20 junho, 2007


Enfim, regurgitar a dor. Cuspi-la. Pari-la. Saber sem temor da inutilidade da cicatriz, e da sua inevitabilidade. Acordar. Respirar. Olhar a janela e procurar um jardim. Um jardineiro. Uma borboleta. Achar se faz necessário: um pequeno riso, beBê ainda e tentar faze-lo crescer. Até que ele surja imponente – uma gargalhada. Enfim, mergulhar na boceta do tempo. Ser ao mesmo tempo o pau, a boceta e o gozo. Sentir o gozo. Entrar útero a dentro. Invasor e inquilino. Crescer dentro do tempo. Abrir os olhos. Renascer. Ser. De novo um homem.
*
REPETIR: o menino magrelo comendo castanholas maduras no chão da praça. O menino olhando o muro do colégio, tão alto. O menino pescando peixes de nada na curva do rio salgadinho.

CANCELAR: as pequenas dores. Depois transformar as grandes em pequenas. Cancelar todas.

FILMAR: o primeiro riso das filhas. O por do sol no cruzeiro, lá em Santana. O beijo na boca de Ana sexta feira. O amanhecer na sé, em craterdã.
*
a cerveja gelada
no copo
pra esfriar o fogo dos olhos
do ser quase fogo
liquefeito homem
*
“e aí, bati com os olhos no luar, e alua foi bater no mar... e eu fui que fui...ficando”

16 junho, 2007

14 junho, 2007


Abro o olho e o brilho do sol incomoda. Então estou vivo. O sol só incomoda os vivos, acho eu. A parede molhada de vinho é cenário. O chão. A casa. Tudo é cenário. Arrenego de quem diz. Matrix real de um mundo irreal. Nada de contar as horas. Nada de vomitar beijos dados e recebidos sabe-se lá como. Break break to operate again. Ozzy vomitando Mr. Crowley em meus miolos parcos e em decomposição. Arrenego de quem diz. O sol depois de um tempo já não incomoda. Cinco de la terde. O barulho ensurdecedor da comedora de cebolas parece jazz. Parece blue. Parece nada. Escravos de jó jogando a vida no esgoto da sensaboria. O sol sumiu faz tempo. As estrelas trazem o frio, a vontade de beber. Hoje eu quero sair só...Não demora eu to de volta, tchau.
2
diva divagando nas ruas de sampa city. Diva delirando em poemas exóticos e inconformados. Formados de veneno anti-monotonia e ecstasy. Diva abrindo o cariri com uma faca de luz e sombra. Fomos. Viemos. Enterramos nossos pés índios no mundo, e nada foi como antes. Diva diz: sonhe. Mas mantenha-se acordado. Meta o pé na porta, mas conserve uma arma embaixo do travesseiro. Ame. Mas em silêncio.
3
A luz mortiça da lua
Em dó maior
A noite
Devagar
Abre as pernas
Pra porra do sol
4
the who
eu quero...
antes de ficar...

09 junho, 2007


- Cadê meu vesúsio?
- Himalaia...
- e minha extensa lista de sonhos?
- pesadelos
- o rango, que falaram que era farto?
- azedou na panela...
- a cerveja, gelada, quebrando no dente...

eravidroesequebroueravidroesequebroueravidro. Era vidro?

Minha mochila com asas
Meus olhos de arrancar pedras do meio
Meu são Jorge guerreiro de férias
Meu amigo, que foi na frente

Eravidroesequebroueravidroeravidro. Se quebrou?

Um dia.
O dia fica grande demais.
É o dia.
De não mais adiar.

08 junho, 2007


Origens

Jerimum era o terceiro filho de escolástica. Era gazo. Branco que doía na vista. E tinha os cílios louros como os de uma boneca. Jerimum era o seu nome de pia. O padre achou insólito, mas batizou. O apelido era boneca de louça, mas o camarada tinha que ter muita coragem pra dizer a alcunha e permanecer por perto.

*
O segundo filho foi batizado com o nome do pai. Outro pai, diga-se de passagem. Nome estranho: Miruca. O padre nunca discutiu os nomes dos filhos de dona escolástica. Primeiro, porque ela lavava suas batinas de graça. E depois, porque ela era a maior doceira de todas aquelas cercanias. Miruca tinha todos os defeitos que um menino pode ter: feio, sujo, remelento, ladrão e mentiroso. Mas, - e isso era o mais importante – era o maior goleiro que a cidade já tinha visto. Um dia saiu com seu irmão jerimum pra nadar no riacho salgadinho. No meio da brincadeira, chamou-o pelo fatídico apelido. Boneca de louça agarrou no pescoço de miruca, e segurou-o embaixo da água até que ele parou de se debater. Mortinho da silva. Dona escolástica quando soube do acontecido mandou buscar o corpo e deu-lhe uma surra tão grande, mas tão grande, que o corpo de miruca rebelou-se com o castigo: ressuscitou. Por isso que o povo fala da fama de milagreira de dona escolástica. E diz-se, sem o padre saber é lógico, que só miruca e Jesus nasceram e morreram e nasceram de novo.
*
Efigênia afuática era a primogênita. Nasceu pra dar. Além disso, não sabia fazer porra nenhuma. Sabia? Sabia nada. Com onze anos de idade ficou prenha. E logo que o menino nasceu ela deu. O menino a uma mulher sem nome que pediu na porta. O priquito, a Benedito, filho de Osvaldo coveiro. E assim foram se sucedendo: trepadas, nascimentos e doações. Até que um dia, sem mais, sem menos, ela parou. De trepar e de dar filhos. Vinte e três filhos doados. E uma menina, a última, que ela judiou o quanto pôde: Sebastiana.

04 junho, 2007


Gustavo rios cabeção, eu estou com você andando pelas ruas mal iluminadas de sin city de madrugada. Nós dois sabemos da inutilidade de tudo. Mas a bebida engolida as pressas torna o real menos áspero.
Gustavo rios cabeção, a palavra “não” é feminina. É na boca de uma mulher que essa palavra mostra todo o seu poder absoluto de destruição, pavor e escuridão.
Gustavo rios cabeção, eu quis que você estivesse ontem comigo, pra escutar mais uma das minhas histórias tristes. Pra que você bebesse comigo uma dose de qualquer porra forte, e transformasse tudo em uma piada beat sarcástica e cruel.
Gustavo rios cabeção, a dona do meu coração criou asas. E olhando bem no fundo dos meu olhos disse: “eu não amo você”. Quatro palavras. Quatro tiros. Quatro filetes de sangue. Os últimos.
Gustavo rios cabeção, eu poderia te escrever um tanto. Eu poderia te contar de serras que vi. De rios morenos que lavaram meus pés. De músicas esquisitas que sacudiram meu velho coração cariri. De um pôr do sol na serra do Crato, com vinho barato e maconha e poesia. Mas a única coisa que me vem de te dizer é que o resto do meu coração implodiu. Não restou porra nenhuma.
Gustavo rios cabeção, eu estou triste meu camarada. Como há muito tempo eu não ousava. Talvez porque há muito tempo eu não deixava ninguém chegar tão perto. Talvez porque eu tenha certeza que você está absolutamente certo: o amor é feio.

03 junho, 2007


1
Guardo em mim segredos há muito esquecidos pelos outros. Por isso leio. Por isso releio. Decoro. Armo arapucas de memória em versos fedorentos de Ferreira Gullar. Guevara sussurra versos na sierra maestra. Fidel é um hijo de puta. Cuba é morena, tem suor de malemolência, e pulsa na América como um copo dourado de cuba libre.
2
Gustavo de cabeça salvadorenha cozinha um amor feio em sua panela multifacetada: amor mais mentira mais derrota mais porre mais desilusão mais poesia mais dor mais bebedeira mais baseado mais rock and blues mais vinho barato mais cerveja gelada mais baseado mais amor mais suor mais tempero mais aliche mais tênis sujos e rotos mais livros mais livros mais livros... guardo em mim segredos do arco da velha Sebastiana. Ela sabe o que diz, e diz: Gustavo rios é um dos mais fudidos eleitos. Um beat até a medula suja. Um escroto parido entre baladas de Dolores Duran e chet Baker. Gustavo rios é um grande escritor. E a porra do amor é mesmo feio. E o livro do filho da puta do Gustavo rios é lindo, e fede a vida. E é maravilhoso de ver e viver e se retratar nele.
3
Gabi tem a mão pesada de quem sabe que se não escrever agora neste instante alguma coisa se quebrará e não terá mais conserto gabi sabe que a memória tem um gosto travoso de fruta e saudade e que depois de dita já não é sabor é sabedoria gabi belisca com suas unhas pntiagudas a alma dos que ainda se queixam de ter uma gabi ama e odeia com a mesma intensidade viral.
4
Chico César e zeca baleiro e Lenine e cazuza e redson do cólera e João gordo dos ratos de porão e Jim morrison dos doors e a guitarra ensandecida dos king crinsons e a batera alucinógena do zeppelim e a voz fudida de mama cass e Rafael fel vomitando poesias em craterdã e nicodemos tocando viola caipira no bar de socorro e o cuscuz com ovo no bar de zefinha as cinco e meia da manhã e a cascata de Wilson lavando a alma dos bêbados e as cebolas que pululam em minhas retinas cansadas e o frio de junho e a vontade de matar a ex mulher e a poesia encravada em minha alma de ermitão filho da puta e minha irmã amada em algum lugar de fortaleza e primos e filhas e poesia e baseado e vinho e cerveja e love street palpebrite london calling hey mama seis gotas o olho do cachorro.
5
no olho do cachorro o mesmo olho malvado de deus/o bar caindo aos pedaços bêbados náufragos reis e plebeus/sempre os quatro coringas nas mãos de quem tem mais poder/trepadas envenenadas é quase nada vão todos morrer/correndo sempre procurando qualquer porta de saída/bêbado sempre morrendo de viver demais...