19 maio, 2007


Anacleto era analfabeto de pai e mãe. Mas se ele visse uma formiga encangada com outra, levando folha no lombo, vaticinava: chuva du carai! E era batata. Chuva de matar sapo afogado. Olhando o céu via coisas que os outros nem imaginavam. Nuvem virava anjo, avião, barco, girafa. Além de contar segredos que os outros nunca saberiam. Estiagem, mulé traindo marido, burrico que fugiu, violeiro novo que vinha, festa. Tudo ele sabia sem saber. E os que sabiam, sabiam nada. Anacleto também sabia os sabores da terra: pequi, mangaba, jaca, goiaba de vez, siriguela madura. E esses sabores ele sentia como ninguém: olhos fechados, riso escancarado. Anacleto conhecia as pessoas pelo nome da mãe e do pai: joão de maria, francisco de antõe pedro, elena de abdias. Anacleto se apaixonou uma vez por um passarinho, um cabeça vermelha que nunca cantou. E por uma mulher que um dia veio no circo. Ela pediu cinco contos. Deu um beijo. E sumiu em uma segunda feira de céu azul sem uma nuvem. Anacleto nunca mais viu graça nenhuma em nada. Soltou o passarinho. Deixou de adivinhar. Aprendeu a ler.

2 comentários:

kleber disse...

que belo anacleto me faria
não fosse o saber da leitura
fosse eu a natureza
morreria sem cagar

Villa disse...

acho que todos somos anacleto, aquele do final do texto.. leitor.