02 junho, 2008

é tudo free




Estou doando o meu pedaço de amazônia
Estou doando o meu sangue contaminado por dengue e dengo
Estou doando os meninos do meu bairro que pipam crack
Estou doando meu médico que consegue me examinar em 40 segundos
Estou doando a polícia armada até os dentes da minha cidade
Estou doando as leis burladas da minha constituição
Estou doando a maconha proibida e a alface transgênica liberada da monsanto
Estou doando a minha música que toca no rádio o dia inteiro
Estou doando o artista plástico que amarra um cachorro e o deixa morrer de fome e sede
Estou doando meus paletós e gravatas que enfeitam brasília
Estou doando minha alma a quem interessar possa
Estou doando minha pele com poucas tatuagens para servir de decoração pós moderna
Estou doando os meus adiamentos
Estou doando as minhas filas
Estou doando meus patrões todos, os do passado e os do presente
Estou doando minha sociologia burocrática
Estou doando meus adultérios
Estou doando minha maturidade
Estou doando minha afinidade com a loucura
Estou doando esse meu monólogo em ré menor
Estou doando minha alegria amancebada com a tristeza
Porque no meu país, os homens não crescem
Mas teimam em rebaixar o teto.

Estou doando, não pela minha boa índole. É que na verdade, eu fico muito puto quando um milionário vem aqui, compra, e eu não sou consultado. Então, para que problemas não hajam, de hoje em diante quem quiser – de minha parte – pode pegar.

3 comentários:

Carlos Rafael disse...

É, mi hermano, eszse negócio de amazônia ainda vai dar muito verso...

Ricardo Thadeu disse...

É né... Quem disse que a a mamazônia tem dono?

Iza Greff disse...

saudade imensa.
sempre melhor, caríssimo