31 julho, 2008


Dividi com Miguel uma bolacha creme cracker com doce de goiaba quando tínhamos doze anos. O povo dizia de Miguel: - é fraco da mente, tadinho. Ele não ligava. Ou fingia bem. Quando a gente vinha da escola ele dizia: - de noite eu não sou doido. Doido de noite? Tem quem seja. No dia da chuva eu o vi no meio do campo de futebol. Sozinho. Me disse que estava conversando com as coisas. E que na chuva as coisas falam com mais clareza. Miguel tem o dom de entrar nos lugares e não ser notado. Tem as roupas e sapatos cheios de marcas, assim como seus joelhos. Caía muito meu amigo Miguel. Com ou sem ajuda. Não sei por que lembro de Miguel quando estou sozinho. Mas lembro. Talvez por ter sentido nele o animal da solidão que me apavora hoje. Dia desses nos encontramos. Ele me abraçou. Lembrou que tinha – um dia – soprado velinhas coloridas de um bolo. Quando tinha sido. Amanhã? Semana passada? Dez anos atrás? Ontem? Ontem. Palavra engraçada: ontem. Ontem Miguel ria com todos os dentes. E me confessou: quando a lua ta cheia, ele uiva.

24 julho, 2008


Ela jura. Gosta de jurar. Quero estar perto não estando. Aparecer enquanto estou escondido. Ela jura que não é bem assim. Que a compreensão é turva. Quero não entender. Cortar o verso da fala. Monossilabicamente dizer sim e não na mesma frase. O ser que imagino metade é isso. Ela diz que tudo tem mais de um ângulo. Que o filme é bom no final. Ela jura. Ela cantarola uma canção. Jura que sua avó cantava isso perto de sua cama. Duvido dela. Da existência dessa avó. Ninguém sabe cantar. Eu não sei. Ela jura que meus erros são iguais. Eu, que não sei rir. Rio. Detesto repetir. Eu quero cometer erros novos. Abrindo as cartas sei: Tereza morreu. Chico caiu da moto. A polícia civil me deu um flagrante brabo. A vela da noite anterior queimou inteira. Ela jura que conserta tudo. Fecho a porta. Ficou tudo branco e preto.

23 julho, 2008


um conselho:
crie seu filho
jogue fora
o espelho.

Eu tenho o vento
E parte de mim é asa
Misto de beija flor e morcego
Não adianta esperar então
Existem coisas que se queimam
Na lareira
Vou levar a mala
Que tem um carnaval amarrado dentro.

15 julho, 2008


Três da manhã. Ela deve estar dormindo. Ela deve estar ligando pra minha mãe. Pra mãe dela. Ela deve estar assistindo o último filme da globo. Ela deve estar rasgando minhas camisas. Ela deve estar vasculhando minhas anotações. Ela deve estar arrumando as coisas dela pra ir embora. Ela... será que ela pegou uma faca da cozinha? Será que botou veneno no suco? Ela...
Três e quinze. Tenho que entrar. Chave sem barulho na fechadura. Sapatos tirados na perícia ninja das madrugadas. Pé ante pé. Um som estranho. Acima da música. Gemidos. Ela está com alguém. Não, é um filme. Ela está com alguém. Não, é a porra da música. Ela está...
Três e vinte. Porta do quarto só encostada. Abajur ligado. Penumbra. Vejo a bunda. Dela? De outra ela? De algum ele? O gemido é dela. É? Procuro pelo chão pistas que me digam o óbvio. Circulo devagar a cama. De olhos bem fechados. Ela balbucia palavras sem sentido. Pele arrepiada. Prazer. Muito prazer. Vou dos seus olhos pra sua boca. Entreaberta. Pele suada. Onde ta o cara? A mina? Peitos sacudindo. Mais um orgasmo. Procuro ver de onde emana tanto gozo.
Três e meia. Sua mão saciada solta seu amante. Olho com inveja pro cabo da escova de cabelo. Saio. Pé ante pé. Vou pra sala e ligo a tv. No vídeo ela deixa a pista, em batom vermelho: “enquanto você dorme, o mundo gira”.

13 julho, 2008


Curriculum vitae

livros que leu: quase tudo do G.G. marquez, quase tudo dos beats, quase tudo que me foi mandado na escola, quase tudo da poesia marginal anos 70, quase tudo do tudus de arnaldo antunes.

comida que não comeu: sushi e quase tudo que é comida metida a besta

pensamento lúcido: jamais amei roberto carlos

pensamento bêbado: a importância de não estar lúcido, é compreender quem não é lúcido nunca.

últimas ocupações: carteiro, poeta,vendedor de livros, artesão, mexer com cebola.

sonho de querubim: ser amigo de win wenders

noite ou dia: todas as noites e alguns dias

quais são as palavras: sim salabin

bêbados riem de quê: os bêbados riem deles mesmos, dos outros, de coisas e pessoas (não necessariamente nessa ordem). depois riem de novo, e vão rindo, até que deles só sobre isso: o som cristalino do riso.
O que é poesia: poesia me parece ser a tentativa de retratar o mundo em um 3 x 4 em terceira dimensão.

quem não é profeta: não são profetas os que profetizam. todos os outros são. os caras sentados em suas cadeiras na porta de casa, em uma pequena cidade do interior, são todos profetas: sabem quando vai chover, quando vai ser o batizado de maria, quem morreu e quem tá quase, e nem por isso se acham melhores. só são especiais pra quem os olha de longe.

O que é levar um susto saindo do val improviso: é pagar o sapo de ser pego no flagrante. é o beijo na garçonete. é o tapa no baseado. é a passada de mão na bunda da vizinha, bem de leve e com consentimento.

09 julho, 2008


SOLTO OS NÓS DOS SAPATOS E O LADRÃO ME ALIVIA. SOLIDÃO! ENTRE DUAS MIL PRETENSAS CRIATURAS HOMUSAPIENS. O VELHO FORD BIGODE URINA COMO UM VELHO. A CIDADE SOPRA VAPORES DE ESGOTOS E FOSSAS ANTI-SÉPTICAS. O MAU HÁLITO É CONSEQUÊNCIA DO MAU HUMOR. A PELE QUE DEGENERA COM O SOL DO MEIO DIA É SÓ UMA PÁGINA QUALQUER DE UM LIVRO INACABADO. NENHUM LIVRO ENSINA OS MANÍACOS ADOLESCENTES A CONTAR CARNEIRINHOS ANTES DE DORMIR. O ORIFÍCIO DO SOVACO DA COBRA É SÓ UMA PISTA DE CONTRA MÃO CONTRA FLUXO CONTRA FLEUMA DA ESQUISITA SONOLÊNCIA DA MARIJUANA STRIPTEASE. O SÍNDICO MORREU NO PALCO GENIAL E GRANDIOSO COMO POUCOS. QUEM SABE AO CERTO, SABE. QUEM NÃO, VAI TER DE DESISTIR. O LUAU DOS CARBONÁRIOS É SÓ UM REVIVAL DE PARANÓIA JUVENIL. NOSSA GUERRA SEMPRE ESTEVE PERDIDA. UM QUILO DO BOM É A PASSAGEM DA MÁGICA XAMÃ. O SÍNDICO SEMPRE SOUBE. NESSAS, NAS OUTRAS, O OLHO DA CASCAVEL, CLARO, É SEMPRE O PONTO FINAL DA ESTRADA. NA DÚVIDA DAS VIAS, CARIMBE TUDO. O QUE DE RESTO RESTE, É SÓ O GOSTO NA BOCA DA FALTA DE DENTES. TÉDIO. SAUDADE.

08 julho, 2008



Então tenha um bom dia
E, se tiver tempo, olhe pro céu
Bonito pra caralho hoje!!!!
Então fica tranqüilo
E enquanto espera o ônibus
Assovia uma canção da tua infância.
Então, dá uma risada pra nada
E ensaia uma dança em cima da poça de chuva
(provavelmente a última antes do verão)

06 julho, 2008


Cinco horas da tarde. O Sr. Samuel olhou com lentidão programada cada coisa espalhada pelo seu quarto. Coisas. Ele sabia que eram coisas. Ele sabia o nome de cada uma daquelas coisas. Sabia quando elas tinham vindo parar na sua mão, e porque. Olhou pra baixo de sua cama e sentiu – mais do que viu – seus chinelos. Velhos. Tudo naquele quarto era velho, ele sabia. Calçou as sandálias e foi até a janela. Levantou sem esforço o caixilho e mais uma vez se espantou. Todas as tardes ele cumpria o mesmo ritual: olhar suas coisas, calçar as sandálias, abrir a janela e olhar a rua. Sempre no mesmo horário. Sempre um novo espanto. De onde vinha tanta coisa nova, se no seu quarto o tempo teimava em não passar? O garoto filho da vizinha fazia piruetas em um skate colorido. Cinco meninas rodavam em uma ciranda sem som. O sol tingia as nuvens em vinte? Trinta? Sabe-se lá quantos matizes de cores diferentes. Um passarinho desconhecido cerzia um ninho na lâmpada queimada do poste da esquina. O Sr. samuel pensou se eram reais as imagens. Se aquilo tudo não era uma ilusão. Uma a mais. O novo, desde há muito, o entristecia mais do que o assustava. Pensou em gritar. – Maria! Ô mariiia! Não. Gritar para quê? Para quem? Sabia. Sentia. Maria não existia mais naquela casa. Tinha existido? As vezes se flagrava pensando que as pessoas que tinham morrido naquela casa nada mais eram do que personagens dos seus velhos livros lidos. Maria, madalena, aurora... maria, madalena, aurora...
- seu samuel! Seu samueel!
Pensou em não responder. Pensou em simplesmente abrir a janela e saltar. E se não morresse logo? E se ficasse completamente estropiado e “vivo”? – um momento! Um momento por favor.
- seu samuel, dona sebastiana mandou lhe avisar que o senhor esqueceu de novo de pagar o condomínio.
- esquecer? Eu não esqueço nada! Nunca! Diga a dona sebastiana que logo mais eu passo em sua residência e acerto tudo. É lógico que isso não passa de um problema documental da senhora sebastiana. Mas eu acertarei tudo. Acertarei tudo. Está me compreendendo?
O garoto que tinha dado o recado de há muito que tinha saído, mas o senhor samuel detestava ser interrompido. Tanto fazia se tinha ouvintes ou não, ele nunca deixava um raciocínio sem conclusão. Sem se achar completamente convencido. – essa dona sebastiana é uma criatura má e sem escrúpulos. Eu lhe disse – há muito pouco tempo – que eu não moro nessa coisa que ela chama de apartamento. Na realidade eu moro no passado. E ao que me conste, o passado não tem taxa de condomínio. Eu posso até dormir nesse ano da graça. Mas eu sempre acordo em meados dos anos quarenta. Eu sou um romântico. Eu sou uma partícula de uma jazz band que toca ininterruptamente uma música sem fim ou começo. Eu sou sam. O sam que o bogart diz: “toque de novo sam”.

05 julho, 2008


onde escondi meu girassol de vidro
onde escondi meu olho de potestade
onde escondi meu espelho de três faces
onde escondi o inseticida e o livro de baudelaire
onde escondi minhas coisas sem serventia
onde escondi meu playmobil colorido
onde escondi minha velha camiseta do ramones
acredito que perdi tudo...
...no dia que achar, me acho
Acho eu

04 julho, 2008



Ana se mistura com o sal
Água por todos os lados de ana
Ana ama o mar
O mar ama ana
Mar e ana
Mariana
Puro mar
Sem um porto seguro

26 junho, 2008


Anoitece na cidade dos impossíveis. A ponte presidente dutra é o retrato desses impossíveis: um caos. Cenário de blade runner com misturas hiper-realistas de um algum vanguardista europeu. Como disse, anoitece. A barca cruza devagar o velho chico. Indiferente a ponte. Indiferente aos replicantes que cruzam a pé, de barco, de moto, de bicicleta. Na primeira parada, fabinho diz: vamo vê o xamã! Instantes depois, já com a colômbia nas narinas e a loura gelada no coração seguimos viagem. E que viagem...

Acorda, levanta, resolve

Há uma guerra no nosso caminho

Nos confins do infinito

Nas veredas estreitas do universo

Vejo

As cinzas do tempo

O renascimento

As danças do fogo

Purificação, transporte

Escuto

O trovão que escapou

Lirinha se veste de louco. Parece um pouco com cada um dos que dançam esperando a chuva. Esperando a porrada certeira nos cornos. Luzes no palco. Escuridão. Um candeeiro, e o palco é uma tapera. Em cima da serra. Tem um pé de umbuzeiro na porta. Lá fora os lobos. Os lobos. Os bobos.

Antes do peito dos mouros Antes dos gritos da gente Antes até da saudade Que viajou além-mar Do banzo dos africanos Do toré no mato verde O fogo com seus estalos Fazia um som Já fazia um som Já fazia um som

Duas horas de catarse. De loucura. De gritar ao som dos tambores. De uma hora pra outra, acabou-se. Ruim sair assim. Como se o final não fosse aquele. Como se aqueles tambores nunca mais saíssem. Como se o som nunca mais parasse de explodir. De tocar. O xamã acende um candeeiro. Segura em sua mão de tremes e tremes. Canta. Recita. Eu bebo. Abro os braços. Louvo o santo louco dos loucos da terra dos impossíveis. Aí chove. E lava a mágoa de quem não queria que a noite acabasse. Mas ela sempre acaba. Como tudo. A noite sempre acaba... e chove...

Seu boiadeiro por aqui choveu

Seu boiadeiro por aqui choveu

Choveu que amarrotou

Foi tanta água que meu boi nadou

25 junho, 2008


bailarinas

não fazem amor

não

amanheçem

não

sabem rir

engolem devagar

com os olhos poentes

bailarinas somem

e não deixam pistas

ou notas musicais

de despedidas

18 junho, 2008

Má água


em minha mágoa
som stéreo
Má água
em minha mágoa
amálgama

Eu vomito febem com meus meninos de ouro e pólvora com sangue e gelatina. Assisto aos vídeos de nada e cuspo uma rebelião atrás da outra. Ligo o rádio e cuspo uma tristeza enganchada na outra. Faço pouco. Cuspo solidão. Corto com facão a realidade da idade irreal. Minha mão. Minha mãe... minha mãe regurgita passado. Aflita sempre. Ela quer uma solução pros seus pequenos problemas. Probleminhas pequeninos e insolúveis. Eu como interrogações. Cuspo frases feitas. Para quê? Pra disfarçar a porra da pobreza. Pra disfarçar a falta de um mapa. O celular indigesto é só um gesto em minha mão moto-contínua.

02 junho, 2008

é tudo free




Estou doando o meu pedaço de amazônia
Estou doando o meu sangue contaminado por dengue e dengo
Estou doando os meninos do meu bairro que pipam crack
Estou doando meu médico que consegue me examinar em 40 segundos
Estou doando a polícia armada até os dentes da minha cidade
Estou doando as leis burladas da minha constituição
Estou doando a maconha proibida e a alface transgênica liberada da monsanto
Estou doando a minha música que toca no rádio o dia inteiro
Estou doando o artista plástico que amarra um cachorro e o deixa morrer de fome e sede
Estou doando meus paletós e gravatas que enfeitam brasília
Estou doando minha alma a quem interessar possa
Estou doando minha pele com poucas tatuagens para servir de decoração pós moderna
Estou doando os meus adiamentos
Estou doando as minhas filas
Estou doando meus patrões todos, os do passado e os do presente
Estou doando minha sociologia burocrática
Estou doando meus adultérios
Estou doando minha maturidade
Estou doando minha afinidade com a loucura
Estou doando esse meu monólogo em ré menor
Estou doando minha alegria amancebada com a tristeza
Porque no meu país, os homens não crescem
Mas teimam em rebaixar o teto.

Estou doando, não pela minha boa índole. É que na verdade, eu fico muito puto quando um milionário vem aqui, compra, e eu não sou consultado. Então, para que problemas não hajam, de hoje em diante quem quiser – de minha parte – pode pegar.

29 maio, 2008


Devo lhe dizer que siga as placas. Devo lhe dizer que obedeça. Devo lhe dizer que na verdade eles estão certos. Então aprenda a ler. E lendo, aprenda a ser delicado. Coma direitinho. Use o guardanapo. Não fume em público. Não peide. Use perfume e pelo amor de deus, escove os dentes e reze antes de dormir. Devo lhe dizer que a placa diz o que alguém mandou. Não questione então. Não buzine na porta do hospital. Não compre a arma da vitrine. Não pegue na bunda exposta da menina. Você está entendendo né? Aprenda desde já onde é o seu lugar. Fique nele. Não saia do seu lugar. Não invada. Não entre. Não se meta. Não meta nada em ninguém. Rezou? Escovou os dentes? Olhou se o sinal está verde? Então prove que você é do bem e dê sua cadeira a velhinha. Ofereça o seu lugar na fila. Bebeu demais de novo? Você não tem jeito. E isso é regra. Então obedeça as regras. Coloque só duas gotinhas. Mastigue. Mastigue. Mastigue. Leia direito. Depois discuta. Se for minoria, concorde. Se for maioria, concorde. Mantenha-se calado. Desligue o celular. Diga que entendeu o livro. Diga que entendeu o filme. Diga que entendeu a porra da tela abstrata. Mantenha a barba meio sem fazer. Mantenha os cabelos meio desalinhados. Mantenha as roupas meio amarrotadas. Mantenha um sorriso meio meia boca. E por favor, siga as placas. Crie um gato. Um cachorro. Um periquito australiano do brasil. Escute rádio de manhã. Aprenda uma música dessas ditas populares. E veja bem: siga as placas. Ande devagar, mas tenha pressa. Fale baixo, mas grite um pouco. Diga que é gente. Pessoa. Ser. Alma. Inteligência. Parte do todo. Que vai pro céu. É mentira, mas qual o problema? Você até pode mentir. Desde que siga as placas.

28 maio, 2008


Entro na desordem. E não tenho idade. Ou tenho. Enfim, entro na desordem. A desordem tem uma enorme boca de cena. Cortinas vermelhas que levanto devagar. Sem medo, apenas pra manter um clima. Apenas pra ser o primeiro a ver o que se esconde atrás da cortina.

Tem um deus morto dentro do elevador. Penso se devo olhar de perto. Penso se devo enfiar meus dedos nos orifícios da balas. Foram balas? Penso se devo lamber as feridas abertas pela faca. Foi uma faca? Penso se devo procurar um bilhete de suicídio. Será que foi suicídio?

Um demônio chora sentado em uma mesa lotada de garrafas vazias de cerveja. Debaixo de sua cauda vermelha brilhante um livro de aforismos de Oscar Wilde. Sento em sua mesa. Mantenho uma distancia segura. Pergunto se posso cantarolar alguma coisa. Ele sacode a mão, entediado. Desafino Lupiscínio Rodrigues. Ele me pede um cigarro, pergunta se posso deixar uma paga antes de sair.

Uma senhora passa nua da cintura para cima, empunhando uma bandeira azul cheia de estrelas. Para no centro do palco, sacode as próteses e diz solenemente: - “de agora em diante, está permitido falar besteira”. Um pequeno porco a segue de perto, farejando seus calcanhares.

Um copo vazio corta o espaço e se espatifa em algo além da minha vista. Vejo o barulho mais do que ouço o barulho. Sempre foi assim. Desde pequeno. Vejo o barulho das lagartixas. Vejo o barulho das roupas sendo atiradas pelo chão quando ela passa. Vejo a porta se batendo. Dizendo: - fôda-se meu rei! Fui!!!

A música sai das paredes. Fala de um garoto que amava os beatles e os stones. Fala do vietnã. Vietnã? A folha do notícias populares pingando sangue ri. Vietnã... os garotos não sabem dos stones. Os garotos não tem a menor idéia de quem são os caras de liverpoool. Fritam seus miolos com dendê e armam um pequeno vietnã em cada apartamento.

25 maio, 2008


A banca do velho Epifânio ficava embaixo de um pé de goiaba. Todos os dias – a não ser quando chovia – o velho Epifânio chegava, armava sua cadeira, colocava fumo no cachimbo, ligava o rádio baixinho, e ficava esperando seus clientes. Na maioria das vezes, velhas senhoras. Mas vinham também garotos drogados, prostitutas, e toda a fauna suburbana. Epifânio tinha um método engraçado de começar seu trabalho: pedia fotos antigas da pessoa, e pedia para a pessoa falar de si mesma durante meia hora. No outro dia, Epifãnio trazia um passado inteiro para o cliente. Assim, mendigos ganhavam um passado de riqueza e devassidão; garotos drogados amanheciam com a certeza de terem vindo de outros países e abandonados por seus pais desnaturados, etc.
Epifânio sempre soube que ninguém gosta de verdade da verdade. O que o sujeito quer, é um morto bonzinho, em seu passado para lembrar.

Josué era obcecado por despertadores. Tinha cinqüenta e nove. Todos iguais. Ele colocava-os para despertar em horários diferentes, e enlouquecia seus vizinhos. Aos domingos ele desligava todos os despertadores, descia os dois lances de escada, sentava ao lado da barraca do velho Epifânio e tocava ininterruptamente durante uma hora e meia. Seu sax era, para os vizinhos, um anúncio do domingo. Aliás, quando ele faltava, era comum as pessoas se perguntarem: - que dia é hoje?! – Josué, depois do seu show para ninguém, pegava uma laranja e a descascava pacientemente. Depois de chupada a laranja, começava a falar sozinho, primeiro baixinho, depois aos berros. – O que eu quero saber, de verdade é qual a função das crianças? Até porque eles só funcionam quando adultos. Então, congelem as crianças agora! Porque as lâmpadas queimam? Quem projetou os cangurus? E as buzinas? Quem foi o filho da puta que inventou as buzinas? Ah! Quer saber? Vão a merda.