12 julho, 2007


Eu canto uma canção que fala do final de tudo
O futuro marcando o passado
Feito um dado viciado em tempo
Eu recito um poema que fala de uma velha senhora de belos cabelos de algodão
Elisa, a não áspera
Ela que gostava de escolher e colecionar
Juntava miniaturas, mimos de uma criança que talvez nem foi
Guardados a sete chaves, e só mostradas a poucas e raras pessoas
Ela escolheu viver, e pagou o preço de envelhecer
Gostava de azul, e foi azul sua roupa da viagem derradeira
Gostava de santos, e sabia seus nomes e seus dias de festa e guarda
Sabia mais orações de poder e novenas do que seria necessário
Era sua brincadeira de criança: rezar, fazer crochet e
Olhar com seus olhos de coisa antiga, a vida
Que corria célere ao seu lado
Eliza matos, raiz com poderes de mimo cura e bem querer
Abençoava as costas de quem partia e, em nome de deus
Abençoava e beijava os que chegavam.
*
ela me contava histórias do arco da velha que começavam com “era uma vez”, e que sempre terminavam com alguma trama fabulosa que se misturava com nossa família. Ela me ensinava brinquedos de pensar. Ela, enquanto pôde, foi senhora do tempo: sabia quando ia chover pela dor dos seus ossos, sabia quem prestava ou não pelos olhos, pelo jeito Capitu de olhar.
*
um piston rasgou o silêncio que acompanhava seu derradeiro passeio pelas ruas de sua cidade querida. Senhora Santana. Padroeira forte.
Recebendo em seus braços a senhora Eliza. A senhora avó. Que a vida tornou áspera, mas nunca lhe roubou a doçura.
*
vó Eliza, o mundo de onde você foi embora anda esquisito. Veloz. Mas mesmo assim, belo. Vó Eliza, Luizinho aprendeu muita coisa contigo. Mais do que pensava, menos do que deveria. Eu fico grato por ter tido o presente de compartilhar contigo meus anos de menino. E te amar, cada dia um tiquinho, até ter hoje, em meu coração, o teu nome tatuado com perfume. Vó Eliza. Saudade.

3 comentários:

Kleber disse...

Bonita homenagem e história vivida. Há o que se guardar e cada um fez e faz seu papel de galho. Abraço!

Rafael disse...

Emocionante. Dona Eliza tá orgulhosa do neto que se fez poeta. Sinto-me abençoado por tê-la conehcida. Com certeza, pela sua bênção nas minhas costas.

Anônimo disse...

Com certeza ela sabe o quanto foi é e será importante para todos nós! Bonitas as suas palavras primo, vc é o neto q ela ama como a um filho! Bj grande! Geraldo Filho