14 maio, 2008

começo de uma carta pra ninguém


Você tem medo das palavras? Eu sim. A palavra tem esse dom escroto de abrir portas, de subir muros, de fomentar revoluções... Aí você pensa: - esse cara é louco. Louco um caralho meu amigo! A verdade? A verdade meu amigo, é que a verdade é mutante. Então, mentirei. E você lerá verdades em minhas mentiras. E você rimará coisas que não quis como poemas. E você usará temperos por demais sutis em coisas que precisam de pimenta e pólvora. Você tem medo das palavras? Deveria ter meu amigo. Deveria ter...
Você sabe onde eu moro? Eu moro no passado meu camarada. Tem vantagens sim, tem vantagens. Por exemplo? Eu não pago condomínio. Posso escutar the mamas e the papas e temperar com iron maiden. Posso ler herman hesse ou thomas mann. Posso comer comidas simples ou exóticas e encarar tudo isso – sempre – como novidades.
Eu guardo retratos nas paredes. Você não? Eles falam. Dream´s over. Eu nem traduzo. Quando fecho a porta da minha casa passado o silêncio manda. O silêncio. A enormidade do silêncio no meio da mais escandalosa algazarra. Sei de alguma coisa: não sei de nada.
O garoto enrola o ioiô e passeia na cidade. Vejo da janela. As pessoas não riem nessa cidade futuro. Por isso moro no passado. Ainda tenho medos de bombas atômicas, mas consigo sorrir.
Fecho os olhos. Sonho o velho walt whitman comendo rosbifes e limpando a boca em poemas que ele nem lembra mais. Quem lembra? Lembrar pra quê? Eu lembro... e a lembrança mora colada a minha casa, também no passado. Vomitando o futuro.
Viu? Eles não fecham os olhos. Os peixes, claro. Mudos e observadores. Amo peixes. E odeio peixes. E sim, é verdade: eles não fecham os olhos. Pensei que era só eu que dormia de olhos abertos...
Viu? E os calendários? Servem pra quê? Pra riscar os dias. Diz minha filha. Pra saber que não dá mais tempo. Diz o cobrador de ônibus. Pra esquecer o aniversário de alguém, diz a minha mãe. Pra lembra que esquecer é a grande jogada. Eu digo.
Daí, que o que tenho a te dizer é que começo os dias, quando eles não me começam. E obedeço cegamente ao comando dos meus pés que andam. Livres? Penso. Movimento idéias como malabares. Depois enjôo. E termino o dia, antes que ele me termine.
Me perdi nas idéias, entendeu? Acho até que perco as coisas de propósito. Por vontade de andar mais leve. Na hora, fico puto. Por comodidade, provavelmente. Sei que não posso inventariar o que perdi. Pouco? Muito? Perdi mais do que achei. Por isso, se não amarrar os pés, me flagro voando poraí. Me perdendo de mim.
É isso. Moro no passado. Me recuso a pagar aluguel, ou até condomínio.
Viu? Até.

4 comentários:

Iza Greff disse...

isso me lembrou elis regina e j.d. salinger (o apanhador no campo de centeio e holden dizendo que prefere sentir as despedidas..)
"ela dizia que esquecia não acredito não..."
ótimo texto.

beijos, caríssimo

Ricardo Thadeu disse...

Se no passado até the mamas e the papas é temperado com Iron Maden vou me mudar pra lá só pra comer California Dreamin'com 2 Minutes To Midnight nas 3 refeições.

Muito massa, velho

lupeu lacerda disse...

iza, tem tudo a ver. realmente, tudo a ver. que bom que você gostou.

ricardo,rumbora pro passado véio?
a merda é que a porra do ônibus do passado - sempre - já passou...
continuemos tentando. continuemos.
um puta abraço mi caro.

Gabriela. disse...

Perdi mais do que achei.

E o interessante dessa equação, é que por mais que não percebamos, a gente sempre sai ganhando mais do que perdendo!