01 maio, 2008



Sizunite sempre foi um herói sem caráter. Vivia com fome. De tudo. Olhava como um vampiro as filas intermináveis dos cinemas. Queria comer bundas. Sanduíches. Samambaias coloridas. Um dia o encontrei iluminado. Perguntei o motivo. Respondeu categórico: - ontem jantei um pensamento. Fechando os olhos, olhando pra trás querendo entender o que vem pela frente. Sinais.

Sizunite me conta coisas que lhe acontecem diuturnamente: a ponta de um cigarro que, depois de arremessada cai caprichosamente em pé, gente que se encontra na esquina do imponderável, pingos da chuva que acham que ele é um “i”, caem todos em cima dele. Ele diz que sabe que alguém, em algum lugar, se interessa pelo que ele anda fazendo. Sinais. Sempre os milagres dos sinais.

A mãe de sizunite diz que ele nasceu com olhos cor de nojo. Verdes. Diz que ele já saiu de sua boceta assim: com olhos de tédio, com olhos de nojo, com olhos de quem sabe do tédio. Quando comeu a primeira namorada ele me disse, assim, atôa: como bocetas porque sou faminto. E buracos corporais são mais que perfeitos. Sinais. Diz que gosta de beijar bocas – de homens ou mulheres, tanto faz – com gosto de água de côco e uísque nacional. Sinais. Ele diz que só ama se tiver escândalo. Só acaba de amar se com isso proporcionar uma calamidade. Sinais.

- Sizunite, você volta?
- tenho medo de voltar. Por isso vou sempre. Empurro portas. Espero o trem passar, mas não olho pra trás. Penso. É medo, ou uma vontade filha da puta, que não compreendo, ou não me compreende?
- você é simplesmente um escroto.
- mas, escrevo sem borracha. Ou então, como a borracha. Na certeza de não ter que apagar. De pagar pra não apagar. Sinais. Entende? Sinais.

Sizunite diz que só amou aurora. A aurora boreal. Cheia de sinais.

Edith piaf cantarola nos ouvidos moucos de sizunite. Edith piaf decreta o fim do feriado. A dor lupeliana de gastrite viva e sem mordaça. Edith piaf ama sizunite. E lhe pede pelo amor de deus que não traduza suas canções pra virarem coisas. Sizunite disse, no bar, que matou edith piaf com sua arma mais moderna: um belo revólver de língua que dispara seis mentiras por minuto. Sinais. Sempre os malditos sinais.

Sizunite me escreve um bilhete de despedida, e joga na minha janela: “sôe falso, consuma-se em silêncio, gargareje galos ao anoitecer. Porque se você esperar até amanhã de manhã, eu jogo um sol na sua janela. Você é um cego. E os cegos? Não sabem das borboletas. Nem sonham arco-íris.” Sinais. Sinais.


2 comentários:

Iza Greff disse...

se o fernando pessoa soubesse que tu traduziria tão bem os sinais ele jamais teria escrito sobre isso.

saudade, caríssimo.

:)

lupeu lacerda disse...

bela iza
saudade de tú
de teus camoentários certeiros.
cortes de navalha com perfume.
te amo.