
A esperança não está nem aí.
Ela sabe
Que vai ser a última a morrer.

12 julho, 2007


Eu canto uma canção que fala do final de tudo
O futuro marcando o passado
Feito um dado viciado em tempo
Eu recito um poema que fala de uma velha senhora de belos cabelos de algodão
Elisa, a não áspera
Ela que gostava de escolher e colecionar
Juntava miniaturas, mimos de uma criança que talvez nem foi
Guardados a sete chaves, e só mostradas a poucas e raras pessoas
Ela escolheu viver, e pagou o preço de envelhecer
Gostava de azul, e foi azul sua roupa da viagem derradeira
Gostava de santos, e sabia seus nomes e seus dias de festa e guarda
Sabia mais orações de poder e novenas do que seria necessário
Era sua brincadeira de criança: rezar, fazer crochet e
Olhar com seus olhos de coisa antiga, a vida
Que corria célere ao seu lado
Eliza matos, raiz com poderes de mimo cura e bem querer
Abençoava as costas de quem partia e, em nome de deus
Abençoava e beijava os que chegavam.
*
ela me contava histórias do arco da velha que começavam com “era uma vez”, e que sempre terminavam com alguma trama fabulosa que se misturava com nossa família. Ela me ensinava brinquedos de pensar. Ela, enquanto pôde, foi senhora do tempo: sabia quando ia chover pela dor dos seus ossos, sabia quem prestava ou não pelos olhos, pelo jeito Capitu de olhar.
*
um piston rasgou o silêncio que acompanhava seu derradeiro passeio pelas ruas de sua cidade querida. Senhora Santana. Padroeira forte.
Recebendo em seus braços a senhora Eliza. A senhora avó. Que a vida tornou áspera, mas nunca lhe roubou a doçura.
*
vó Eliza, o mundo de onde você foi embora anda esquisito. Veloz. Mas mesmo assim, belo. Vó Eliza, Luizinho aprendeu muita coisa contigo. Mais do que pensava, menos do que deveria. Eu fico grato por ter tido o presente de compartilhar contigo meus anos de menino. E te amar, cada dia um tiquinho, até ter hoje, em meu coração, o teu nome tatuado com perfume. Vó Eliza. Saudade.

20 junho, 2007


Enfim, regurgitar a dor. Cuspi-la. Pari-la. Saber sem temor da inutilidade da cicatriz, e da sua inevitabilidade. Acordar. Respirar. Olhar a janela e procurar um jardim. Um jardineiro. Uma borboleta. Achar se faz necessário: um pequeno riso, beBê ainda e tentar faze-lo crescer. Até que ele surja imponente – uma gargalhada. Enfim, mergulhar na boceta do tempo. Ser ao mesmo tempo o pau, a boceta e o gozo. Sentir o gozo. Entrar útero a dentro. Invasor e inquilino. Crescer dentro do tempo. Abrir os olhos. Renascer. Ser. De novo um homem.
*
REPETIR: o menino magrelo comendo castanholas maduras no chão da praça. O menino olhando o muro do colégio, tão alto. O menino pescando peixes de nada na curva do rio salgadinho.

CANCELAR: as pequenas dores. Depois transformar as grandes em pequenas. Cancelar todas.

FILMAR: o primeiro riso das filhas. O por do sol no cruzeiro, lá em Santana. O beijo na boca de Ana sexta feira. O amanhecer na sé, em craterdã.
*
a cerveja gelada
no copo
pra esfriar o fogo dos olhos
do ser quase fogo
liquefeito homem
*
“e aí, bati com os olhos no luar, e alua foi bater no mar... e eu fui que fui...ficando”

16 junho, 2007

14 junho, 2007


Abro o olho e o brilho do sol incomoda. Então estou vivo. O sol só incomoda os vivos, acho eu. A parede molhada de vinho é cenário. O chão. A casa. Tudo é cenário. Arrenego de quem diz. Matrix real de um mundo irreal. Nada de contar as horas. Nada de vomitar beijos dados e recebidos sabe-se lá como. Break break to operate again. Ozzy vomitando Mr. Crowley em meus miolos parcos e em decomposição. Arrenego de quem diz. O sol depois de um tempo já não incomoda. Cinco de la terde. O barulho ensurdecedor da comedora de cebolas parece jazz. Parece blue. Parece nada. Escravos de jó jogando a vida no esgoto da sensaboria. O sol sumiu faz tempo. As estrelas trazem o frio, a vontade de beber. Hoje eu quero sair só...Não demora eu to de volta, tchau.
2
diva divagando nas ruas de sampa city. Diva delirando em poemas exóticos e inconformados. Formados de veneno anti-monotonia e ecstasy. Diva abrindo o cariri com uma faca de luz e sombra. Fomos. Viemos. Enterramos nossos pés índios no mundo, e nada foi como antes. Diva diz: sonhe. Mas mantenha-se acordado. Meta o pé na porta, mas conserve uma arma embaixo do travesseiro. Ame. Mas em silêncio.
3
A luz mortiça da lua
Em dó maior
A noite
Devagar
Abre as pernas
Pra porra do sol
4
the who
eu quero...
antes de ficar...

09 junho, 2007


- Cadê meu vesúsio?
- Himalaia...
- e minha extensa lista de sonhos?
- pesadelos
- o rango, que falaram que era farto?
- azedou na panela...
- a cerveja, gelada, quebrando no dente...

eravidroesequebroueravidroesequebroueravidro. Era vidro?

Minha mochila com asas
Meus olhos de arrancar pedras do meio
Meu são Jorge guerreiro de férias
Meu amigo, que foi na frente

Eravidroesequebroueravidroeravidro. Se quebrou?

Um dia.
O dia fica grande demais.
É o dia.
De não mais adiar.

08 junho, 2007


Origens

Jerimum era o terceiro filho de escolástica. Era gazo. Branco que doía na vista. E tinha os cílios louros como os de uma boneca. Jerimum era o seu nome de pia. O padre achou insólito, mas batizou. O apelido era boneca de louça, mas o camarada tinha que ter muita coragem pra dizer a alcunha e permanecer por perto.

*
O segundo filho foi batizado com o nome do pai. Outro pai, diga-se de passagem. Nome estranho: Miruca. O padre nunca discutiu os nomes dos filhos de dona escolástica. Primeiro, porque ela lavava suas batinas de graça. E depois, porque ela era a maior doceira de todas aquelas cercanias. Miruca tinha todos os defeitos que um menino pode ter: feio, sujo, remelento, ladrão e mentiroso. Mas, - e isso era o mais importante – era o maior goleiro que a cidade já tinha visto. Um dia saiu com seu irmão jerimum pra nadar no riacho salgadinho. No meio da brincadeira, chamou-o pelo fatídico apelido. Boneca de louça agarrou no pescoço de miruca, e segurou-o embaixo da água até que ele parou de se debater. Mortinho da silva. Dona escolástica quando soube do acontecido mandou buscar o corpo e deu-lhe uma surra tão grande, mas tão grande, que o corpo de miruca rebelou-se com o castigo: ressuscitou. Por isso que o povo fala da fama de milagreira de dona escolástica. E diz-se, sem o padre saber é lógico, que só miruca e Jesus nasceram e morreram e nasceram de novo.
*
Efigênia afuática era a primogênita. Nasceu pra dar. Além disso, não sabia fazer porra nenhuma. Sabia? Sabia nada. Com onze anos de idade ficou prenha. E logo que o menino nasceu ela deu. O menino a uma mulher sem nome que pediu na porta. O priquito, a Benedito, filho de Osvaldo coveiro. E assim foram se sucedendo: trepadas, nascimentos e doações. Até que um dia, sem mais, sem menos, ela parou. De trepar e de dar filhos. Vinte e três filhos doados. E uma menina, a última, que ela judiou o quanto pôde: Sebastiana.

04 junho, 2007


Gustavo rios cabeção, eu estou com você andando pelas ruas mal iluminadas de sin city de madrugada. Nós dois sabemos da inutilidade de tudo. Mas a bebida engolida as pressas torna o real menos áspero.
Gustavo rios cabeção, a palavra “não” é feminina. É na boca de uma mulher que essa palavra mostra todo o seu poder absoluto de destruição, pavor e escuridão.
Gustavo rios cabeção, eu quis que você estivesse ontem comigo, pra escutar mais uma das minhas histórias tristes. Pra que você bebesse comigo uma dose de qualquer porra forte, e transformasse tudo em uma piada beat sarcástica e cruel.
Gustavo rios cabeção, a dona do meu coração criou asas. E olhando bem no fundo dos meu olhos disse: “eu não amo você”. Quatro palavras. Quatro tiros. Quatro filetes de sangue. Os últimos.
Gustavo rios cabeção, eu poderia te escrever um tanto. Eu poderia te contar de serras que vi. De rios morenos que lavaram meus pés. De músicas esquisitas que sacudiram meu velho coração cariri. De um pôr do sol na serra do Crato, com vinho barato e maconha e poesia. Mas a única coisa que me vem de te dizer é que o resto do meu coração implodiu. Não restou porra nenhuma.
Gustavo rios cabeção, eu estou triste meu camarada. Como há muito tempo eu não ousava. Talvez porque há muito tempo eu não deixava ninguém chegar tão perto. Talvez porque eu tenha certeza que você está absolutamente certo: o amor é feio.

03 junho, 2007


1
Guardo em mim segredos há muito esquecidos pelos outros. Por isso leio. Por isso releio. Decoro. Armo arapucas de memória em versos fedorentos de Ferreira Gullar. Guevara sussurra versos na sierra maestra. Fidel é um hijo de puta. Cuba é morena, tem suor de malemolência, e pulsa na América como um copo dourado de cuba libre.
2
Gustavo de cabeça salvadorenha cozinha um amor feio em sua panela multifacetada: amor mais mentira mais derrota mais porre mais desilusão mais poesia mais dor mais bebedeira mais baseado mais rock and blues mais vinho barato mais cerveja gelada mais baseado mais amor mais suor mais tempero mais aliche mais tênis sujos e rotos mais livros mais livros mais livros... guardo em mim segredos do arco da velha Sebastiana. Ela sabe o que diz, e diz: Gustavo rios é um dos mais fudidos eleitos. Um beat até a medula suja. Um escroto parido entre baladas de Dolores Duran e chet Baker. Gustavo rios é um grande escritor. E a porra do amor é mesmo feio. E o livro do filho da puta do Gustavo rios é lindo, e fede a vida. E é maravilhoso de ver e viver e se retratar nele.
3
Gabi tem a mão pesada de quem sabe que se não escrever agora neste instante alguma coisa se quebrará e não terá mais conserto gabi sabe que a memória tem um gosto travoso de fruta e saudade e que depois de dita já não é sabor é sabedoria gabi belisca com suas unhas pntiagudas a alma dos que ainda se queixam de ter uma gabi ama e odeia com a mesma intensidade viral.
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Chico César e zeca baleiro e Lenine e cazuza e redson do cólera e João gordo dos ratos de porão e Jim morrison dos doors e a guitarra ensandecida dos king crinsons e a batera alucinógena do zeppelim e a voz fudida de mama cass e Rafael fel vomitando poesias em craterdã e nicodemos tocando viola caipira no bar de socorro e o cuscuz com ovo no bar de zefinha as cinco e meia da manhã e a cascata de Wilson lavando a alma dos bêbados e as cebolas que pululam em minhas retinas cansadas e o frio de junho e a vontade de matar a ex mulher e a poesia encravada em minha alma de ermitão filho da puta e minha irmã amada em algum lugar de fortaleza e primos e filhas e poesia e baseado e vinho e cerveja e love street palpebrite london calling hey mama seis gotas o olho do cachorro.
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no olho do cachorro o mesmo olho malvado de deus/o bar caindo aos pedaços bêbados náufragos reis e plebeus/sempre os quatro coringas nas mãos de quem tem mais poder/trepadas envenenadas é quase nada vão todos morrer/correndo sempre procurando qualquer porta de saída/bêbado sempre morrendo de viver demais...

24 maio, 2007


Ele a olhou como se ela fosse um ser saído de um filme de ficção científica, blade runner? O homem do castelo alto? 2001 uma odisséia do espaço?
Ela o olhou como se ele fizesse parte da paisagem.
Ele quis levantar e ir na direção dela, mas teve medo.
Ela pensou com seus poucos botões: - se esse escroto encostar eu digo que tenho uma doença contagiosa.
Ele chamou o garçom e pediu uma cerveja com gelo no copo.
Ela pediu um Martini seco.
Ele pensou: - porque eu pedi essa porra com gelo no copo?
Ela pensou: - eu deveria ter pedido uma dose letal de qualquer veneno.

A radiola de fichas tocava “angie” na voz sensual de mick Stones Jagger.

*

Depois da quinta cerveja ele decidiu falar com ela.
Depois da oitava dose ela se perguntava onde acharia o otário que pagaria aquela conta.
Ele ia. Desistiu. Passou direto pro banheiro.
Ela esperou. – deve ser advogado. Pensou. Vai esperar que a bebida resolva por ele.

A radiola de fichas tocava “eu não sou cachorro não” e waldick soriano era quase Edith piaf.

*

Ele: - a cor do seu cabelo é bem bonita. (meu deus! Ela vai achar que eu disse que ela pinta o cabelo).
Ela: - eu escuto Vivaldi quando estou cagando. Isso deve influenciar na cor do meu cabelo. (esse imbecil vai dizer a que veio ou não?)
Ele: (rindo a meia boca) – você é bem humorada. (bruta pra caralho) Admiro isso numa mulher. (porra!!! Como é que eu saio dessa??)
Ela: - eu gosto de transar assistindo aqueles filmes antigos da pantera cor de rosa. (vou transformar esse cara numa empada). Gosto também de me masturbar ouvindo o programa de meteorologia. (ele está suando frio). Mas meu sonho de consumo é implantar um pênis com mp3 acoplado. (ele vai vomitar). Me fala uma coisa, você pode pagar minha conta? É que eu nunca tenho dinheiro. E adoro beber. (ele queria ser uma mosca, e voar pra bem longe).

*

Ele: - você é uma figura... (suma, desapareça, apague!)
Ela: - um personagem, você quer dizer né? Sou sim. Uma replicante. Sonhada por philiph k. dick.
Em sua mão uma reluzente arma começa a vomitar um raio fino e azul.

19 maio, 2007


Anacleto era analfabeto de pai e mãe. Mas se ele visse uma formiga encangada com outra, levando folha no lombo, vaticinava: chuva du carai! E era batata. Chuva de matar sapo afogado. Olhando o céu via coisas que os outros nem imaginavam. Nuvem virava anjo, avião, barco, girafa. Além de contar segredos que os outros nunca saberiam. Estiagem, mulé traindo marido, burrico que fugiu, violeiro novo que vinha, festa. Tudo ele sabia sem saber. E os que sabiam, sabiam nada. Anacleto também sabia os sabores da terra: pequi, mangaba, jaca, goiaba de vez, siriguela madura. E esses sabores ele sentia como ninguém: olhos fechados, riso escancarado. Anacleto conhecia as pessoas pelo nome da mãe e do pai: joão de maria, francisco de antõe pedro, elena de abdias. Anacleto se apaixonou uma vez por um passarinho, um cabeça vermelha que nunca cantou. E por uma mulher que um dia veio no circo. Ela pediu cinco contos. Deu um beijo. E sumiu em uma segunda feira de céu azul sem uma nuvem. Anacleto nunca mais viu graça nenhuma em nada. Soltou o passarinho. Deixou de adivinhar. Aprendeu a ler.