31 outubro, 2008


O celular me liga no mundo e sei, continuo desligado. detesto isso de ser achado a qualquer hora. Gostava quando os telefones viviam presos. Iguais a cachorros ferozes. Presos em suas cordinhas enroladinhas. A gente via eles lá, nos cantos das paredes, cobertos com pequenas toalhas de crochê, ou as vezes, presos também com pequenos cadeados. Um dia eles se soltaram. Pularam das paredes para os cintos. Depois para as bolsas, os bolsos. Um dia, vão andar sozinhos. Falar entre si. Planejar a destruição de todos os humanos.

26 outubro, 2008


Minha menina jesus que nasce quando quer
Minha menina jesus criadora do mundo e da polícia
Minha menina jesus armada até os dentes como se preciso fosse
Minha menina jesus criada feito bicho entre os bichos
Minha menina jesus fumando maconha meio dia em ponto
Minha menina jesus rindo dos super-homens
Minha menina jesus amaldiçoando os violões de doze cordas
Minha menina jesus de mini-saia vomitando fliperamas
Minha menina jesus apalpando os ovos de qualquer presidente
Minha menina jesus dizendo que não tem nada a ver com isso
Valei-me
Valei-nos
nus

19 outubro, 2008


Procuro aurora. Onde é que encontrarei a louca e bêbada boreal? De cima da bicicleta vi quando o carro veio em alta velocidade. Era lógico que ele não ia conseguir fazer a curva. O carro bateu na guia da calçada. Por um momento, era como se não houvesse gravidade. Ele girou no ar por alguns segundos, e pousou. Caiu. Pedaços misturados de ferro, velocidade e gente. Um ipod amarrado nas orelhas soltas. Sem dono. Pego. Escuto: “esse é o ninho do passarinho, que já nasce voando sem asas”. Casa das máquinas. Cinco e meia da manhã. Boreal. O acidente decreta o feriado. Ontem a noite aurora me disse, com raiva: “não traduza minhas palavras como se fossem canções desses fudidos norte-americanos. Pelo menos uma vez, diga a verdade”. Não ligo. Puxo meu revólver língua e disparo seis mentiras metálicas e super modernas. Boreal retruca: “você sôa falso. Como um tenor castrado. Como a voz dos desenhos animados. Você é um... Mickey. Não. Você é um pateta”. Rio. Gosto de rir quando ela explode seus molotovs arquétipos. Ela pede ao garçom um copo de silêncio e o saboreia com vagar. Eu, gargarejo cacos de anoitecer. Subo na bicicleta. Procuro nos bares que ainda estão abertos. Aurora. Aurora. Lá está ela. Jogando pedaços de sol em minha janela mal lavada. Penso em contar do acidente. Da música. “essa é a semente da nova terra, essa é a bomba que acaba com a guerra”. Não preciso. Ela vai embora quando me vê. Grito: os cegos, coitados! Não sabem das borboletas. Nem sonham arco íris. Boreal...boreal...

17 outubro, 2008


dois
é duas vezes 365
dois
é o começo do três
dois anos:
poesia, personagens,
o subsolo de um romance
amigos
sexo
umas droguitas bacaninhas
um monte de palavras escritas,
e porque não?
um dia de tomar um porre.
séquiço sacro, na rede, há dois anos.
e haja preguiça...

15 outubro, 2008


Eu até poderia
Te dar o troco.
Eu até poderia
Te engolir aos poucos.
Nas meias medidas
Te meço:
Esqueço.

14 outubro, 2008


sim
preciso realmente perder o juizo
procurar um fundo de mar
no fundo dos olhos
de aquario
da mulher de peixes
vixe
que nada é eterno
vixe
que tudo desmorona
vixe
que tudo murmureja
e o sol paciente apodreçe
o gato do mato
atropelado bestamente
na br veloz

12 outubro, 2008


Quando me apaixonei pela primeira vez
Tinha duzentas espinhas no rosto
E um coração que me orientava desorientando
Ela assistia um filme no cine eldorado
Fazia lindas bolas de chicletes
E apertou devagarinho minha mão.
Quando me apaixonei pela segunda vez
Achava que era forte e inquebrável
E meu coração ficava na dele, só na batida
Ela tinha uma camisa sandinista
Granadas palavras, beijos ardentes
E apertava a minha mão como um companheiro
Na terceira vez que me apaixonei
Meus olhos já estavam gastos
Meu coração sussurrava: tenta, tenta porra!
Ela tinha um Hollywood trançado entres os dedos
Me comia com olhos abertos
E sua mão
Nem acenou pra mim na despedida

coneueraminino


Sinhamariquinhacadêminhaboneca conversa maluca de procurar boneca uma hora dessas da manhã. Tisconjuro. Sinhamariquinhacadê. Conversa sem eira nem beira de estrada que a gente não sabe pra onde vai. Sinhámariquinha onde fica o final do arco íris. O final do arco íris todo mundo sabe que fica no começo. Sinhá. Sinhá. Sinhá que música é essa que invade tudo como se água fosse. Aguafôsse? Aguafôsse nem inxiste. Coisa feia fazê pouco dos outros. Coisa feia chama os outros de sinhá. Coisa feia não saber o que se vai fazer todo dia. Coisa feia. Sinhá mariqui. Cala a boca abestado. Respeite as horas do dia. Te os passarinho cala a boca nessa hora. Te o rádio fica mais brando. Vou inté soltar os passarinho tudo. Hoje, se não amanhã. Sinhá. Sinhá. Sinhá. Omi seu minino. Vai pra puta que pariu.

01 outubro, 2008


Arimatéia fazia santos na rua todos os santos. Na cidade dos santos de Arimatéia tem um bar em cada esquina. E dentro de cada bar tem um demônio com a cara da Sandra de Sá. A música que toca na rua de todos os santos onde Arimatéia fabrica os seus é fora de ritmo. Benditos com pedal de distorção. Ladainhas louvando porcas prenhas. Arimatéia não nota a distorção. Sai na janela e olha o defunto que segue em seu distinto paletó de madeira ornado. O morto é pobre. Onde vão enterrar? A música volta. São Sebastião sai da madeira bruta nas mãos de Arimatéia. Pensa em fazer o padre da serra. Enjoou do padre da serra. Faz um anjo. Bota uma espingarda na mão dele. Vira cangaceiro. Anjo. Arimatéia fica com vontade de ir no bar. Ver o cão Sandra Sá. Olhos coloridos. Desiste. Acende um baseado. Vai ouvir a hora da graça.

19 setembro, 2008


Agenor acordou com uma voz estranha em seu ouvido. Achava que era uma voz de criança. Ou de velha, perto de morrer? Pensou que ainda estava dormindo. Não. Estava acordado. A televisão estava ligada. Um pastor com sorriso número trinta abençoava os fodidos da segunda feira. O jornal entrou pela fresta da porta. O escroto do garoto não se preocupava se aquela merda entrava amassado. O menino tinha pressa. A cidade tem pressa sempre. Agenor levantou devagar. Um barulho irritante vinha do banheiro. A pia. Ligada a noite inteira. Que merda. Bateu um remorso, mas depois passou. Lembrou do aqüífero guarani. Ainda ia ter muita água pros fodidos do país depois que ele se fosse. Decidiu não desligar a torneira. Nunca mais. E que se fodessem para todo o sempre os ecologistas de plantão. Pena não ter um gato pra chutar. Pensou em tomar banho. Depois desistiu. Pra quê? Não ia tomar banho. Nem sedativos. Nem fazer a barba. Abriu a porta pra varandinha ridícula de seu apartamento. Olhou a rua. O esgoto continuava estourado. A filha de dona Guiomar estava chegando. Ia tomar umas porradas. Decidiu ver o show. O tapa fez Cidinha cair. Dona Guiomar tem a mão pesada. Cidinha sempre apanha na segunda feira. Acho que acostumou. O chute pegou na boca. Vão separar. – deixa a vadia apanhar! Eles nunca deixam. Olhou de relance o jornal. Nada de novo. Os mesmos roubos. As mesmas mentiras. A mesma desesperança. E o gado segue manso. Cada um pro seu curral. – vai trabalhar não Agenor? Essa moleza vai acabar! Decidiu que não tinha escutado. Decidiu que não era Agenor. Decidiu que era um presidente exilado de uma ilha distante e sem nome. Decidiu que sempre tinha sido um preso político em prisão domiciliar. Decidiu que era um filho da puta abandonado em uma unidade de menores infratores. Lembrou de um menino. Ele? Um personagem de um livro? Filme? Ele? Ele. Com uma baladeira na mão. Uma lagartixa sem cabeça estremecendo na parede. Trocou de roupa. Botou uma bermuda larga. Uma camiseta branca. Procurou. Amassou a antena interna da televisão. Fez um V. amarrou pedaços de elástico. Improvisou uma baladeira. Disse, pra ninguém: - vou sair. Não me espere. Vou caçar lagartixas.

10 setembro, 2008

lima trindade me deu de presente a oportunidade de falar um monte em sua revista cibernética "verbo 21". a quem interessar possa, vão lá, leiam (a entrevista e a revista, que é do caralho).

www.verbo21.com.br

O MUNDO NÃO ACABA MINHA QUERIDA
Acredite. Por mais que os caras tentem, existe uma resistência. Um não morrer, ta entendendo? Tem hora que não entendo. Mas sei, assim como quem sabe andar. Assim como quem trepa pela primeira vez. Então, não se culpe. Pode jogar o papel do bom-bom na rua. Com o vento, vai parecer que ele ta dançando.

DECIDO TRATAR MAL ALGUMAS PESSOAS
Porque isso me diverte talvez. Porque é mais fácil ser assim. Porque quando leio Sade não acho o estranhamento adolescente. Porque a porra do sinal sempre fecha quando estou apressado. porque minha grana acaba na sexta. Porque não sei jogar bola. Porque tem dia que a coisa mais interessante a fazer, é acabar com o dia de alguém.

AÍ, QUANDO O OLHO ABRE
Dá pra acreditar que o inferno é aqui. Sinta o cheiro. Podre. É um cara. A barba cheia e fétida. A roupa de sabe-se lá quantos dias. O ônibus lotado. Dezenas de caras tristes. A polícia passa arregaçando. Vão matar alguém. A fila do banco serpenteia na calçada. Os camelôs vendem os últimos lançamentos em filmes. O traficante sorri quando olha os cabeludos. Fecho os olhos. O inferno é aqui.

02 setembro, 2008


Cometo
Indiscreto que sou
Ardo em frente ao fogo
Meto
Dedos, pau, língua
A conversa sem verso
Os pés pelas mãos
Cometo
Erros novos de eros
Sopro as cinzas do meu pai
De cima do meu pau
Rápido
Rápido
Cometo
Cometa.

01 setembro, 2008

dois poemas para morder


Eu acredito na verdade
Que baila no vento verde que sopra teus cabelos lavados com coisa nenhuma
Eu como o verde salada no meu prato lápide
E relincho como só relincham os homens sem nome e sem pátria
Eu acredito na verdade
Assim como acredito no aboio sereno das mulheres que pastoreiam estrelas
2
Aqui sento minha bunda
Olhando no vídeo nosso de cada dia
Oro de ora em hora pro santo pagão da hora
Aqui sento minha bunda
Súdito fiel esperando minha hóstia de nada
Pra seguir minha vida vídeo
De nada.

29 agosto, 2008


Quem escreve na certa não é para esperar o messias
Quem escreve quer o anjo degolador
Quem escreve quer a ciência
De nunca saber o suficiente
De nunca escrever o suficiente
De nunca saber qual é o limite do suficiente
Quem escreve sabe que é medíocre na sua medida
Quem escreve nunca vai escrever melhor
Quem escreve não quer escrever melhor
Porque na verdade, ninguém agüenta seguir sozinho
Porque na verdade, melhor ser estrela e ficar
Do que ser meteoro e seguir
Quem escreve se afasta
Quem escreve diz, que quando escreve, se aproxima
Quem escreve pensa, que é a linha que segura a pipa
Mas a pipa não quer a linha, quer o céu
Mas a pipa não quer a pipa, quer ser nuvem
Mas a pipa não quer a nuvem, quer vir no vento
Quem escreve pisa na água da chuva
Quem escreve sonha com uma jerusalém nunca vista, abatida a tiros
Quem escreve, odeia quase todo mundo
E ama, seu reflexo colorido
Nas prateleiras dos supermercado.

27 agosto, 2008


Então aos quarenta e três não sei de que tempo entra em campo uma dor filha da puta. Estômago. Lado direito. Penso em meu pai. Uma dor dessas. Ele se apoiou no ombro de alguém que o levou até a ambulância. Ele não voltou. Ando pela sala. Acuado. A dor silenciosa que grita em meus ouvidos. Sento. Levanto. Deito. Acendo um cigarro. Jogo fora pela metade. Acendo outro. Mudo o canal. Mudo o canal. Mudo o canal. Mudocanalmudocanalmudocanal. Nada na porra da tela que adormeça essa dor. Pego o telefone. São duas da manhã. Quem acordo na terça? Desligado. Desligado. Desligado. A dor ligada. Vou no banheiro. Enfio o dedo goela a dentro. Quero vomitar a dor. Continua lá. Belisca. Unhas pontudas como as de uma mulher na noite de sábado. Unhas vermelhas? A dor. Caralho. Que puta dor. Abro a porta do armário. Quarenta gotas de paregórico. Vomito ópio. Mais quarenta. Vomito de novo. A dor me apavora agora. Não mais a mulher de sábado. Não mais a professora simpática de voz macia e suor perfumado. Agora a velha. A escrota dor. Olho as caixas de remédio. Nenhuma bula mágica que cesse. Penso em rezas. Alquimias de quando a serra me trazia a serena idade. Dor. Penso nas cervejas. Excesso, talvez? A dama branca? A dor não quer pensamentos. Penso no tempo. Nas seis balas de revolver do tempo. Quantas atirei? Quantas ainda tenho no bolso do colete? Eu não tenho colete. Dor. Dor. Dor. O amigo do trabalho aparece. Me pega nos braços. Sem força. Choro na cabine do carro. Urgência de um hospital nojento no centro da cidade. Bebe? Sim. Fuma? Sim. Drogas? Sim. Lacônico médico. Com sono talvez. Diz que tenho de parar tudo. Pergunto: e a dor? Vai passar, por enquanto. Ele diz. Lacônico. Sono talvez. Beat demais. Ainda não tenho obra pra ser póstumo. Saio as quatro da manhã. Sem dor. Dopado. Sei agora o meu limite de dor. Sei nada. Daqui, ninguém sai vivo.

19 agosto, 2008


Agosto
Um gosto de fruta velha, pendurada do texto do verso de um velho maluco cantando uma triste cantiga nas ruas enlameadas de potengi.
Agosto
Um rabisco de uma história em quadrinho de um tempo em que os índios comiam os inimigos com maionese rançosa produzida nas esquinas de nova Iorque
Agosto
Uma folha de parreira descendo espontânea da boceta de Eva em uma performance neo punk expressionista sob a luz ilusionista dos arabescos do cocainômano Sigmund Freud
Agosto
Cachorros loucos passeando sob o luar tragicômico de Santana do cariri
Agosto
Uns nascem
Outros renascem
Uns
Se rebelam.

15 agosto, 2008


Narani serve suco de nada em jarras escuras. Fala de sorvetes. Coisas geladas fabricadas no país dos eunucos. Dão medo. Dão sede. Dão vontade. Narani fala que a estrada é lenda. E que atalhos são mentiras. Diz: existe lua? Não existe. Aquilo é o olho único do unicórnio que criou isso tudo. Pergunta: tem dinheiro? Tem? Estende a toalha de crochê na calçada matizada. Castiçais de plástico. Incensos. Cabeças de boneca. Velas tristes. Apagadas. Narani diz da mágica das velas apagadas. Do medo de acende-las. Fala de um jantar macrobiótico. De sua infância primeira. De masturbação e pecados deliciosos. Mas isso é apenas um jantar. Narani sabe. Talvez o último. Um fio de baba escorre no seu queixo antigo e belo. Narani não tem idade. Conta que comeu coisas que não existem mais. Que bebeu refrigerantes sumidos nos baús da memória coletiva. A vida é só um dos tabletes doces no tabuleiro de Narani. Narani diz que a canção que ela mais gostou na sua vida era uma propaganda de chicletes. Mas ela não lembra a letra. Cantarola: nã na nana, nara rara ra. Ninguém sabe. Ninguém conhece. Narani diz que batizou todos os seus dentes: quando eles caiam, ela os batizava e enterrava no jardim. Lembra de todos. Mas não quer mais falar nisso. Ela nos conta que sempre detestou os arranha céus. Talvez pelo contexto da palavra. Ela não imagina alguém arranhando o céu. – isso tem conseqüência! Conta que sempre gostou de insetos. Que eles foram suas companhias mais fiéis. Sempre gostou das borboletas kamikazes. Voando ensandecidas para a luz. Pela luz. Ela diz que a gente é igualzinho. Que se fode. Mas bate a cabeça na direção da luz. Diz que um dia amou um guarda noturno. Pelo som do apito. Um dia o guarda mudou. Conta que notou. Pelo som do apito. Chorou. Depois casou com um palhaço de circo. Gostava de rir. O palhaço um dia sumiu. Deixou um estojo de maquiagem. Meia carteira de cigarros. Um pé de meia azul com bolinhas amarelas. Narani diz que só notou dois anos depois. Quando morreu pela terceira vez.

Zé de diadora escuta vozes que ele não sabe de onde. Diz ele que as vezes são cantigas, bem bonitas cantigas. De outras vezes são ordens. Gritos. Músicas estranhas. Cantos de passarinhos. Pergunto se ele escuta a gente. Falando com ele também. Diz que escuta. Que é como o botão de sintonia de um rádio. Só escuta uma coisa de cada vez. As vezes ele recita estrofes inteiras de camões. Outras vezes – em filas de banco – ele fala em línguas estranhas. Dona antonina diz que ele fala alemão, javanês, carioca. Dona antonina sabe. Dona antonina lê mão e vê visage. Zé de diadora vive das graças de deus. Trabalhar mesmo, nunca. De vez um quando faz um mandado. De vez em quando não faz. Ta sem vontade. Com calundu. Dona antonina disse a minha mãe que isso é coisa de homi donzelo. Que as coisas lá dele, subiram tudo pra cabeça.

11 agosto, 2008


no dia dos pais
pensei em jim
cantando the end

The end (tradução)
The Doors
Composição: John Densmore / Robbie Krieger / Ray Manzarek / Jim Morrison

O Fim

Este é o fim
Belo amigo
Este é o fim
Meu único amigo, o fim
Dos nossos elaborados planos, o fim
De tudo que permanece, o fim
Sem salvação ou surpresa, o fim
Eu nunca olharei em seus olhos...de novo
Voce pode imaginar o que será?
Tão sem limites e livre
Precisando desesperadamente...de alguma...mão de estranho
Numa terra desesperada?

Perdido numa romana...selva de dor
E todas as crianças estão loucas
Todas as crianças estão loucas
Esperando a chuva de verão, sim
Tem perigo no extremo da cidade
Passeie pela estrada do rei, bem
Cenas estranhas dentro da mina de ouro
Passeie pela estrada do este, bem
Passeie pela serpente, passeie pela serpente
Para o lago, o antigo lago, bem
A serpente é longa, sete milhas
Passeie pela serpenteÂ… Ela é velha e sua pele é gelada
O oeste é o melhor
O oeste é o melhor
Vá lá, e nós faremos o resto
O ônibus azul está nos chamando
O ônibus azul está nos chamando
Motorista, aonde está nos levando?

O matador acordou antes do amanhecer, ele pôs suas botas
Ele tirou uma foto da antiga galeria
E andou pelo corredor
Entrou no quarto em que sua irmã vivia, e...então ele
Pagou a visita a seu irmão, e então ele
Ele andou pelo corredor, e
E ele veio até a porta...e ele olhou para dentro
"Pai?", "Sim filho?", "Eu quero te matar."
"Mãe...Eu quero...te foder."

Venha bem, tente conosco (3x)
E me encontre atrás do ônibus azul
Fazendo um foguete azul, No ônibus azul
Fazendo um rock triste, vamos, sim
Matar, matar, matar, matar, matar, matar

Este é o fim, belo amigo
Este é o fim, meu único amigo, o fim
Dói te libertar
Mas você nunca vai me seguir
O fim da gargalhada e das mentiras suaves
O fim das noites que tentávamos morrer
Este é o fim

09 agosto, 2008

para iza greff


Meu Carnaval



(Guga Borba)

D D4 D G
Vou deixar a lareira acesa
A D D4 D D4
e sobre a mesa, o jantar.
D D4 D G
Vou levar a marmita tão boa
A D D9 D D9 Bm
que a própria patroa me faz.

E G
Quando digo as coisas tão lindas
D D9 D D9 Bm
Não te faz mal,
E G
Quando digo que sempre fascina
D D7
Meu carnaval.

G
Amanhã vai se abrir
A D D4 D D4
Em todo o céu carmesim,
G
A "lerdeira" certeira
A D D4 D D4
Que sempre certeza se faz
G A
Vou levar a bagagem mais cedo
D D9 D D9 Bm
Pra não te acordar

E G
Quando digo as coisas tão lindas
D D9 D D9 Bm
Não te faz mal,
E G
Quando digo que sempre fascina
D G D G
Meu carnaval
D G D G
Meu carnaval
D G D G
Meu carnaval
D D7
Meu carnaval

G
Amanhã vai se abrir
A D D4 D D4
Em todo o céu carmesim,
G
A "lerdeira" certeira
A D D4 D D4
Que sempre certeza se faz
G A
Vou levar a bagagem mais cedo
D D9 D D9 Bm
Pra não te acordar

E G
Quando digo as coisas tão lindas
D D9 D D9 Bm
Não te faz mal,
E G
Quando digo que sempre fascina
D Bm
Meu carnaval

(Nessa parte soe o acorde bem baixinho)

E G
Quando digo as coisas tão lindas
D Bm
Não te faz mal,
E G
Quando digo que sempre alucina
D
Meu carnaval
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06 agosto, 2008

JURUBEBA LEÃO DO NORTE


(jurubeba) – por mim nem tinha curva
(leão do norte) – por mim a água seria sempre turva

A CENA SE PASSA DENTRO DE UMA CAIXA DE VIDRO SUSPENSA POR UMA CORRENTE COM UM DOS ELOS QUASE PARTIDO.

(jurubeba) – a água é doce. A água é sempre doce.
(leão do norte) – e a porra da mágoa? A porra da mágoa é flor de lodo. É foto amarelada.
(jurubeba) – cala a boca caralho!!! Foto amarelada, fôda-se com suas fotos amareladas.

UM MICO LEÃO DOURADO SALTA DA SAMAMBAIA DE PLÁSTICO E LIGA O RÁDIO. ONDAS MÉDIAS.

(leão do norte) – preciso pagar carnês. Contas. Boletos. Jogar na loteria.
(jurubeba) – preciso que alguém me diga: - ria!
(leão do norte) por quê?
(jurubeba) porque entre eu e você tem uma noite de ônibus. Duas horas de avião. Um macarrão que detesto. Um livro de Carlos Drumonnd de Andrade que você me disse, um dia, que nunca, por motivos óbvios, vai ler.
(leão do norte) um dia, quando tudo perder a importância empírica. Um dia, quando a televisão ficar o dia todo desligada. Um dia quando todas as contas virarem piadas. Um dia quando todos os carros ficarem estacionados. Aí, e só aí, eu vou olhar uma flor até que ela se abra inteira. Aí, e só aí, eu vou pegar um desses livros com títulos estranhos e lê-lo do começo até o final. Antes disso, pra quê?

QUATRO OPERÁRIOS DA CONSTRUÇÃO CIVIL PARAM EM FRENTE A CAIXA DE VIDRO E COMEÇAM A FAZER UM STRIPTEASE. UM DELES IMITA MADONNA. OS OUTROS SE IMITAM. UM VELHO ÍNDIO ACENDE VELAS DE TAMANHOS DIFERENTES. UMA VELHA ÍNDIA ACENDE UM CACHIMBO. UMA GAROTA ÍNDIA CANTA UMA LITANIA XAMÂNICA MONOCÓRDICA E IDIOTA.

(jurubeba) você quer ser uma mona lisa, só por causa do sorriso né? Você quer morder a orelha, como um vangogh mal humorado e sem graça né? Você quer êxtase, mas não quer terror né?
(leão do norte) eu vou re-encarnar em um urso de pelúcia. Eu vou ser um urso tecno. Eu ainda vou ter os olhos moles feitos os de pagu. Eu vou armar pra você uma arapuca de seringas beat polifônicas.
(jurubeba) a vida ta beleza man. Sem dores esquisitas. O paregórico segurando a cólica e a cerveja iluminando a lua plena. Então, o que dá pra lhe dizer agora é que sua bunda não faz diferença alguma. É que sua alma não vale um vale pro inferno. É que sua falsa cultura tem um ácido que corrói a paciência. Mas a vida ta beleza man. Ta beleza.

A CENA É ILUMINADA POR OITENTA E CINCO LANTERNAS JAPONESAS. DEZOITO MENINOS NÚS ENCENAM A DANÇA DA CHUVA PORTANDO MARTELOS. ELES AVANÇAM PRA CAIXA DE VIDRO. DEZOITO CINEASTAS CONVIDADOS REGISTRAM A CENA.

(leão do norte) aquele menino ta contando estrelas?
(jurubeba) é que ele acabou de assistir E.T. do Spielberg.

04 agosto, 2008


O leite derramado
No fogão de lenha
O sangue coalhado
No chão
Do boi
Morto.

02 agosto, 2008


O beato zuílio subiu os degraus da igreja matriz e gritou possesso: “estão tocando fogo nas beiradas do céu”. Contam que aquele um, o cego, era a encarnação de lampião truviscado com corisco. Onório correu nu depois de pular a janela de expedito leiteiro. O beato zuílio dizia: “é preciso imolar um cordeiro!” onório caiu aos pés do beato. Em suas costas, o cabo de uma faca de dezoito polegadas cravadas até o talo. Aquele um, cego, se benzeu. O resto do povo correu. O beato olhava em silêncio. Um silêncio de fim de tarde, quando parece de verdade, que tão tocando fogo nas beiradas do céu.

31 julho, 2008


Dividi com Miguel uma bolacha creme cracker com doce de goiaba quando tínhamos doze anos. O povo dizia de Miguel: - é fraco da mente, tadinho. Ele não ligava. Ou fingia bem. Quando a gente vinha da escola ele dizia: - de noite eu não sou doido. Doido de noite? Tem quem seja. No dia da chuva eu o vi no meio do campo de futebol. Sozinho. Me disse que estava conversando com as coisas. E que na chuva as coisas falam com mais clareza. Miguel tem o dom de entrar nos lugares e não ser notado. Tem as roupas e sapatos cheios de marcas, assim como seus joelhos. Caía muito meu amigo Miguel. Com ou sem ajuda. Não sei por que lembro de Miguel quando estou sozinho. Mas lembro. Talvez por ter sentido nele o animal da solidão que me apavora hoje. Dia desses nos encontramos. Ele me abraçou. Lembrou que tinha – um dia – soprado velinhas coloridas de um bolo. Quando tinha sido. Amanhã? Semana passada? Dez anos atrás? Ontem? Ontem. Palavra engraçada: ontem. Ontem Miguel ria com todos os dentes. E me confessou: quando a lua ta cheia, ele uiva.

24 julho, 2008


Ela jura. Gosta de jurar. Quero estar perto não estando. Aparecer enquanto estou escondido. Ela jura que não é bem assim. Que a compreensão é turva. Quero não entender. Cortar o verso da fala. Monossilabicamente dizer sim e não na mesma frase. O ser que imagino metade é isso. Ela diz que tudo tem mais de um ângulo. Que o filme é bom no final. Ela jura. Ela cantarola uma canção. Jura que sua avó cantava isso perto de sua cama. Duvido dela. Da existência dessa avó. Ninguém sabe cantar. Eu não sei. Ela jura que meus erros são iguais. Eu, que não sei rir. Rio. Detesto repetir. Eu quero cometer erros novos. Abrindo as cartas sei: Tereza morreu. Chico caiu da moto. A polícia civil me deu um flagrante brabo. A vela da noite anterior queimou inteira. Ela jura que conserta tudo. Fecho a porta. Ficou tudo branco e preto.

23 julho, 2008


um conselho:
crie seu filho
jogue fora
o espelho.

Eu tenho o vento
E parte de mim é asa
Misto de beija flor e morcego
Não adianta esperar então
Existem coisas que se queimam
Na lareira
Vou levar a mala
Que tem um carnaval amarrado dentro.

15 julho, 2008


Três da manhã. Ela deve estar dormindo. Ela deve estar ligando pra minha mãe. Pra mãe dela. Ela deve estar assistindo o último filme da globo. Ela deve estar rasgando minhas camisas. Ela deve estar vasculhando minhas anotações. Ela deve estar arrumando as coisas dela pra ir embora. Ela... será que ela pegou uma faca da cozinha? Será que botou veneno no suco? Ela...
Três e quinze. Tenho que entrar. Chave sem barulho na fechadura. Sapatos tirados na perícia ninja das madrugadas. Pé ante pé. Um som estranho. Acima da música. Gemidos. Ela está com alguém. Não, é um filme. Ela está com alguém. Não, é a porra da música. Ela está...
Três e vinte. Porta do quarto só encostada. Abajur ligado. Penumbra. Vejo a bunda. Dela? De outra ela? De algum ele? O gemido é dela. É? Procuro pelo chão pistas que me digam o óbvio. Circulo devagar a cama. De olhos bem fechados. Ela balbucia palavras sem sentido. Pele arrepiada. Prazer. Muito prazer. Vou dos seus olhos pra sua boca. Entreaberta. Pele suada. Onde ta o cara? A mina? Peitos sacudindo. Mais um orgasmo. Procuro ver de onde emana tanto gozo.
Três e meia. Sua mão saciada solta seu amante. Olho com inveja pro cabo da escova de cabelo. Saio. Pé ante pé. Vou pra sala e ligo a tv. No vídeo ela deixa a pista, em batom vermelho: “enquanto você dorme, o mundo gira”.

13 julho, 2008


Curriculum vitae

livros que leu: quase tudo do G.G. marquez, quase tudo dos beats, quase tudo que me foi mandado na escola, quase tudo da poesia marginal anos 70, quase tudo do tudus de arnaldo antunes.

comida que não comeu: sushi e quase tudo que é comida metida a besta

pensamento lúcido: jamais amei roberto carlos

pensamento bêbado: a importância de não estar lúcido, é compreender quem não é lúcido nunca.

últimas ocupações: carteiro, poeta,vendedor de livros, artesão, mexer com cebola.

sonho de querubim: ser amigo de win wenders

noite ou dia: todas as noites e alguns dias

quais são as palavras: sim salabin

bêbados riem de quê: os bêbados riem deles mesmos, dos outros, de coisas e pessoas (não necessariamente nessa ordem). depois riem de novo, e vão rindo, até que deles só sobre isso: o som cristalino do riso.
O que é poesia: poesia me parece ser a tentativa de retratar o mundo em um 3 x 4 em terceira dimensão.

quem não é profeta: não são profetas os que profetizam. todos os outros são. os caras sentados em suas cadeiras na porta de casa, em uma pequena cidade do interior, são todos profetas: sabem quando vai chover, quando vai ser o batizado de maria, quem morreu e quem tá quase, e nem por isso se acham melhores. só são especiais pra quem os olha de longe.

O que é levar um susto saindo do val improviso: é pagar o sapo de ser pego no flagrante. é o beijo na garçonete. é o tapa no baseado. é a passada de mão na bunda da vizinha, bem de leve e com consentimento.

09 julho, 2008


SOLTO OS NÓS DOS SAPATOS E O LADRÃO ME ALIVIA. SOLIDÃO! ENTRE DUAS MIL PRETENSAS CRIATURAS HOMUSAPIENS. O VELHO FORD BIGODE URINA COMO UM VELHO. A CIDADE SOPRA VAPORES DE ESGOTOS E FOSSAS ANTI-SÉPTICAS. O MAU HÁLITO É CONSEQUÊNCIA DO MAU HUMOR. A PELE QUE DEGENERA COM O SOL DO MEIO DIA É SÓ UMA PÁGINA QUALQUER DE UM LIVRO INACABADO. NENHUM LIVRO ENSINA OS MANÍACOS ADOLESCENTES A CONTAR CARNEIRINHOS ANTES DE DORMIR. O ORIFÍCIO DO SOVACO DA COBRA É SÓ UMA PISTA DE CONTRA MÃO CONTRA FLUXO CONTRA FLEUMA DA ESQUISITA SONOLÊNCIA DA MARIJUANA STRIPTEASE. O SÍNDICO MORREU NO PALCO GENIAL E GRANDIOSO COMO POUCOS. QUEM SABE AO CERTO, SABE. QUEM NÃO, VAI TER DE DESISTIR. O LUAU DOS CARBONÁRIOS É SÓ UM REVIVAL DE PARANÓIA JUVENIL. NOSSA GUERRA SEMPRE ESTEVE PERDIDA. UM QUILO DO BOM É A PASSAGEM DA MÁGICA XAMÃ. O SÍNDICO SEMPRE SOUBE. NESSAS, NAS OUTRAS, O OLHO DA CASCAVEL, CLARO, É SEMPRE O PONTO FINAL DA ESTRADA. NA DÚVIDA DAS VIAS, CARIMBE TUDO. O QUE DE RESTO RESTE, É SÓ O GOSTO NA BOCA DA FALTA DE DENTES. TÉDIO. SAUDADE.

08 julho, 2008



Então tenha um bom dia
E, se tiver tempo, olhe pro céu
Bonito pra caralho hoje!!!!
Então fica tranqüilo
E enquanto espera o ônibus
Assovia uma canção da tua infância.
Então, dá uma risada pra nada
E ensaia uma dança em cima da poça de chuva
(provavelmente a última antes do verão)

06 julho, 2008


Cinco horas da tarde. O Sr. Samuel olhou com lentidão programada cada coisa espalhada pelo seu quarto. Coisas. Ele sabia que eram coisas. Ele sabia o nome de cada uma daquelas coisas. Sabia quando elas tinham vindo parar na sua mão, e porque. Olhou pra baixo de sua cama e sentiu – mais do que viu – seus chinelos. Velhos. Tudo naquele quarto era velho, ele sabia. Calçou as sandálias e foi até a janela. Levantou sem esforço o caixilho e mais uma vez se espantou. Todas as tardes ele cumpria o mesmo ritual: olhar suas coisas, calçar as sandálias, abrir a janela e olhar a rua. Sempre no mesmo horário. Sempre um novo espanto. De onde vinha tanta coisa nova, se no seu quarto o tempo teimava em não passar? O garoto filho da vizinha fazia piruetas em um skate colorido. Cinco meninas rodavam em uma ciranda sem som. O sol tingia as nuvens em vinte? Trinta? Sabe-se lá quantos matizes de cores diferentes. Um passarinho desconhecido cerzia um ninho na lâmpada queimada do poste da esquina. O Sr. samuel pensou se eram reais as imagens. Se aquilo tudo não era uma ilusão. Uma a mais. O novo, desde há muito, o entristecia mais do que o assustava. Pensou em gritar. – Maria! Ô mariiia! Não. Gritar para quê? Para quem? Sabia. Sentia. Maria não existia mais naquela casa. Tinha existido? As vezes se flagrava pensando que as pessoas que tinham morrido naquela casa nada mais eram do que personagens dos seus velhos livros lidos. Maria, madalena, aurora... maria, madalena, aurora...
- seu samuel! Seu samueel!
Pensou em não responder. Pensou em simplesmente abrir a janela e saltar. E se não morresse logo? E se ficasse completamente estropiado e “vivo”? – um momento! Um momento por favor.
- seu samuel, dona sebastiana mandou lhe avisar que o senhor esqueceu de novo de pagar o condomínio.
- esquecer? Eu não esqueço nada! Nunca! Diga a dona sebastiana que logo mais eu passo em sua residência e acerto tudo. É lógico que isso não passa de um problema documental da senhora sebastiana. Mas eu acertarei tudo. Acertarei tudo. Está me compreendendo?
O garoto que tinha dado o recado de há muito que tinha saído, mas o senhor samuel detestava ser interrompido. Tanto fazia se tinha ouvintes ou não, ele nunca deixava um raciocínio sem conclusão. Sem se achar completamente convencido. – essa dona sebastiana é uma criatura má e sem escrúpulos. Eu lhe disse – há muito pouco tempo – que eu não moro nessa coisa que ela chama de apartamento. Na realidade eu moro no passado. E ao que me conste, o passado não tem taxa de condomínio. Eu posso até dormir nesse ano da graça. Mas eu sempre acordo em meados dos anos quarenta. Eu sou um romântico. Eu sou uma partícula de uma jazz band que toca ininterruptamente uma música sem fim ou começo. Eu sou sam. O sam que o bogart diz: “toque de novo sam”.

05 julho, 2008


onde escondi meu girassol de vidro
onde escondi meu olho de potestade
onde escondi meu espelho de três faces
onde escondi o inseticida e o livro de baudelaire
onde escondi minhas coisas sem serventia
onde escondi meu playmobil colorido
onde escondi minha velha camiseta do ramones
acredito que perdi tudo...
...no dia que achar, me acho
Acho eu

04 julho, 2008



Ana se mistura com o sal
Água por todos os lados de ana
Ana ama o mar
O mar ama ana
Mar e ana
Mariana
Puro mar
Sem um porto seguro

26 junho, 2008


Anoitece na cidade dos impossíveis. A ponte presidente dutra é o retrato desses impossíveis: um caos. Cenário de blade runner com misturas hiper-realistas de um algum vanguardista europeu. Como disse, anoitece. A barca cruza devagar o velho chico. Indiferente a ponte. Indiferente aos replicantes que cruzam a pé, de barco, de moto, de bicicleta. Na primeira parada, fabinho diz: vamo vê o xamã! Instantes depois, já com a colômbia nas narinas e a loura gelada no coração seguimos viagem. E que viagem...

Acorda, levanta, resolve

Há uma guerra no nosso caminho

Nos confins do infinito

Nas veredas estreitas do universo

Vejo

As cinzas do tempo

O renascimento

As danças do fogo

Purificação, transporte

Escuto

O trovão que escapou

Lirinha se veste de louco. Parece um pouco com cada um dos que dançam esperando a chuva. Esperando a porrada certeira nos cornos. Luzes no palco. Escuridão. Um candeeiro, e o palco é uma tapera. Em cima da serra. Tem um pé de umbuzeiro na porta. Lá fora os lobos. Os lobos. Os bobos.

Antes do peito dos mouros Antes dos gritos da gente Antes até da saudade Que viajou além-mar Do banzo dos africanos Do toré no mato verde O fogo com seus estalos Fazia um som Já fazia um som Já fazia um som

Duas horas de catarse. De loucura. De gritar ao som dos tambores. De uma hora pra outra, acabou-se. Ruim sair assim. Como se o final não fosse aquele. Como se aqueles tambores nunca mais saíssem. Como se o som nunca mais parasse de explodir. De tocar. O xamã acende um candeeiro. Segura em sua mão de tremes e tremes. Canta. Recita. Eu bebo. Abro os braços. Louvo o santo louco dos loucos da terra dos impossíveis. Aí chove. E lava a mágoa de quem não queria que a noite acabasse. Mas ela sempre acaba. Como tudo. A noite sempre acaba... e chove...

Seu boiadeiro por aqui choveu

Seu boiadeiro por aqui choveu

Choveu que amarrotou

Foi tanta água que meu boi nadou

25 junho, 2008


bailarinas

não fazem amor

não

amanheçem

não

sabem rir

engolem devagar

com os olhos poentes

bailarinas somem

e não deixam pistas

ou notas musicais

de despedidas

18 junho, 2008

Má água


em minha mágoa
som stéreo
Má água
em minha mágoa
amálgama

Eu vomito febem com meus meninos de ouro e pólvora com sangue e gelatina. Assisto aos vídeos de nada e cuspo uma rebelião atrás da outra. Ligo o rádio e cuspo uma tristeza enganchada na outra. Faço pouco. Cuspo solidão. Corto com facão a realidade da idade irreal. Minha mão. Minha mãe... minha mãe regurgita passado. Aflita sempre. Ela quer uma solução pros seus pequenos problemas. Probleminhas pequeninos e insolúveis. Eu como interrogações. Cuspo frases feitas. Para quê? Pra disfarçar a porra da pobreza. Pra disfarçar a falta de um mapa. O celular indigesto é só um gesto em minha mão moto-contínua.

02 junho, 2008

é tudo free




Estou doando o meu pedaço de amazônia
Estou doando o meu sangue contaminado por dengue e dengo
Estou doando os meninos do meu bairro que pipam crack
Estou doando meu médico que consegue me examinar em 40 segundos
Estou doando a polícia armada até os dentes da minha cidade
Estou doando as leis burladas da minha constituição
Estou doando a maconha proibida e a alface transgênica liberada da monsanto
Estou doando a minha música que toca no rádio o dia inteiro
Estou doando o artista plástico que amarra um cachorro e o deixa morrer de fome e sede
Estou doando meus paletós e gravatas que enfeitam brasília
Estou doando minha alma a quem interessar possa
Estou doando minha pele com poucas tatuagens para servir de decoração pós moderna
Estou doando os meus adiamentos
Estou doando as minhas filas
Estou doando meus patrões todos, os do passado e os do presente
Estou doando minha sociologia burocrática
Estou doando meus adultérios
Estou doando minha maturidade
Estou doando minha afinidade com a loucura
Estou doando esse meu monólogo em ré menor
Estou doando minha alegria amancebada com a tristeza
Porque no meu país, os homens não crescem
Mas teimam em rebaixar o teto.

Estou doando, não pela minha boa índole. É que na verdade, eu fico muito puto quando um milionário vem aqui, compra, e eu não sou consultado. Então, para que problemas não hajam, de hoje em diante quem quiser – de minha parte – pode pegar.

29 maio, 2008


Devo lhe dizer que siga as placas. Devo lhe dizer que obedeça. Devo lhe dizer que na verdade eles estão certos. Então aprenda a ler. E lendo, aprenda a ser delicado. Coma direitinho. Use o guardanapo. Não fume em público. Não peide. Use perfume e pelo amor de deus, escove os dentes e reze antes de dormir. Devo lhe dizer que a placa diz o que alguém mandou. Não questione então. Não buzine na porta do hospital. Não compre a arma da vitrine. Não pegue na bunda exposta da menina. Você está entendendo né? Aprenda desde já onde é o seu lugar. Fique nele. Não saia do seu lugar. Não invada. Não entre. Não se meta. Não meta nada em ninguém. Rezou? Escovou os dentes? Olhou se o sinal está verde? Então prove que você é do bem e dê sua cadeira a velhinha. Ofereça o seu lugar na fila. Bebeu demais de novo? Você não tem jeito. E isso é regra. Então obedeça as regras. Coloque só duas gotinhas. Mastigue. Mastigue. Mastigue. Leia direito. Depois discuta. Se for minoria, concorde. Se for maioria, concorde. Mantenha-se calado. Desligue o celular. Diga que entendeu o livro. Diga que entendeu o filme. Diga que entendeu a porra da tela abstrata. Mantenha a barba meio sem fazer. Mantenha os cabelos meio desalinhados. Mantenha as roupas meio amarrotadas. Mantenha um sorriso meio meia boca. E por favor, siga as placas. Crie um gato. Um cachorro. Um periquito australiano do brasil. Escute rádio de manhã. Aprenda uma música dessas ditas populares. E veja bem: siga as placas. Ande devagar, mas tenha pressa. Fale baixo, mas grite um pouco. Diga que é gente. Pessoa. Ser. Alma. Inteligência. Parte do todo. Que vai pro céu. É mentira, mas qual o problema? Você até pode mentir. Desde que siga as placas.

28 maio, 2008


Entro na desordem. E não tenho idade. Ou tenho. Enfim, entro na desordem. A desordem tem uma enorme boca de cena. Cortinas vermelhas que levanto devagar. Sem medo, apenas pra manter um clima. Apenas pra ser o primeiro a ver o que se esconde atrás da cortina.

Tem um deus morto dentro do elevador. Penso se devo olhar de perto. Penso se devo enfiar meus dedos nos orifícios da balas. Foram balas? Penso se devo lamber as feridas abertas pela faca. Foi uma faca? Penso se devo procurar um bilhete de suicídio. Será que foi suicídio?

Um demônio chora sentado em uma mesa lotada de garrafas vazias de cerveja. Debaixo de sua cauda vermelha brilhante um livro de aforismos de Oscar Wilde. Sento em sua mesa. Mantenho uma distancia segura. Pergunto se posso cantarolar alguma coisa. Ele sacode a mão, entediado. Desafino Lupiscínio Rodrigues. Ele me pede um cigarro, pergunta se posso deixar uma paga antes de sair.

Uma senhora passa nua da cintura para cima, empunhando uma bandeira azul cheia de estrelas. Para no centro do palco, sacode as próteses e diz solenemente: - “de agora em diante, está permitido falar besteira”. Um pequeno porco a segue de perto, farejando seus calcanhares.

Um copo vazio corta o espaço e se espatifa em algo além da minha vista. Vejo o barulho mais do que ouço o barulho. Sempre foi assim. Desde pequeno. Vejo o barulho das lagartixas. Vejo o barulho das roupas sendo atiradas pelo chão quando ela passa. Vejo a porta se batendo. Dizendo: - fôda-se meu rei! Fui!!!

A música sai das paredes. Fala de um garoto que amava os beatles e os stones. Fala do vietnã. Vietnã? A folha do notícias populares pingando sangue ri. Vietnã... os garotos não sabem dos stones. Os garotos não tem a menor idéia de quem são os caras de liverpoool. Fritam seus miolos com dendê e armam um pequeno vietnã em cada apartamento.

25 maio, 2008


A banca do velho Epifânio ficava embaixo de um pé de goiaba. Todos os dias – a não ser quando chovia – o velho Epifânio chegava, armava sua cadeira, colocava fumo no cachimbo, ligava o rádio baixinho, e ficava esperando seus clientes. Na maioria das vezes, velhas senhoras. Mas vinham também garotos drogados, prostitutas, e toda a fauna suburbana. Epifânio tinha um método engraçado de começar seu trabalho: pedia fotos antigas da pessoa, e pedia para a pessoa falar de si mesma durante meia hora. No outro dia, Epifãnio trazia um passado inteiro para o cliente. Assim, mendigos ganhavam um passado de riqueza e devassidão; garotos drogados amanheciam com a certeza de terem vindo de outros países e abandonados por seus pais desnaturados, etc.
Epifânio sempre soube que ninguém gosta de verdade da verdade. O que o sujeito quer, é um morto bonzinho, em seu passado para lembrar.

Josué era obcecado por despertadores. Tinha cinqüenta e nove. Todos iguais. Ele colocava-os para despertar em horários diferentes, e enlouquecia seus vizinhos. Aos domingos ele desligava todos os despertadores, descia os dois lances de escada, sentava ao lado da barraca do velho Epifânio e tocava ininterruptamente durante uma hora e meia. Seu sax era, para os vizinhos, um anúncio do domingo. Aliás, quando ele faltava, era comum as pessoas se perguntarem: - que dia é hoje?! – Josué, depois do seu show para ninguém, pegava uma laranja e a descascava pacientemente. Depois de chupada a laranja, começava a falar sozinho, primeiro baixinho, depois aos berros. – O que eu quero saber, de verdade é qual a função das crianças? Até porque eles só funcionam quando adultos. Então, congelem as crianças agora! Porque as lâmpadas queimam? Quem projetou os cangurus? E as buzinas? Quem foi o filho da puta que inventou as buzinas? Ah! Quer saber? Vão a merda.

Dona Leonor odiava Josué. Ela telefonava do orelhão da esquina para sua filha e reclamava todos os dias do barulho dos despertadores e do som desafinado do sax. Ela andava pelo bairro com a cabeça toda enrolada por bob´s coloridos e uma velha máquina fotográfica Leika pendurada no pescoço. Ela olhava para as pessoas estranhas ao bairro e, estando a uma distância segura, começava a fotografar. Ela tinha uma teoria em que – segundo ela – metade da população local era formada por extraterrestres. Por isso ela fotografava tanto, na esperança de flagrá-los em algum momento de distração. Ela mesma revelava as fotos, em um pequeno laboratório caseiro. Depois de reveladas, ela levava as fotos para mostrar a seu Almeidinha – dono do frigorífico – e pedir a opinião dele. As pessoas do bairro morriam de rir de dona Leonor, mas seu Almeidinha gostava dela. E sempre que podia, apontava as pessoas que ele não gostava e vaticinava: - Leonor, aquele é marciano com certeza.

16 maio, 2008


Válvula de escape de dor e medo
Cheiro, fumo, bebo, saio
Sumo sem deixar notícia
Corto minhas próprias feridas

Válvula de escape de dor e medo
Escorrego pelo ralo, atiro antes do outro
Nunca dou as costas
Apago de borracha minha sombra

Válvula de escape de dor e medo
Trepo, como, mordo, arranho
Nunca chego perto, pra não deixar pegadas
Um muro de concreto no lugar do coração

Válvula... estrada sem placas
Válvula... guitarra estridente na noite fria
Válvula... cavalgo no centauro na viagem derradeira
Válvula de escape de dor e medo, medo, medo!

14 maio, 2008

começo de uma carta pra ninguém


Você tem medo das palavras? Eu sim. A palavra tem esse dom escroto de abrir portas, de subir muros, de fomentar revoluções... Aí você pensa: - esse cara é louco. Louco um caralho meu amigo! A verdade? A verdade meu amigo, é que a verdade é mutante. Então, mentirei. E você lerá verdades em minhas mentiras. E você rimará coisas que não quis como poemas. E você usará temperos por demais sutis em coisas que precisam de pimenta e pólvora. Você tem medo das palavras? Deveria ter meu amigo. Deveria ter...
Você sabe onde eu moro? Eu moro no passado meu camarada. Tem vantagens sim, tem vantagens. Por exemplo? Eu não pago condomínio. Posso escutar the mamas e the papas e temperar com iron maiden. Posso ler herman hesse ou thomas mann. Posso comer comidas simples ou exóticas e encarar tudo isso – sempre – como novidades.
Eu guardo retratos nas paredes. Você não? Eles falam. Dream´s over. Eu nem traduzo. Quando fecho a porta da minha casa passado o silêncio manda. O silêncio. A enormidade do silêncio no meio da mais escandalosa algazarra. Sei de alguma coisa: não sei de nada.
O garoto enrola o ioiô e passeia na cidade. Vejo da janela. As pessoas não riem nessa cidade futuro. Por isso moro no passado. Ainda tenho medos de bombas atômicas, mas consigo sorrir.
Fecho os olhos. Sonho o velho walt whitman comendo rosbifes e limpando a boca em poemas que ele nem lembra mais. Quem lembra? Lembrar pra quê? Eu lembro... e a lembrança mora colada a minha casa, também no passado. Vomitando o futuro.
Viu? Eles não fecham os olhos. Os peixes, claro. Mudos e observadores. Amo peixes. E odeio peixes. E sim, é verdade: eles não fecham os olhos. Pensei que era só eu que dormia de olhos abertos...
Viu? E os calendários? Servem pra quê? Pra riscar os dias. Diz minha filha. Pra saber que não dá mais tempo. Diz o cobrador de ônibus. Pra esquecer o aniversário de alguém, diz a minha mãe. Pra lembra que esquecer é a grande jogada. Eu digo.
Daí, que o que tenho a te dizer é que começo os dias, quando eles não me começam. E obedeço cegamente ao comando dos meus pés que andam. Livres? Penso. Movimento idéias como malabares. Depois enjôo. E termino o dia, antes que ele me termine.
Me perdi nas idéias, entendeu? Acho até que perco as coisas de propósito. Por vontade de andar mais leve. Na hora, fico puto. Por comodidade, provavelmente. Sei que não posso inventariar o que perdi. Pouco? Muito? Perdi mais do que achei. Por isso, se não amarrar os pés, me flagro voando poraí. Me perdendo de mim.
É isso. Moro no passado. Me recuso a pagar aluguel, ou até condomínio.
Viu? Até.

13 maio, 2008


Sim querida minha o tempo tem me dito da falta dele sim querida minha ele me diz sussurrando às vezes gritando de quando em vez que nunca me deu relógios que os relógios tem vontade própria e que tem bocas enormes e que comem gente diz que o relógio que comeu meu pai minha tia minha vó diz que vai me comer querida minha com ou sem meu consentimento pergunto coisas e ele ri com cara de mau com cara de bom com cara de nada digo amor e ele ri dizendo amor não existe digo juventude e ele gargalha e diz ilusão digo dor e ele me olha com olhos de cão sem dono fala que a dor é a primeira moradora do universo diz que tudo mais é desencanto sim querida minha ele senta em minha porta e diz que senta em todas diz pra não me preocupar com os cabelos brancos ou com qualquer outra coisa diz que o flamengo pode ganhar ou perder e não importa diz que tanto faz tomar um porre ou se entupi de remédios tudo tudo tudo tudo não passa de perda de tempo. Não perca tempo querida minha. Ou perca. Tanto faz.

02 maio, 2008

novo síndico do borba gato


O professor Antônio Natalino Dantas, 69, coordenador do curso de medicina da UFBA (Universidade Federal da Bahia), fez uma declaração considerada preconceituosa por muita gente, de autoridades governamentais a artistas, passando por professores e estudantes.Ele disse na terça-feira que o baiano é burro, que tem baixo QI (Quociente de Inteligência), e emendou:
O baiano toca berimbau porque só tem uma corda. Se tivesse mais [cordas], não conseguiria.Para o governador da Bahia, Jaques Wagner (PT), Dantas teve um “surto de imbecilidade”, conforme relato dos jornalistas José Eduardo Rondo e Renata Baptista, na Folha de hoje. Wagner nasceu no Rio.O músico baiano Tom Zé, 71, disse que não ia xingar o Dantas para que o professor não tivesse esse prazer.O Ministério Público Federal na Bahia abriu procedimento administrativo para apurar se as declarações de Dantas são discriminatórias.Dantas (foto) disse que o baiano tem baixo QI a propósito do desempenho dos estudantes da Universidade Federal da Bahia no Enade (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes) – eles ficaram entre os piores.Diante da reação ao que diz ter sido um desabafo, o professor negou ser racista. Mas não recuou de sua afirmação.Detalhe: Dantas é baiano.
EXAGEROS - Ok. O professor exagerou no que ele chama de desabafo. Mas há outro exagero que não pode ser perdido de vista: a vergonhosa avaliação dos estudantes da UFBA no Exame de Desempenho. Quem neste momento desce o pau no professor Dantas deveria poupar um pouco de suas energias para ajudar a melhorar a qualidade de ensino naquela universidade. Dantas confirma declaração

01 maio, 2008



Sizunite sempre foi um herói sem caráter. Vivia com fome. De tudo. Olhava como um vampiro as filas intermináveis dos cinemas. Queria comer bundas. Sanduíches. Samambaias coloridas. Um dia o encontrei iluminado. Perguntei o motivo. Respondeu categórico: - ontem jantei um pensamento. Fechando os olhos, olhando pra trás querendo entender o que vem pela frente. Sinais.

Sizunite me conta coisas que lhe acontecem diuturnamente: a ponta de um cigarro que, depois de arremessada cai caprichosamente em pé, gente que se encontra na esquina do imponderável, pingos da chuva que acham que ele é um “i”, caem todos em cima dele. Ele diz que sabe que alguém, em algum lugar, se interessa pelo que ele anda fazendo. Sinais. Sempre os milagres dos sinais.

A mãe de sizunite diz que ele nasceu com olhos cor de nojo. Verdes. Diz que ele já saiu de sua boceta assim: com olhos de tédio, com olhos de nojo, com olhos de quem sabe do tédio. Quando comeu a primeira namorada ele me disse, assim, atôa: como bocetas porque sou faminto. E buracos corporais são mais que perfeitos. Sinais. Diz que gosta de beijar bocas – de homens ou mulheres, tanto faz – com gosto de água de côco e uísque nacional. Sinais. Ele diz que só ama se tiver escândalo. Só acaba de amar se com isso proporcionar uma calamidade. Sinais.

- Sizunite, você volta?
- tenho medo de voltar. Por isso vou sempre. Empurro portas. Espero o trem passar, mas não olho pra trás. Penso. É medo, ou uma vontade filha da puta, que não compreendo, ou não me compreende?
- você é simplesmente um escroto.
- mas, escrevo sem borracha. Ou então, como a borracha. Na certeza de não ter que apagar. De pagar pra não apagar. Sinais. Entende? Sinais.

Sizunite diz que só amou aurora. A aurora boreal. Cheia de sinais.

Edith piaf cantarola nos ouvidos moucos de sizunite. Edith piaf decreta o fim do feriado. A dor lupeliana de gastrite viva e sem mordaça. Edith piaf ama sizunite. E lhe pede pelo amor de deus que não traduza suas canções pra virarem coisas. Sizunite disse, no bar, que matou edith piaf com sua arma mais moderna: um belo revólver de língua que dispara seis mentiras por minuto. Sinais. Sempre os malditos sinais.

Sizunite me escreve um bilhete de despedida, e joga na minha janela: “sôe falso, consuma-se em silêncio, gargareje galos ao anoitecer. Porque se você esperar até amanhã de manhã, eu jogo um sol na sua janela. Você é um cego. E os cegos? Não sabem das borboletas. Nem sonham arco-íris.” Sinais. Sinais.