03 maio, 2011

O mar de manuelina



Manuelina quer saber qual é a cara de deus. Manuelina quer saber quem é que merece um sorriso. Manuelina sabe que em algum lugar, em um jardim, existe uma fruta do conhecimento. Ela viu na bíblia. Manuelina olha pro céu e quer saber, por que quer, onde termina o céu. Onde começa ela sabe: na emenda do mar. Ela vinha dentro de um ônibus. Calor da porra. Olhou pela janela, e viu aquilo. Aquela imensidão. Aquela coisa que não tinha nome, nem trazia eco nos sons conhecidos dentro dela. Perguntou. O que é? O homem sentado do seu lado olhou pra ela como se estivesse falando com um alienígena. Como assim, o que é aquilo? É o mar. Mar? É sim. A maior coisa de toda a terra é feita de água garota. Garota, esse é o mar. Mar, essa é a garota que não lhe conhecia. Ela puxou a corda. Desceu. E nunca mais foi embora. Depois de um tempo ela começou a achar que o mar falava com ela. E lhe dizia coisas que ele trazia dentro de sua água. Falava de segredos que ficam de costas, nas esquinas do olho que mira. E ela pensava: mirando o quê? E ela sabia que onde ele encostava dizia coisas. E chorou, pensando que nunca ia ver onde esse mar que ela amava tanto se espreguiçava. Que nunca ia sentir o calor do sol quando acordava e vinha dormir dentro dele. A lágrima desceu até o canto da sua boca. E ela sentiu que o gosto da lágrima dela tinha o mesmo gosto do mar. Aí soube. Ela era parte dele. Por isso não teve medo quando entrou dentro dele. E se entregou absoluta quando ele entrou dentro dela. Ela sabia. Ela era um mar exilado. Só estava voltando pra casa.

(da coletânea "tempo bom")

4 comentários:

Jessica Peixinho disse...

Dos contos do livro esse foi o que eu mais gostei.

lupeu lacerda disse...

acho o mais sossegado dos meus escritos. tem um misto (acho eu)de saudade de um passado e de um futuro. tudo junto. tudo misturado. valeu peixinha.

Ricardo Thadeu disse...

tem bom em boa hora
vida longa, lupa!

lupeu lacerda disse...

valeu ricardo.