15 agosto, 2008


Zé de diadora escuta vozes que ele não sabe de onde. Diz ele que as vezes são cantigas, bem bonitas cantigas. De outras vezes são ordens. Gritos. Músicas estranhas. Cantos de passarinhos. Pergunto se ele escuta a gente. Falando com ele também. Diz que escuta. Que é como o botão de sintonia de um rádio. Só escuta uma coisa de cada vez. As vezes ele recita estrofes inteiras de camões. Outras vezes – em filas de banco – ele fala em línguas estranhas. Dona antonina diz que ele fala alemão, javanês, carioca. Dona antonina sabe. Dona antonina lê mão e vê visage. Zé de diadora vive das graças de deus. Trabalhar mesmo, nunca. De vez um quando faz um mandado. De vez em quando não faz. Ta sem vontade. Com calundu. Dona antonina disse a minha mãe que isso é coisa de homi donzelo. Que as coisas lá dele, subiram tudo pra cabeça.

11 agosto, 2008


no dia dos pais
pensei em jim
cantando the end

The end (tradução)
The Doors
Composição: John Densmore / Robbie Krieger / Ray Manzarek / Jim Morrison

O Fim

Este é o fim
Belo amigo
Este é o fim
Meu único amigo, o fim
Dos nossos elaborados planos, o fim
De tudo que permanece, o fim
Sem salvação ou surpresa, o fim
Eu nunca olharei em seus olhos...de novo
Voce pode imaginar o que será?
Tão sem limites e livre
Precisando desesperadamente...de alguma...mão de estranho
Numa terra desesperada?

Perdido numa romana...selva de dor
E todas as crianças estão loucas
Todas as crianças estão loucas
Esperando a chuva de verão, sim
Tem perigo no extremo da cidade
Passeie pela estrada do rei, bem
Cenas estranhas dentro da mina de ouro
Passeie pela estrada do este, bem
Passeie pela serpente, passeie pela serpente
Para o lago, o antigo lago, bem
A serpente é longa, sete milhas
Passeie pela serpenteÂ… Ela é velha e sua pele é gelada
O oeste é o melhor
O oeste é o melhor
Vá lá, e nós faremos o resto
O ônibus azul está nos chamando
O ônibus azul está nos chamando
Motorista, aonde está nos levando?

O matador acordou antes do amanhecer, ele pôs suas botas
Ele tirou uma foto da antiga galeria
E andou pelo corredor
Entrou no quarto em que sua irmã vivia, e...então ele
Pagou a visita a seu irmão, e então ele
Ele andou pelo corredor, e
E ele veio até a porta...e ele olhou para dentro
"Pai?", "Sim filho?", "Eu quero te matar."
"Mãe...Eu quero...te foder."

Venha bem, tente conosco (3x)
E me encontre atrás do ônibus azul
Fazendo um foguete azul, No ônibus azul
Fazendo um rock triste, vamos, sim
Matar, matar, matar, matar, matar, matar

Este é o fim, belo amigo
Este é o fim, meu único amigo, o fim
Dói te libertar
Mas você nunca vai me seguir
O fim da gargalhada e das mentiras suaves
O fim das noites que tentávamos morrer
Este é o fim

09 agosto, 2008

para iza greff


Meu Carnaval



(Guga Borba)

D D4 D G
Vou deixar a lareira acesa
A D D4 D D4
e sobre a mesa, o jantar.
D D4 D G
Vou levar a marmita tão boa
A D D9 D D9 Bm
que a própria patroa me faz.

E G
Quando digo as coisas tão lindas
D D9 D D9 Bm
Não te faz mal,
E G
Quando digo que sempre fascina
D D7
Meu carnaval.

G
Amanhã vai se abrir
A D D4 D D4
Em todo o céu carmesim,
G
A "lerdeira" certeira
A D D4 D D4
Que sempre certeza se faz
G A
Vou levar a bagagem mais cedo
D D9 D D9 Bm
Pra não te acordar

E G
Quando digo as coisas tão lindas
D D9 D D9 Bm
Não te faz mal,
E G
Quando digo que sempre fascina
D G D G
Meu carnaval
D G D G
Meu carnaval
D G D G
Meu carnaval
D D7
Meu carnaval

G
Amanhã vai se abrir
A D D4 D D4
Em todo o céu carmesim,
G
A "lerdeira" certeira
A D D4 D D4
Que sempre certeza se faz
G A
Vou levar a bagagem mais cedo
D D9 D D9 Bm
Pra não te acordar

E G
Quando digo as coisas tão lindas
D D9 D D9 Bm
Não te faz mal,
E G
Quando digo que sempre fascina
D Bm
Meu carnaval

(Nessa parte soe o acorde bem baixinho)

E G
Quando digo as coisas tão lindas
D Bm
Não te faz mal,
E G
Quando digo que sempre alucina
D
Meu carnaval
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06 agosto, 2008

JURUBEBA LEÃO DO NORTE


(jurubeba) – por mim nem tinha curva
(leão do norte) – por mim a água seria sempre turva

A CENA SE PASSA DENTRO DE UMA CAIXA DE VIDRO SUSPENSA POR UMA CORRENTE COM UM DOS ELOS QUASE PARTIDO.

(jurubeba) – a água é doce. A água é sempre doce.
(leão do norte) – e a porra da mágoa? A porra da mágoa é flor de lodo. É foto amarelada.
(jurubeba) – cala a boca caralho!!! Foto amarelada, fôda-se com suas fotos amareladas.

UM MICO LEÃO DOURADO SALTA DA SAMAMBAIA DE PLÁSTICO E LIGA O RÁDIO. ONDAS MÉDIAS.

(leão do norte) – preciso pagar carnês. Contas. Boletos. Jogar na loteria.
(jurubeba) – preciso que alguém me diga: - ria!
(leão do norte) por quê?
(jurubeba) porque entre eu e você tem uma noite de ônibus. Duas horas de avião. Um macarrão que detesto. Um livro de Carlos Drumonnd de Andrade que você me disse, um dia, que nunca, por motivos óbvios, vai ler.
(leão do norte) um dia, quando tudo perder a importância empírica. Um dia, quando a televisão ficar o dia todo desligada. Um dia quando todas as contas virarem piadas. Um dia quando todos os carros ficarem estacionados. Aí, e só aí, eu vou olhar uma flor até que ela se abra inteira. Aí, e só aí, eu vou pegar um desses livros com títulos estranhos e lê-lo do começo até o final. Antes disso, pra quê?

QUATRO OPERÁRIOS DA CONSTRUÇÃO CIVIL PARAM EM FRENTE A CAIXA DE VIDRO E COMEÇAM A FAZER UM STRIPTEASE. UM DELES IMITA MADONNA. OS OUTROS SE IMITAM. UM VELHO ÍNDIO ACENDE VELAS DE TAMANHOS DIFERENTES. UMA VELHA ÍNDIA ACENDE UM CACHIMBO. UMA GAROTA ÍNDIA CANTA UMA LITANIA XAMÂNICA MONOCÓRDICA E IDIOTA.

(jurubeba) você quer ser uma mona lisa, só por causa do sorriso né? Você quer morder a orelha, como um vangogh mal humorado e sem graça né? Você quer êxtase, mas não quer terror né?
(leão do norte) eu vou re-encarnar em um urso de pelúcia. Eu vou ser um urso tecno. Eu ainda vou ter os olhos moles feitos os de pagu. Eu vou armar pra você uma arapuca de seringas beat polifônicas.
(jurubeba) a vida ta beleza man. Sem dores esquisitas. O paregórico segurando a cólica e a cerveja iluminando a lua plena. Então, o que dá pra lhe dizer agora é que sua bunda não faz diferença alguma. É que sua alma não vale um vale pro inferno. É que sua falsa cultura tem um ácido que corrói a paciência. Mas a vida ta beleza man. Ta beleza.

A CENA É ILUMINADA POR OITENTA E CINCO LANTERNAS JAPONESAS. DEZOITO MENINOS NÚS ENCENAM A DANÇA DA CHUVA PORTANDO MARTELOS. ELES AVANÇAM PRA CAIXA DE VIDRO. DEZOITO CINEASTAS CONVIDADOS REGISTRAM A CENA.

(leão do norte) aquele menino ta contando estrelas?
(jurubeba) é que ele acabou de assistir E.T. do Spielberg.

04 agosto, 2008


O leite derramado
No fogão de lenha
O sangue coalhado
No chão
Do boi
Morto.

02 agosto, 2008


O beato zuílio subiu os degraus da igreja matriz e gritou possesso: “estão tocando fogo nas beiradas do céu”. Contam que aquele um, o cego, era a encarnação de lampião truviscado com corisco. Onório correu nu depois de pular a janela de expedito leiteiro. O beato zuílio dizia: “é preciso imolar um cordeiro!” onório caiu aos pés do beato. Em suas costas, o cabo de uma faca de dezoito polegadas cravadas até o talo. Aquele um, cego, se benzeu. O resto do povo correu. O beato olhava em silêncio. Um silêncio de fim de tarde, quando parece de verdade, que tão tocando fogo nas beiradas do céu.

31 julho, 2008


Dividi com Miguel uma bolacha creme cracker com doce de goiaba quando tínhamos doze anos. O povo dizia de Miguel: - é fraco da mente, tadinho. Ele não ligava. Ou fingia bem. Quando a gente vinha da escola ele dizia: - de noite eu não sou doido. Doido de noite? Tem quem seja. No dia da chuva eu o vi no meio do campo de futebol. Sozinho. Me disse que estava conversando com as coisas. E que na chuva as coisas falam com mais clareza. Miguel tem o dom de entrar nos lugares e não ser notado. Tem as roupas e sapatos cheios de marcas, assim como seus joelhos. Caía muito meu amigo Miguel. Com ou sem ajuda. Não sei por que lembro de Miguel quando estou sozinho. Mas lembro. Talvez por ter sentido nele o animal da solidão que me apavora hoje. Dia desses nos encontramos. Ele me abraçou. Lembrou que tinha – um dia – soprado velinhas coloridas de um bolo. Quando tinha sido. Amanhã? Semana passada? Dez anos atrás? Ontem? Ontem. Palavra engraçada: ontem. Ontem Miguel ria com todos os dentes. E me confessou: quando a lua ta cheia, ele uiva.

24 julho, 2008


Ela jura. Gosta de jurar. Quero estar perto não estando. Aparecer enquanto estou escondido. Ela jura que não é bem assim. Que a compreensão é turva. Quero não entender. Cortar o verso da fala. Monossilabicamente dizer sim e não na mesma frase. O ser que imagino metade é isso. Ela diz que tudo tem mais de um ângulo. Que o filme é bom no final. Ela jura. Ela cantarola uma canção. Jura que sua avó cantava isso perto de sua cama. Duvido dela. Da existência dessa avó. Ninguém sabe cantar. Eu não sei. Ela jura que meus erros são iguais. Eu, que não sei rir. Rio. Detesto repetir. Eu quero cometer erros novos. Abrindo as cartas sei: Tereza morreu. Chico caiu da moto. A polícia civil me deu um flagrante brabo. A vela da noite anterior queimou inteira. Ela jura que conserta tudo. Fecho a porta. Ficou tudo branco e preto.

23 julho, 2008


um conselho:
crie seu filho
jogue fora
o espelho.

Eu tenho o vento
E parte de mim é asa
Misto de beija flor e morcego
Não adianta esperar então
Existem coisas que se queimam
Na lareira
Vou levar a mala
Que tem um carnaval amarrado dentro.

15 julho, 2008


Três da manhã. Ela deve estar dormindo. Ela deve estar ligando pra minha mãe. Pra mãe dela. Ela deve estar assistindo o último filme da globo. Ela deve estar rasgando minhas camisas. Ela deve estar vasculhando minhas anotações. Ela deve estar arrumando as coisas dela pra ir embora. Ela... será que ela pegou uma faca da cozinha? Será que botou veneno no suco? Ela...
Três e quinze. Tenho que entrar. Chave sem barulho na fechadura. Sapatos tirados na perícia ninja das madrugadas. Pé ante pé. Um som estranho. Acima da música. Gemidos. Ela está com alguém. Não, é um filme. Ela está com alguém. Não, é a porra da música. Ela está...
Três e vinte. Porta do quarto só encostada. Abajur ligado. Penumbra. Vejo a bunda. Dela? De outra ela? De algum ele? O gemido é dela. É? Procuro pelo chão pistas que me digam o óbvio. Circulo devagar a cama. De olhos bem fechados. Ela balbucia palavras sem sentido. Pele arrepiada. Prazer. Muito prazer. Vou dos seus olhos pra sua boca. Entreaberta. Pele suada. Onde ta o cara? A mina? Peitos sacudindo. Mais um orgasmo. Procuro ver de onde emana tanto gozo.
Três e meia. Sua mão saciada solta seu amante. Olho com inveja pro cabo da escova de cabelo. Saio. Pé ante pé. Vou pra sala e ligo a tv. No vídeo ela deixa a pista, em batom vermelho: “enquanto você dorme, o mundo gira”.

13 julho, 2008


Curriculum vitae

livros que leu: quase tudo do G.G. marquez, quase tudo dos beats, quase tudo que me foi mandado na escola, quase tudo da poesia marginal anos 70, quase tudo do tudus de arnaldo antunes.

comida que não comeu: sushi e quase tudo que é comida metida a besta

pensamento lúcido: jamais amei roberto carlos

pensamento bêbado: a importância de não estar lúcido, é compreender quem não é lúcido nunca.

últimas ocupações: carteiro, poeta,vendedor de livros, artesão, mexer com cebola.

sonho de querubim: ser amigo de win wenders

noite ou dia: todas as noites e alguns dias

quais são as palavras: sim salabin

bêbados riem de quê: os bêbados riem deles mesmos, dos outros, de coisas e pessoas (não necessariamente nessa ordem). depois riem de novo, e vão rindo, até que deles só sobre isso: o som cristalino do riso.
O que é poesia: poesia me parece ser a tentativa de retratar o mundo em um 3 x 4 em terceira dimensão.

quem não é profeta: não são profetas os que profetizam. todos os outros são. os caras sentados em suas cadeiras na porta de casa, em uma pequena cidade do interior, são todos profetas: sabem quando vai chover, quando vai ser o batizado de maria, quem morreu e quem tá quase, e nem por isso se acham melhores. só são especiais pra quem os olha de longe.

O que é levar um susto saindo do val improviso: é pagar o sapo de ser pego no flagrante. é o beijo na garçonete. é o tapa no baseado. é a passada de mão na bunda da vizinha, bem de leve e com consentimento.

09 julho, 2008


SOLTO OS NÓS DOS SAPATOS E O LADRÃO ME ALIVIA. SOLIDÃO! ENTRE DUAS MIL PRETENSAS CRIATURAS HOMUSAPIENS. O VELHO FORD BIGODE URINA COMO UM VELHO. A CIDADE SOPRA VAPORES DE ESGOTOS E FOSSAS ANTI-SÉPTICAS. O MAU HÁLITO É CONSEQUÊNCIA DO MAU HUMOR. A PELE QUE DEGENERA COM O SOL DO MEIO DIA É SÓ UMA PÁGINA QUALQUER DE UM LIVRO INACABADO. NENHUM LIVRO ENSINA OS MANÍACOS ADOLESCENTES A CONTAR CARNEIRINHOS ANTES DE DORMIR. O ORIFÍCIO DO SOVACO DA COBRA É SÓ UMA PISTA DE CONTRA MÃO CONTRA FLUXO CONTRA FLEUMA DA ESQUISITA SONOLÊNCIA DA MARIJUANA STRIPTEASE. O SÍNDICO MORREU NO PALCO GENIAL E GRANDIOSO COMO POUCOS. QUEM SABE AO CERTO, SABE. QUEM NÃO, VAI TER DE DESISTIR. O LUAU DOS CARBONÁRIOS É SÓ UM REVIVAL DE PARANÓIA JUVENIL. NOSSA GUERRA SEMPRE ESTEVE PERDIDA. UM QUILO DO BOM É A PASSAGEM DA MÁGICA XAMÃ. O SÍNDICO SEMPRE SOUBE. NESSAS, NAS OUTRAS, O OLHO DA CASCAVEL, CLARO, É SEMPRE O PONTO FINAL DA ESTRADA. NA DÚVIDA DAS VIAS, CARIMBE TUDO. O QUE DE RESTO RESTE, É SÓ O GOSTO NA BOCA DA FALTA DE DENTES. TÉDIO. SAUDADE.

08 julho, 2008



Então tenha um bom dia
E, se tiver tempo, olhe pro céu
Bonito pra caralho hoje!!!!
Então fica tranqüilo
E enquanto espera o ônibus
Assovia uma canção da tua infância.
Então, dá uma risada pra nada
E ensaia uma dança em cima da poça de chuva
(provavelmente a última antes do verão)

06 julho, 2008


Cinco horas da tarde. O Sr. Samuel olhou com lentidão programada cada coisa espalhada pelo seu quarto. Coisas. Ele sabia que eram coisas. Ele sabia o nome de cada uma daquelas coisas. Sabia quando elas tinham vindo parar na sua mão, e porque. Olhou pra baixo de sua cama e sentiu – mais do que viu – seus chinelos. Velhos. Tudo naquele quarto era velho, ele sabia. Calçou as sandálias e foi até a janela. Levantou sem esforço o caixilho e mais uma vez se espantou. Todas as tardes ele cumpria o mesmo ritual: olhar suas coisas, calçar as sandálias, abrir a janela e olhar a rua. Sempre no mesmo horário. Sempre um novo espanto. De onde vinha tanta coisa nova, se no seu quarto o tempo teimava em não passar? O garoto filho da vizinha fazia piruetas em um skate colorido. Cinco meninas rodavam em uma ciranda sem som. O sol tingia as nuvens em vinte? Trinta? Sabe-se lá quantos matizes de cores diferentes. Um passarinho desconhecido cerzia um ninho na lâmpada queimada do poste da esquina. O Sr. samuel pensou se eram reais as imagens. Se aquilo tudo não era uma ilusão. Uma a mais. O novo, desde há muito, o entristecia mais do que o assustava. Pensou em gritar. – Maria! Ô mariiia! Não. Gritar para quê? Para quem? Sabia. Sentia. Maria não existia mais naquela casa. Tinha existido? As vezes se flagrava pensando que as pessoas que tinham morrido naquela casa nada mais eram do que personagens dos seus velhos livros lidos. Maria, madalena, aurora... maria, madalena, aurora...
- seu samuel! Seu samueel!
Pensou em não responder. Pensou em simplesmente abrir a janela e saltar. E se não morresse logo? E se ficasse completamente estropiado e “vivo”? – um momento! Um momento por favor.
- seu samuel, dona sebastiana mandou lhe avisar que o senhor esqueceu de novo de pagar o condomínio.
- esquecer? Eu não esqueço nada! Nunca! Diga a dona sebastiana que logo mais eu passo em sua residência e acerto tudo. É lógico que isso não passa de um problema documental da senhora sebastiana. Mas eu acertarei tudo. Acertarei tudo. Está me compreendendo?
O garoto que tinha dado o recado de há muito que tinha saído, mas o senhor samuel detestava ser interrompido. Tanto fazia se tinha ouvintes ou não, ele nunca deixava um raciocínio sem conclusão. Sem se achar completamente convencido. – essa dona sebastiana é uma criatura má e sem escrúpulos. Eu lhe disse – há muito pouco tempo – que eu não moro nessa coisa que ela chama de apartamento. Na realidade eu moro no passado. E ao que me conste, o passado não tem taxa de condomínio. Eu posso até dormir nesse ano da graça. Mas eu sempre acordo em meados dos anos quarenta. Eu sou um romântico. Eu sou uma partícula de uma jazz band que toca ininterruptamente uma música sem fim ou começo. Eu sou sam. O sam que o bogart diz: “toque de novo sam”.

05 julho, 2008


onde escondi meu girassol de vidro
onde escondi meu olho de potestade
onde escondi meu espelho de três faces
onde escondi o inseticida e o livro de baudelaire
onde escondi minhas coisas sem serventia
onde escondi meu playmobil colorido
onde escondi minha velha camiseta do ramones
acredito que perdi tudo...
...no dia que achar, me acho
Acho eu

04 julho, 2008



Ana se mistura com o sal
Água por todos os lados de ana
Ana ama o mar
O mar ama ana
Mar e ana
Mariana
Puro mar
Sem um porto seguro

26 junho, 2008


Anoitece na cidade dos impossíveis. A ponte presidente dutra é o retrato desses impossíveis: um caos. Cenário de blade runner com misturas hiper-realistas de um algum vanguardista europeu. Como disse, anoitece. A barca cruza devagar o velho chico. Indiferente a ponte. Indiferente aos replicantes que cruzam a pé, de barco, de moto, de bicicleta. Na primeira parada, fabinho diz: vamo vê o xamã! Instantes depois, já com a colômbia nas narinas e a loura gelada no coração seguimos viagem. E que viagem...

Acorda, levanta, resolve

Há uma guerra no nosso caminho

Nos confins do infinito

Nas veredas estreitas do universo

Vejo

As cinzas do tempo

O renascimento

As danças do fogo

Purificação, transporte

Escuto

O trovão que escapou

Lirinha se veste de louco. Parece um pouco com cada um dos que dançam esperando a chuva. Esperando a porrada certeira nos cornos. Luzes no palco. Escuridão. Um candeeiro, e o palco é uma tapera. Em cima da serra. Tem um pé de umbuzeiro na porta. Lá fora os lobos. Os lobos. Os bobos.

Antes do peito dos mouros Antes dos gritos da gente Antes até da saudade Que viajou além-mar Do banzo dos africanos Do toré no mato verde O fogo com seus estalos Fazia um som Já fazia um som Já fazia um som

Duas horas de catarse. De loucura. De gritar ao som dos tambores. De uma hora pra outra, acabou-se. Ruim sair assim. Como se o final não fosse aquele. Como se aqueles tambores nunca mais saíssem. Como se o som nunca mais parasse de explodir. De tocar. O xamã acende um candeeiro. Segura em sua mão de tremes e tremes. Canta. Recita. Eu bebo. Abro os braços. Louvo o santo louco dos loucos da terra dos impossíveis. Aí chove. E lava a mágoa de quem não queria que a noite acabasse. Mas ela sempre acaba. Como tudo. A noite sempre acaba... e chove...

Seu boiadeiro por aqui choveu

Seu boiadeiro por aqui choveu

Choveu que amarrotou

Foi tanta água que meu boi nadou

25 junho, 2008


bailarinas

não fazem amor

não

amanheçem

não

sabem rir

engolem devagar

com os olhos poentes

bailarinas somem

e não deixam pistas

ou notas musicais

de despedidas

18 junho, 2008

Má água


em minha mágoa
som stéreo
Má água
em minha mágoa
amálgama

Eu vomito febem com meus meninos de ouro e pólvora com sangue e gelatina. Assisto aos vídeos de nada e cuspo uma rebelião atrás da outra. Ligo o rádio e cuspo uma tristeza enganchada na outra. Faço pouco. Cuspo solidão. Corto com facão a realidade da idade irreal. Minha mão. Minha mãe... minha mãe regurgita passado. Aflita sempre. Ela quer uma solução pros seus pequenos problemas. Probleminhas pequeninos e insolúveis. Eu como interrogações. Cuspo frases feitas. Para quê? Pra disfarçar a porra da pobreza. Pra disfarçar a falta de um mapa. O celular indigesto é só um gesto em minha mão moto-contínua.

02 junho, 2008

é tudo free




Estou doando o meu pedaço de amazônia
Estou doando o meu sangue contaminado por dengue e dengo
Estou doando os meninos do meu bairro que pipam crack
Estou doando meu médico que consegue me examinar em 40 segundos
Estou doando a polícia armada até os dentes da minha cidade
Estou doando as leis burladas da minha constituição
Estou doando a maconha proibida e a alface transgênica liberada da monsanto
Estou doando a minha música que toca no rádio o dia inteiro
Estou doando o artista plástico que amarra um cachorro e o deixa morrer de fome e sede
Estou doando meus paletós e gravatas que enfeitam brasília
Estou doando minha alma a quem interessar possa
Estou doando minha pele com poucas tatuagens para servir de decoração pós moderna
Estou doando os meus adiamentos
Estou doando as minhas filas
Estou doando meus patrões todos, os do passado e os do presente
Estou doando minha sociologia burocrática
Estou doando meus adultérios
Estou doando minha maturidade
Estou doando minha afinidade com a loucura
Estou doando esse meu monólogo em ré menor
Estou doando minha alegria amancebada com a tristeza
Porque no meu país, os homens não crescem
Mas teimam em rebaixar o teto.

Estou doando, não pela minha boa índole. É que na verdade, eu fico muito puto quando um milionário vem aqui, compra, e eu não sou consultado. Então, para que problemas não hajam, de hoje em diante quem quiser – de minha parte – pode pegar.

29 maio, 2008


Devo lhe dizer que siga as placas. Devo lhe dizer que obedeça. Devo lhe dizer que na verdade eles estão certos. Então aprenda a ler. E lendo, aprenda a ser delicado. Coma direitinho. Use o guardanapo. Não fume em público. Não peide. Use perfume e pelo amor de deus, escove os dentes e reze antes de dormir. Devo lhe dizer que a placa diz o que alguém mandou. Não questione então. Não buzine na porta do hospital. Não compre a arma da vitrine. Não pegue na bunda exposta da menina. Você está entendendo né? Aprenda desde já onde é o seu lugar. Fique nele. Não saia do seu lugar. Não invada. Não entre. Não se meta. Não meta nada em ninguém. Rezou? Escovou os dentes? Olhou se o sinal está verde? Então prove que você é do bem e dê sua cadeira a velhinha. Ofereça o seu lugar na fila. Bebeu demais de novo? Você não tem jeito. E isso é regra. Então obedeça as regras. Coloque só duas gotinhas. Mastigue. Mastigue. Mastigue. Leia direito. Depois discuta. Se for minoria, concorde. Se for maioria, concorde. Mantenha-se calado. Desligue o celular. Diga que entendeu o livro. Diga que entendeu o filme. Diga que entendeu a porra da tela abstrata. Mantenha a barba meio sem fazer. Mantenha os cabelos meio desalinhados. Mantenha as roupas meio amarrotadas. Mantenha um sorriso meio meia boca. E por favor, siga as placas. Crie um gato. Um cachorro. Um periquito australiano do brasil. Escute rádio de manhã. Aprenda uma música dessas ditas populares. E veja bem: siga as placas. Ande devagar, mas tenha pressa. Fale baixo, mas grite um pouco. Diga que é gente. Pessoa. Ser. Alma. Inteligência. Parte do todo. Que vai pro céu. É mentira, mas qual o problema? Você até pode mentir. Desde que siga as placas.

28 maio, 2008


Entro na desordem. E não tenho idade. Ou tenho. Enfim, entro na desordem. A desordem tem uma enorme boca de cena. Cortinas vermelhas que levanto devagar. Sem medo, apenas pra manter um clima. Apenas pra ser o primeiro a ver o que se esconde atrás da cortina.

Tem um deus morto dentro do elevador. Penso se devo olhar de perto. Penso se devo enfiar meus dedos nos orifícios da balas. Foram balas? Penso se devo lamber as feridas abertas pela faca. Foi uma faca? Penso se devo procurar um bilhete de suicídio. Será que foi suicídio?

Um demônio chora sentado em uma mesa lotada de garrafas vazias de cerveja. Debaixo de sua cauda vermelha brilhante um livro de aforismos de Oscar Wilde. Sento em sua mesa. Mantenho uma distancia segura. Pergunto se posso cantarolar alguma coisa. Ele sacode a mão, entediado. Desafino Lupiscínio Rodrigues. Ele me pede um cigarro, pergunta se posso deixar uma paga antes de sair.

Uma senhora passa nua da cintura para cima, empunhando uma bandeira azul cheia de estrelas. Para no centro do palco, sacode as próteses e diz solenemente: - “de agora em diante, está permitido falar besteira”. Um pequeno porco a segue de perto, farejando seus calcanhares.

Um copo vazio corta o espaço e se espatifa em algo além da minha vista. Vejo o barulho mais do que ouço o barulho. Sempre foi assim. Desde pequeno. Vejo o barulho das lagartixas. Vejo o barulho das roupas sendo atiradas pelo chão quando ela passa. Vejo a porta se batendo. Dizendo: - fôda-se meu rei! Fui!!!

A música sai das paredes. Fala de um garoto que amava os beatles e os stones. Fala do vietnã. Vietnã? A folha do notícias populares pingando sangue ri. Vietnã... os garotos não sabem dos stones. Os garotos não tem a menor idéia de quem são os caras de liverpoool. Fritam seus miolos com dendê e armam um pequeno vietnã em cada apartamento.

25 maio, 2008


A banca do velho Epifânio ficava embaixo de um pé de goiaba. Todos os dias – a não ser quando chovia – o velho Epifânio chegava, armava sua cadeira, colocava fumo no cachimbo, ligava o rádio baixinho, e ficava esperando seus clientes. Na maioria das vezes, velhas senhoras. Mas vinham também garotos drogados, prostitutas, e toda a fauna suburbana. Epifânio tinha um método engraçado de começar seu trabalho: pedia fotos antigas da pessoa, e pedia para a pessoa falar de si mesma durante meia hora. No outro dia, Epifãnio trazia um passado inteiro para o cliente. Assim, mendigos ganhavam um passado de riqueza e devassidão; garotos drogados amanheciam com a certeza de terem vindo de outros países e abandonados por seus pais desnaturados, etc.
Epifânio sempre soube que ninguém gosta de verdade da verdade. O que o sujeito quer, é um morto bonzinho, em seu passado para lembrar.

Josué era obcecado por despertadores. Tinha cinqüenta e nove. Todos iguais. Ele colocava-os para despertar em horários diferentes, e enlouquecia seus vizinhos. Aos domingos ele desligava todos os despertadores, descia os dois lances de escada, sentava ao lado da barraca do velho Epifânio e tocava ininterruptamente durante uma hora e meia. Seu sax era, para os vizinhos, um anúncio do domingo. Aliás, quando ele faltava, era comum as pessoas se perguntarem: - que dia é hoje?! – Josué, depois do seu show para ninguém, pegava uma laranja e a descascava pacientemente. Depois de chupada a laranja, começava a falar sozinho, primeiro baixinho, depois aos berros. – O que eu quero saber, de verdade é qual a função das crianças? Até porque eles só funcionam quando adultos. Então, congelem as crianças agora! Porque as lâmpadas queimam? Quem projetou os cangurus? E as buzinas? Quem foi o filho da puta que inventou as buzinas? Ah! Quer saber? Vão a merda.

Dona Leonor odiava Josué. Ela telefonava do orelhão da esquina para sua filha e reclamava todos os dias do barulho dos despertadores e do som desafinado do sax. Ela andava pelo bairro com a cabeça toda enrolada por bob´s coloridos e uma velha máquina fotográfica Leika pendurada no pescoço. Ela olhava para as pessoas estranhas ao bairro e, estando a uma distância segura, começava a fotografar. Ela tinha uma teoria em que – segundo ela – metade da população local era formada por extraterrestres. Por isso ela fotografava tanto, na esperança de flagrá-los em algum momento de distração. Ela mesma revelava as fotos, em um pequeno laboratório caseiro. Depois de reveladas, ela levava as fotos para mostrar a seu Almeidinha – dono do frigorífico – e pedir a opinião dele. As pessoas do bairro morriam de rir de dona Leonor, mas seu Almeidinha gostava dela. E sempre que podia, apontava as pessoas que ele não gostava e vaticinava: - Leonor, aquele é marciano com certeza.

16 maio, 2008


Válvula de escape de dor e medo
Cheiro, fumo, bebo, saio
Sumo sem deixar notícia
Corto minhas próprias feridas

Válvula de escape de dor e medo
Escorrego pelo ralo, atiro antes do outro
Nunca dou as costas
Apago de borracha minha sombra

Válvula de escape de dor e medo
Trepo, como, mordo, arranho
Nunca chego perto, pra não deixar pegadas
Um muro de concreto no lugar do coração

Válvula... estrada sem placas
Válvula... guitarra estridente na noite fria
Válvula... cavalgo no centauro na viagem derradeira
Válvula de escape de dor e medo, medo, medo!

14 maio, 2008

começo de uma carta pra ninguém


Você tem medo das palavras? Eu sim. A palavra tem esse dom escroto de abrir portas, de subir muros, de fomentar revoluções... Aí você pensa: - esse cara é louco. Louco um caralho meu amigo! A verdade? A verdade meu amigo, é que a verdade é mutante. Então, mentirei. E você lerá verdades em minhas mentiras. E você rimará coisas que não quis como poemas. E você usará temperos por demais sutis em coisas que precisam de pimenta e pólvora. Você tem medo das palavras? Deveria ter meu amigo. Deveria ter...
Você sabe onde eu moro? Eu moro no passado meu camarada. Tem vantagens sim, tem vantagens. Por exemplo? Eu não pago condomínio. Posso escutar the mamas e the papas e temperar com iron maiden. Posso ler herman hesse ou thomas mann. Posso comer comidas simples ou exóticas e encarar tudo isso – sempre – como novidades.
Eu guardo retratos nas paredes. Você não? Eles falam. Dream´s over. Eu nem traduzo. Quando fecho a porta da minha casa passado o silêncio manda. O silêncio. A enormidade do silêncio no meio da mais escandalosa algazarra. Sei de alguma coisa: não sei de nada.
O garoto enrola o ioiô e passeia na cidade. Vejo da janela. As pessoas não riem nessa cidade futuro. Por isso moro no passado. Ainda tenho medos de bombas atômicas, mas consigo sorrir.
Fecho os olhos. Sonho o velho walt whitman comendo rosbifes e limpando a boca em poemas que ele nem lembra mais. Quem lembra? Lembrar pra quê? Eu lembro... e a lembrança mora colada a minha casa, também no passado. Vomitando o futuro.
Viu? Eles não fecham os olhos. Os peixes, claro. Mudos e observadores. Amo peixes. E odeio peixes. E sim, é verdade: eles não fecham os olhos. Pensei que era só eu que dormia de olhos abertos...
Viu? E os calendários? Servem pra quê? Pra riscar os dias. Diz minha filha. Pra saber que não dá mais tempo. Diz o cobrador de ônibus. Pra esquecer o aniversário de alguém, diz a minha mãe. Pra lembra que esquecer é a grande jogada. Eu digo.
Daí, que o que tenho a te dizer é que começo os dias, quando eles não me começam. E obedeço cegamente ao comando dos meus pés que andam. Livres? Penso. Movimento idéias como malabares. Depois enjôo. E termino o dia, antes que ele me termine.
Me perdi nas idéias, entendeu? Acho até que perco as coisas de propósito. Por vontade de andar mais leve. Na hora, fico puto. Por comodidade, provavelmente. Sei que não posso inventariar o que perdi. Pouco? Muito? Perdi mais do que achei. Por isso, se não amarrar os pés, me flagro voando poraí. Me perdendo de mim.
É isso. Moro no passado. Me recuso a pagar aluguel, ou até condomínio.
Viu? Até.

13 maio, 2008


Sim querida minha o tempo tem me dito da falta dele sim querida minha ele me diz sussurrando às vezes gritando de quando em vez que nunca me deu relógios que os relógios tem vontade própria e que tem bocas enormes e que comem gente diz que o relógio que comeu meu pai minha tia minha vó diz que vai me comer querida minha com ou sem meu consentimento pergunto coisas e ele ri com cara de mau com cara de bom com cara de nada digo amor e ele ri dizendo amor não existe digo juventude e ele gargalha e diz ilusão digo dor e ele me olha com olhos de cão sem dono fala que a dor é a primeira moradora do universo diz que tudo mais é desencanto sim querida minha ele senta em minha porta e diz que senta em todas diz pra não me preocupar com os cabelos brancos ou com qualquer outra coisa diz que o flamengo pode ganhar ou perder e não importa diz que tanto faz tomar um porre ou se entupi de remédios tudo tudo tudo tudo não passa de perda de tempo. Não perca tempo querida minha. Ou perca. Tanto faz.

02 maio, 2008

novo síndico do borba gato


O professor Antônio Natalino Dantas, 69, coordenador do curso de medicina da UFBA (Universidade Federal da Bahia), fez uma declaração considerada preconceituosa por muita gente, de autoridades governamentais a artistas, passando por professores e estudantes.Ele disse na terça-feira que o baiano é burro, que tem baixo QI (Quociente de Inteligência), e emendou:
O baiano toca berimbau porque só tem uma corda. Se tivesse mais [cordas], não conseguiria.Para o governador da Bahia, Jaques Wagner (PT), Dantas teve um “surto de imbecilidade”, conforme relato dos jornalistas José Eduardo Rondo e Renata Baptista, na Folha de hoje. Wagner nasceu no Rio.O músico baiano Tom Zé, 71, disse que não ia xingar o Dantas para que o professor não tivesse esse prazer.O Ministério Público Federal na Bahia abriu procedimento administrativo para apurar se as declarações de Dantas são discriminatórias.Dantas (foto) disse que o baiano tem baixo QI a propósito do desempenho dos estudantes da Universidade Federal da Bahia no Enade (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes) – eles ficaram entre os piores.Diante da reação ao que diz ter sido um desabafo, o professor negou ser racista. Mas não recuou de sua afirmação.Detalhe: Dantas é baiano.
EXAGEROS - Ok. O professor exagerou no que ele chama de desabafo. Mas há outro exagero que não pode ser perdido de vista: a vergonhosa avaliação dos estudantes da UFBA no Exame de Desempenho. Quem neste momento desce o pau no professor Dantas deveria poupar um pouco de suas energias para ajudar a melhorar a qualidade de ensino naquela universidade. Dantas confirma declaração

01 maio, 2008



Sizunite sempre foi um herói sem caráter. Vivia com fome. De tudo. Olhava como um vampiro as filas intermináveis dos cinemas. Queria comer bundas. Sanduíches. Samambaias coloridas. Um dia o encontrei iluminado. Perguntei o motivo. Respondeu categórico: - ontem jantei um pensamento. Fechando os olhos, olhando pra trás querendo entender o que vem pela frente. Sinais.

Sizunite me conta coisas que lhe acontecem diuturnamente: a ponta de um cigarro que, depois de arremessada cai caprichosamente em pé, gente que se encontra na esquina do imponderável, pingos da chuva que acham que ele é um “i”, caem todos em cima dele. Ele diz que sabe que alguém, em algum lugar, se interessa pelo que ele anda fazendo. Sinais. Sempre os milagres dos sinais.

A mãe de sizunite diz que ele nasceu com olhos cor de nojo. Verdes. Diz que ele já saiu de sua boceta assim: com olhos de tédio, com olhos de nojo, com olhos de quem sabe do tédio. Quando comeu a primeira namorada ele me disse, assim, atôa: como bocetas porque sou faminto. E buracos corporais são mais que perfeitos. Sinais. Diz que gosta de beijar bocas – de homens ou mulheres, tanto faz – com gosto de água de côco e uísque nacional. Sinais. Ele diz que só ama se tiver escândalo. Só acaba de amar se com isso proporcionar uma calamidade. Sinais.

- Sizunite, você volta?
- tenho medo de voltar. Por isso vou sempre. Empurro portas. Espero o trem passar, mas não olho pra trás. Penso. É medo, ou uma vontade filha da puta, que não compreendo, ou não me compreende?
- você é simplesmente um escroto.
- mas, escrevo sem borracha. Ou então, como a borracha. Na certeza de não ter que apagar. De pagar pra não apagar. Sinais. Entende? Sinais.

Sizunite diz que só amou aurora. A aurora boreal. Cheia de sinais.

Edith piaf cantarola nos ouvidos moucos de sizunite. Edith piaf decreta o fim do feriado. A dor lupeliana de gastrite viva e sem mordaça. Edith piaf ama sizunite. E lhe pede pelo amor de deus que não traduza suas canções pra virarem coisas. Sizunite disse, no bar, que matou edith piaf com sua arma mais moderna: um belo revólver de língua que dispara seis mentiras por minuto. Sinais. Sempre os malditos sinais.

Sizunite me escreve um bilhete de despedida, e joga na minha janela: “sôe falso, consuma-se em silêncio, gargareje galos ao anoitecer. Porque se você esperar até amanhã de manhã, eu jogo um sol na sua janela. Você é um cego. E os cegos? Não sabem das borboletas. Nem sonham arco-íris.” Sinais. Sinais.


25 abril, 2008


Eu não te disse mãe? Faz mais de dezoito dias que não tomo nada.
E, basta eu assistir televisão pra me dar uma puta vontade de rir.
Caralho, minha mãe quer que eu seja a única pessoa lúcida
nessa porra de mundo?

Eloá apareceu no Borba Gato no dia 28 de Dezembro. Alugou um apartamento no bloco B, abriu a janela e começou a chorar. Junior Boca estava ensaiando gaita no andar de baixo. Foi ele que contou. Vinte minutos exatos Eloá chorou na janela. Decorrido este tempo ela olhou o relógio, fechou a janela e tornou a abrir. Agora ria. Gargalhava. Junior Boca diz que imaginou: “puta que pariu” mais uma débil mental. Eloá riu durante vinte minutos. Repetiu o ritual. Fechou a janela. Quando reabriu já tinham umas dez pessoas olhando pra sua janela. Imaginavam o que ela faria durante os próximos vinte minutos. Ela olhou-os em silêncio, fez uma mesura e desapareceu.

22 abril, 2008


Urbanidade na feroz cidade. Ferocidade urbana na falta da tarde quente. Queria ver uma estrela agora de tarde, mas é foda. Estrela de tarde? Tem que estar muito doido. Madalena mandou a conta do bar. Disse que é a última vez que bebo fiado no bar dela. digo: o problema é a falta do mar. Se houvesse mar, eu bebia menos – ou não – daí, devia menos – ou não – daí, que madalena não vinha com essa cobrança. Preciso de beira de mar madalena. Preciso de uma estrela de tarde. Porque senão eu vou embora. E ir embora é rir. Rir embora. Se não der pra entender, não dê. A estrada é nova, ou não madalena? Lembra. Lombra. Um baseado aceso na feroz cidade. Ferocidade. Felicidade de não ter que explicar a opção sexual. Alguém realmente opta madalena? Eu tenho um medo do caralho de ir embora. Pra são luiz. Pra alto paraíso. Pra casa da porra. Lembro. A dor vem sem diasepan. E o sol não nasce no passado. Quem quer o brilho na tarde sabe: as estrela não aparecem antes da dalva. E a estrela é de dalva madalena. Entendeu? De dalva. D ´alva.

21 abril, 2008


Na manhã do terceiro dia na cadeia Diogo percebeu que não era sonho. As grades eram reais. As paredes rabiscadas com nomes de mulheres. Poemas falando de bocetas, paus, cús. Tudo real. Resolveu dar uma geral nele mesmo: pés descalços, um deles seriamente machucado. Pernas nuas. Um corte superficial na canela direita. Joelhos ralados. Coxas com manchas arroxeadas. Uma cueca azul. Tórax com várias escoriações. Braços inteiros. Mãos inchadas. Pulsos com marcas azuladas. Cabeça raspada. Olho direito parcialmente fechado. Olho direito aparentemente bom. Lábios cortados quase na totalidade. Dois dentes moles. Depois do balanço, as perguntas: porque tinha sido preso? Porque tinha apanhado tanto? Quem eram aquelas pessoas que estavam na cela? Onde era aquela cela? Em que merda de lugar do universo ele estava?
- Senhor Diogo Alvarado! (O policial não parecia estar de bom humor)
- Tem algum Diogo Alvarado aqui? (a impaciência do policial era quase visível)
- Sim senhor... (a subserviência, sempre a subserviência frente ao inusitado).
- Porque não respondeu logo seu filho da puta? (o poder, a vontade de poder).
- É que eu ainda estou meio zonzo senhor... Porque eu to aqui? O que eu fiz? (o medo, o medo, o medo...).
- Eu faço perguntas, entendeu? Eu faço perguntas e você responde de imediato entendeu seu corno? (o primeiro tapa estala no ouvido de Diogo), eu sempre faço perguntas e você sempre responde com a maior rapidez possível, entendeu seu filho de uma puta nojento? (o chute bate no saco de Diogo que cai aos pés do policial)
- Diog...
- Sim senhor ( a resposta imediata)
- Você está sendo acusado de...
- Fui eu! Com certeza fui eu ( a rapidez necessária)
- trouxe aqui estes papéis para você assinar a con...
- O senhor pode me passar à caneta? Por favor? Em três vias?
Diogo Alvarado passou onze anos preso. Deixou de se perguntar o que tinha feito, ou a quem. No dia que foi liberado saiu sem olhar para trás. Não sabe quem o batia. Não olhava pra cima. Não sabe que cidade é essa, simplesmente foi na rodoviária, comprou uma passagem e se mudou. Se tinha família, desistiu de tentar saber. Amigos, coisas, amantes... Não sabe. Quando o ônibus parou em uma cidadezinha serrana para abastecer ele desceu. Sentou na praça. Decidiu ficar. Ficou tanto tempo naquela praça que foi confundido com uma estátua. No dia que andou, assustou os passarinhos. Decidiu não mais andar. Petrificou-se. O prefeito mandou botar uma placa. Mas todo mundo só o conhece como a estátua que andou. No dia em que se auto-petrificou, Diogo riu. Mas igual à mona lisa, ninguém sabe do que ele riu. Talvez nem ele.

Samuel beckett me ligou ontem. Disse que estava em uma festa. Duvido, até porque ele não gosta mesmo de sair de casa. Engoli a estória. Ele me conta, gritando, que comeu lila brik antes de maiacóvski. Pergunto: o que isso muda samuel? Ele diz que eu não entendo nada. Eu digo: vladimir se suicidou no dia 14 de abril de 1930 porra! A boceta de lilá brik está solenemente enterrada em algum cemitério russo. Assim como a de polonskaia, e de todas as mulheres de vladimir. O pau dele tinha veneno. A poesia dele tinha veneno. Tem. Vá tomar no cú samuel. Você também está morto. Não saia da porra da sua tumba pra me contar delírios que nem são seus, são meus.

20 abril, 2008


Ovídio apareceu de noite. Disse na portaria que tinha reserva. É lógico que não tinha. O borba não faz reserva pra ninguém. Alugou o apartamento da viúva leonor. Pagou mais caro, porém descolou de grátis a mobília da defunta. Ovídio diz que é filósofo. E escuta metallica o dia inteiro. Diz que as tartarugas tem alma. Eu digo: asma? Ele responde: alma, ignorante! Acéfalo! Gosto de ovídio. Gosto de não compreendê-lo. Ele cozinha bem. Um único prato. Macarrão com rodelas de ovos cozidos e queijo ralado por cima. Do caralho. Quando não tenho grana sento na sua porta. Ele sabe. Ele sempre sabe. Mesmo sem olho mágico ele sabe quando tem alguém em sua porta. Ele diz: eu ou o macarrão? Sou sincero. Digo: o macarrão. Mas tem recital, ele diz. Tudo bem, eu digo. O que não tem um preço? Ele me diz que está pesquisando a vida sexual de eleanor rigby. Eu digo que ela é uma personagem. Não é real. E ele diz que sabe que ela é uma personagem. Quem não sabe é ela.

Coisa de se olhar devagar. Divagando. Sentindo pelo prazer de sentir. Então, cada minuto um presente. Presente só naquele minuto. Tomar banho de rio, no frio de uma tarde de calor. Por do sol. Dourada bola de cristal avermelhado em cima da ponte presidente Dutra. Depois olhar devagar. Divagando, subir a ladeira, parar no balcão do flamboyant. Cerveja gelada. Besteirazinha conversada. Besteirazinha de nada. Devagar. Beijo na boca sem culpa. Sem remorso lendo um livro. Hilda Hilst escrevendo com os ovários. Os seios. A pele absoluta em cada linha. Divagar. Assistir um filme moderno. Bem devagar. Devagar. Depois do cinema as luzes no rio. Ela passa. Me pega pela mão. Me leva pra lavar os pés. E depois me come

18 abril, 2008


Eu sei o tanto que sou bobo, babaca, sonhador
Até porque prefiro “eu mesmo” me nominar assim.
No meu país de sonho, as madrastas se fodem no final
E pais não jogam meninas risonhas pela janela.
No meu condomínio a síndica xinga
Recita poemas
E canta canções do arco da velha
No meu condomínio as balas são literárias
E pseudo artistas não amarram cachorros nas paredes – pra que eles morram de fome e sede. Quem é o animal aí?
No meu condomínio as pessoas estão presas em seus sonhos de látex
Maconha, adrenalina e sabor que se sente pelo nariz
Mas a mentira não acampa nos jardins calcinados da minha loucura
Eu sou só um grande menino, provavelmente mau, mas incapaz de machucar uma borboleta.
Estou triste
Porque a menina não abriu as asas e voou sobre os assassinos
Porque o circo não me agrada
Porque isso, de certa forma
Quase derruba as paredes do meu condomínio coração.
Penso em luisa, luana
Penso: onde porra a gente vai chegar?
Onde porra
A gente
vai
chegar?

08 abril, 2008


eu vou contar a história caso ela surja caso ela seja caso haja uma eu vou eu vou eu vou pra casa eu vou e quando chegar e não souber o que é casa arranco o C de casa e pego a asa o que faço com a asa é um problema é um dilema é uma letra de canção em que a canção supostamente pulou fora e quem pula fora pula por que quer quero quereres querida o que se pode escrever e as vezes nem dá vontade de parar e parar é ordem e ordem é chicote se abatendo no caos e caos é criação livre e absoluta abso luta luta tem sempre que haver alguma luta alguma puta alguma juta alguma multa eu vou contar os dedos caso tenha sobrado algum eu vou contar os olhos que não sabem bem o que significa o mar eu vou contar as línguas que não sabem do sabor estranho de cada parte do corpo de quem se quer bem naquele momento.

eu vou contar.

só esse momento.

07 abril, 2008


E então moça do sobrenome esquisito, eu resolvi dar nome aos bois. O primeiro, eu vou chamar de Eurípides, e todos os que vierem dele, serão os “filhos de Eurípides”. O segundo eu chamarei de dumará. Por quê? Realmente não sei. Bois, ao que eu sei, praticamente se autodenominam. São como semibreves em uma música. Ou pequenos pingos de vermelho em uma tela hiper realista de alguém sem nome lá pras bandas de muito longe. Então, moça do cabelo preto que nunca vi, resolvida a questão da nomenclatura bovina, vamos ao sentido exato. Lato. Ato. Saudade. É certo, nunca te vi e provavelmente não verei nessa encarnação. Logo, essa saudade deve ser a ausência de um ser, que sei, vem de um: planeta/asteróide/poeira cósmica similar ao meu. Você vê e faz história com a história que você conta. E vai contar. Contará? Eu canto histórias que conto enquanto a história me carrega pela mão como uma sacola de supermercado. Rala. Fininha. Vai rasgar exatamente na esquina. Olha lá, as laranjas rolando no asfalto. Agora não dá mais. Deixa rolar. Eu. Ateu. Atoa. Ativista de um sonho sem bandeira. Cadê a bandeira? Roubaram a bandeira na brincadeira de vinte anos atrás. Eu não sei quem roubou a bandeira moça do cabelo comprido. Eu te digo da saudade? Não digo. Eu te digo que dentro de mim tem uma festa. E meu coração, anfitrião onipresente se faz de mágico em todos os lugares. Escutando? Celso blues boy. Bebendo, amarulla talvez. Dependendo da hora um café amargo. Fumaça subindo pro nariz. Abrindo os olhos pro dia. Dizendo bom dia como quem determina: bom dia! Então bela moça do cabelo comprido, eu estou pegando aqui o meu espanador de penas de dromedário. Com ele vou espanando as minhas e as tuas dores – quando possível – e rindo o meu e o teu riso – quando necessário. Então eu digo? E precisa? Sobre o nome. Um nome. Nome. No no no no meu meu meu meu. Meunomeunome? Então moça. Tenha um bom dia. Aliás, tenha bons dias. E que o sol se ponha leve como um solo de sax chamando a noite. Falo de saudade? Falo não. Falo de gratidão. Bom conhecer pessoas que a gente nem conhece.

03 abril, 2008



tomada um - uma mulher atravessa a rua cantarolando uma canção do pato fu. em suas mãos, como um pingente, um livro do caio fernando abreu. seus pensamentos anunciam seus passos: que seja doce, que seja doce, que seja doce...
tomada dois: um cavalo verde, com cartola lilás enfeitada de penas azuis de pavão pilotado por três gnomos se materializa em sua frente. o cavalo deseja bom dia em dezoito idiomas. a mulher ri. faz carinho no cavalo. os gnomos lhe oferecem uma flor e sorriem. a mulher bate as asas, vôa até a árvore mais próxima, e põe-se a ler o livro. do seu lado, os heterônimos de fernando pessoa jogam dominó.

27 março, 2008

o sonho do menino é só um pesadelo de menino se bobear o menino é só o sonho


Quem é que sabe dos projetos feitos? O dado. Os dados. Seis lados de informações e dados. Onde o projeto de ser feliz? A sementeira de pedra. Sementes lançadas no vento caindo na sétima onda da senhora dona das águas barrentas. Sim. Eu quero sal. Sim. Penso na reza, a mão segurando a outra mão. Com força. Prendendo deus. Segurando um pedido. Que voe. Que voe. Que siga viagem até o primeiro degrau onde deus passeia com seu regador de plástico verde. Um amigo diz que deus só fala e entende hebraico. Deve ser. Deve ser não. Na dúvida traduzo a prece. Mando em bilhete. No pé do santo da igreja matriz. Saio com raiva da humanidade. Gente demais na igreja. Como ele vai ter tempo de atender todo mundo? Gente demais. Tantas igrejas... Porque eles não escolhem outra? Se não atender o meu, vai ser por falta de tempo. Ou vontade. Será que deus tem vontade? Ou é minha a vontade de que agnóstico sendo ele me prove o contrário? Quero um sinal. Quero um milhão de dólares. Quero viver duzentos anos. Comendo o pastel com caldo de cana escuto o rádio: “entender a dor”, é preciso. Entender a dor? Entender a dor... A dor se sente. A dor se supera. Até se transformar na ausência da dor. Que é uma dor mais sutil, mas não menos escrota, não menos letal. O menino que ri do meu passado ri na beira do rio raso. Amigos míopes brincando de já ser gente grande. Olhando o asfalto como novidade, e odiando os intrusos. Nada de poesia. Viver era a regra. Barrigas abertas de sapos tristes. Assassinos meninos no colégio dos padres. Ninguém tinha morrido ainda, até que ciço neguinho inaugurou a escada pro nada. Nada pra temer. O submarino amarelo tocava rock. A mulher bonita ensinava a trepar. E gostar, era coisa muito. Muito simples. Aprendi a crer que crer não era a crença certa. Era ato. E sabendo que a pirâmide de cristal nada era, nada é, nada será, abri os olhos. Envelheci.

25 março, 2008

eladisseeudisseeladisseeudisse


- Então ela me escreveu uma carta com índice... pensei: onde porra a gente vai parar?! Cartas com índice. Códices. Versículos sem versos. Sículos. Séculos de nada emprenhados em meus gametas de cor nenhuma. Amálgama de nada. Supra sumo da raça, espécie homo. Sapiens? Cartas com índice? Eu mandei ela ler sartre.
- eternizar ela disse. Essa noite, segundo ela, ela faria algo diferente. Pelo desejo absoluto do novo. Pela sensação certeira do ineditismo. Podia ser feio, belo, terrível ou bom. Não importa. Segundo ela não importa de verdade. Ela ligou de um telefone público, disse que dançaria com um vampiro, nua, uma valsa ao luar. Mandei ela apagar o baseado. Ligar o rádio no programa de meteorologia. Mas no fundo sabia: ela dançaria nua. Com ou sem valsa. Com ou sem vampiro.
- falei pra ela que a noite era pra um crime perfeito. Um crime bárbaro. Um porre homérico. Helênico. Estratosférico. Falei pra ela que nessa noite, especificamente, até seria bom salvar alguém de um afogamento. O que eu gritei pra ela, é que numa noite escrota dessas, todas as canções são de amor.
- ela me falou que as dez e meia ela sabotará os planos do presidente. Ela disse que impreterivelmente fará um poema antes da meia noite. Perguntei porque não amanhã? Ela disse não. Só essa noite. Pelo gosto do raro. Pelo cheiro moribundo do eterno.
- me conta que faço performances. Que não amo porra nenhuma. Que aliás, nem sei o que significa a escrotidão do amor. Me chama de velho. E ela quer o novo. O novo. Ovo. Ovo.ovo. falei pra ela que to precisando de uma cerveja gelada. Ouvir uma música bem antiga do djavam. Ela me diz que foda-se as músicas do djavam. Ela quer o djavam na cama dela.
- reclamei. Disse que faltava uma hora e trinta pro dia acabar. Disse que queria dormir. Que tinha fumado o último. Ela me falou que depois de ficar triste é bom reler cartas e ouvir milles davis. Para celebrar. Me conta com uma voz de operadora de telemarketing que os últimos minutos do dia são bons para recolher o pensamento que anda solto...
- as meias noites são sempre absolutamente perigosas. Quando recolho os pensamentos, agarrado a uma boa leitura ou a uns quatro travesseiros, uma sensação gostosa me conforta. E o maior conforto é a vida que parece breve, mas que passa devagar e sempre. Te atravessando como uma adaga cega as vezes. Afiada. Afiada. Afiada. Afiado. Afinado. Como um violão sem aura.
- deixar rolar é hiperbólico. É uma designação de conformismo? Alegria? É só um jogo matrix de dizer coisas. De escrever coisas. De deixar um rastro sutil, para os que se aventurarem.

24 março, 2008

acordadormindo

Hoje acordei com a sensação esquisita de que esse dia é ontem. Sei da impossibilidade. Mesmo parecendo, não estou louco. Fico na porta esperando a empregada que demora o mais que pode. Sabia. Ela vai dizer que o filho dela tá doente. Ela diz. Procuro o café, não fiz o café. Não tem café. Dois cigarros caídos no chão. Um sinal? Uma pista? Um ideograma chinês de I Ching sem referências bibliográficas. Ela chega. O filho dela que não está doente. Ela diz: doente, filho, sei sei sei sei sei. Subo na moto e o vento é o mesmo vento de ontem. moto-contínuo. Hoje? Ontem que era hoje? Que era ontem? Que foi? Foi foi foi foi. Nas histórias basta se beliscar. Não. Não vou me beliscar. Não vou beliscar nada. Acordo do transe transido de medo sem saber. Acordo e leio na conta de energia o meu nome. De ontem. Da semana passada. Do vinho morno e bom. Da ressaca dolorida e faminta. Faz sol. Falta sol. Falta chuva na chuva que cai aos borbotões. Uma lagartixa ignora o aguaceiro e arrisca uma cabeça balançante no tronco da mangueira. Seis peixes em silêncio no aquário. De ontem. Do mês passado. Do ano que vem. Eu vi a marca do corpo no outro lado da cama. Quem dormiu? Quem trepou? Quem saiu antes? Porque? Talvez a falta de grana. Talvez a falta de tato. Talvez a falta de tezão. O cheiro. Teve sexo. Teve putaria. Um livro de pernas abertas. Página duzentos e vinte e um. Quem leu durante. Eu? Ela? Ontem? Semana passada? Dois anos depois? Um filme na televisão. Hommer simpsom come a primeira dama dos estados unidos. No jornal bombas caseiras jogadas em cassinos de atlantic city. Na memória galos de briga em quintais cheios de minhoca de santana do cariri. Ontem. Mil novecentos e setenta. Sem dúvida estou dormindo. Com dúvida. Um cheiro acre de cebola. Vômito. Uma mulher que nunca vi se entranhando nas minhas memórias cheias de falhas. Alho. Alho. Caralho.

No olho do cachorro
O mesmo olho malvado de deus
O bar, caindo aos pedaços
Bêbados, náufragos...
Reis e plebeus

Sempre os quatro coringas
Nas mãos de quem
Tem mais poder
Trepadas envenenadas, é quase nada
...vão todos morrer

Correndo sempre, procurando
Qualquer porta de saída
Bêbado sempre
Morrendo de viver demais

No olho do cachorro
O labirinto do bem e do mal
A cidade apodrecendo
Cerveja e sangue
No carnaval

Sempre as quatro faces
Nas quatro facas
Que nos cortam as mãos
Na hora de dar o trôco?
Um gole de merda, um palavrão

17 março, 2008

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me chamo? porra, eu não me chamo. eu chamo os outros. e eles não atendem. não entendem. mandam se foder a primeira rusga, a primeira ruga. detesto pregos, prefiro comer almôndegas enquanto alguém fala cuspindo a minha cara em busca de uma solução para os seus probleminhas indecifráveis. é verdade, eu não tenho mapas. é verdade, eu não sei a rota. é verdade, deus se mudou do meu condomínio na terça feira passada. pedi a ele vida interna. e que enfiasse a vida eterna no cú lá dele. quero saber do gosto das pessoas. quero saber de que lado da cidade o vento traz a inspiração da canção derradeira. quero sentir o cheiro de erva sendo queimada em louvação ao santo pagão da hora. me chamo legião. urbano. artrópode. tenho um medo novo pra cada dia do ano. e uma velha e caquética coragem, de discurso inflamável e cabelos brancos rebeldes. stono-me. penso nos pentelhos sacrosantos de virginia wolf. penso nos milhões de pequenos buracos em meu discurso. me chamo. chamo. chamo. em chamas amo. e não sei o que significa esse amor. nem o que merda faça com ele.

04 março, 2008

O PASSADO É UMA ROUPA QUE NÃO SE VESTE MAIS


Estive lá
E lá é bem diferente do que foi
O riso não desce mais tão espontâneo
E a pressa
É inimiga do contato
Do encontro, do esbarrão.
Me percebi entrando na festa
Sem ser convidado
Ou, entrando em outra festa, esta sim
Feita por novos personagens
O rock é bom assim como o blues
A farinha desconcentra
Mas o resto da semana em silêncio absoluto
Diz o óbvio em eco:
“o passado é uma roupa que não se veste mais”
Ou como diz o sábio mestre:
- bom é o que está sendo feito agora!