26 março, 2010


O almoço é de pastel e coca
O arroto tira o gosto
O cigarro completa
o tanque
E a barata kafkiana passeia
por trás
Do garçom mal encarado

15 março, 2010


Os homens se soltam.
Tristes em seus discursos de fim
de noite.
Só mais uma.
Os homens se amarram, se prendem,
tristes, as suas camisas suadas de um
time de futebol que decepcionou
no domingo.
Os homens se largam, tristes,
em cadeiras torturantes de dentista.
Os homens tristes,
brigam com outros homens tristes,
pela consumação da última piada.
Depois, os que sobram,
tristes,
pedem uma pizza,
envelhecem,
desmoronam.

04 março, 2010


Sobre o tempo

Então chegou o senhor fulano,
trazendo em sua mão ossuda e
tatuada,
uma velha ampulheta quebrada.
Com uma voz que esqueci
(porque nem ouvi)
Me disse que eu estava jurado de morte
Me disse que a minha sorte
É que a vida anda muito
ocupada

27 fevereiro, 2010


Há em você, um profundo apego pelos contrastes
Os opostos, vão sempre lhe causar fascínio
A volubilidade lhe domina, confesse
A coerência é uma bolacha com gosto de ontem!
O silencio lhe acalma, mas é seu grito a necessidade primeira
A verdade faz sua cabeça, mas a mentira brinca no seu palco,
E é perfeita!
Sua distração é marca, totem, mas sua esperteza brilha
Estrela de primeira grandeza em um céu escolhido na véspera
Quando tranqüila, um desastre! Mas mãos divinas quando quer fazer
Certo sempre! Mas o errado é um amigo bacana, quê que tem falar com ele?
Que o mundo esteja certo, mas suas dúvidas te estimulam
E você diz: “penso antes de agir”
Mas a impulsividade é teu verbo conjugado em primeira pessoa
Reta? Pode até ser. Mas o caminho torto tem seus encantos
Discreta, por natureza.
Mas irreverente até o tutano.
A pobreza dos filhos da puta que não sabiam qualé? Te comove
Mas o dinheiro te excita: é uma montanha! Uma praia! Um sonho em tecnicolor!
A bondade, esta em você, mas ser má (de vez em quando)
Te faz muito bem, eu sei
Chora? Talvez. Mas é alegria que te move.
Responsável? Sempre! Mas sempre pronta a mandar tudo pro inferno
Romântica? Sim, num filme bacana, num beijo bacana,
Mas a razão é teu deus mais que perfeito
É um poço de pureza, e tem o pecado como o doce na prateleira, bom de pegar
Você é, exatamente
O que você não é
exatamente

O coração é um móvel estranho que
não cabe na sala
Que se esconde
no peito
Que não posso pegar
na minha mão
Nem polir com uma
flanela amarela
Mas é ele quem dita meu
poema
E que manda minha mão
escrever
Minha derradeira carta
De amor

24 fevereiro, 2010


E nem vem dizer
Que o tempo é fechadura sem chave
Porque chove
E quando chove tudo fica triste, ou então
alegre.
E quando alegre, tudo o mais vira traste, porque chove, porque molha
E quando molha é sempre mais difícil
engolir
Um discurso fleuma, flácido, porque triste
E nem vem dizer
Que o imortal amor morre de parto
Porque parto
E quando parto, ou partem, fica tudo em pedacinhos
Como docinhos, azedinhos, porque amores, porque partidos
E quando partidos, tudo fica indivisível, porque chove
E a chave
Perdeu-se entre os trastes, das fechaduras tristes
de vez em quando acerto numa foto
e fica umas paradas bacanas.
estando afim, dá uma olhada:

http://www.fotosdelupeu.blogspot.com/

23 fevereiro, 2010


O barco é um rio feito
de madeira
De madeira também o homem que joga
a rede
Rede de água feita de nylon
É tudo água
O barco é uma ave pousada
numa arvore corrente
As correntes que prendem o
barqueiro a terra
São feitas de terra
É tudo terra

04 janeiro, 2010


Esqueço o calendário.
Depressa.
Certeza de procurar uma resposta,
Qualquer uma.
Nada a ver com essa dor no peito.
Nada a ver com a constatação absoluta e intrínseca
dos meus defeitos com cheiro
de camomila e vinho.
Procuro o vidro com as anfetaminas.
Vontade de ir assim sem sim.
De verdade? não conheço o cara da minha identidade.
E você foge com seus delírios mal vestidos.
Com seus vestidos cor de nada.
Com suas flores de plástico
de garrafas pet.
Nada a ver com essa ânsia.
Nada ver com a discordância das notas
desse piano.
De onde veio a merda desse piano?
eu mastigo os seios dos meus medos.
Talvez assim, porque
Eu detesto olhar pra trás.

30 dezembro, 2009


Errado é quem diz
Que ando errando
Que fiz errado
Que o erro foi estar do lado
Quando o certo sempre foi o outro lado
...
Então é coisa de se dizer
Se é a coisa certa
Olhar o lado que aperta
A mão na mão na hora certa
...
É verdade sim meu bem
O tempo voa
É por isso sim meu bem
Que eu ando atôa
Pra ver se vou, pra ver se voa
Assim, enfim:
Na boa.

23 dezembro, 2009


Tudo bem então:
Eu invento o vento.
Só não me peça pra dizer
que eu gostei do filme.
Só não me peça pra dizer
que entendi a peça.
Só não me peça pra dizer
que existe tempo ainda.
Só não me peça pra
emprestar meu ombro magro
pra esse choro de última hora.
Só não me peça pra dizer
que estava lá na hora.
Só não me peça pra jurar
esse amor, que nem sei se cheira
que nem sei as horas
que não sei o nome.
Tudo bem então:
Desinvente o vento.

17 dezembro, 2009


Eu me despeço a cada dia.
E você entende pouco disso, de
se despedir.
Daí que, talvez por isso, eu
tenha menos pressa.
Eu não peço pra que nada ou
ninguém volte pra mim.
Você acha isso bobo,
sem referência.
Daí que, por não saber se
cada olhar não será o último,
só vejo o filme até aparecer
o the end.

15 dezembro, 2009


Aí que quero um oriente. Aí que quero uma montanha com cheiro. Aí que quero um luar de outubro. E um mosquito pousa com delicadeza na página do livro de poesia que leio. Aí que quero um sim insistente. Aí que quero uma fotografia de um fusca em minha parede. Aí que quero uma mulher que caminhe descalça em câmera lenta. E uma vendedora de perfumes aperta com força a campainha da porta da casa que habita em mim. Aí que quero uma mão me acenando na rodoviária. Aí que quero um rio pequeno e limpo surgindo do nada, bem ali, na próxima curva. Aí que quero uma chuva rala, perto do meio dia. O telefone toca. Não vou atender.

14 dezembro, 2009


(minha filha luisa, e sua primeira guitarra)


O violão tem o dom do encanto.
A guitarra, do espanto.
Vou estar sempre entre o encanto
e o espanto.

05 dezembro, 2009




a barca leva e traz
quem quer ser levado e trazido
a barca só não leva o tempo
só não traz o vento

mais no blog:
http://fotosdelupeu.blogspot.com/2009/12/barca-leva-e-traz-quem-quer-ser-levado.html

03 dezembro, 2009


Toque

(para pachelly jamacaru)

Toc, toc
Onomatopéia de batida na porta
Toc,
Transtorno obsessivo compulsivo
Toque
Uma música que fale de amor eterno
toque
pra saber se o filho demora a chegar
toque
com a ponta dos dedos o bico do peito
toque-se
no prazer solitário de se conhecer
toque
pra saber se frio ou quente
toque
pra saber se bicho ou gente
simplesmente
toque

13 novembro, 2009


Meu olho me incomoda. Penso na bíblia sem serventia na sala: “se teu olho etcétera e tal, arranca-o e joga-o na fogueira”. Os caras não eram de brincadeira não. Olho jornais antigos. Gosto de noticias frias. Uma amiga minha fala que amou São Paulo as escuras. Imaginou que fosse o fim do mundo, mas não tinha trilha sonora competente, e ela sacou que era só mais um desastrezinho. Um cara escreveu no jornal “meu deus, eu não vi o rio de janeiro”. Me deu vontade de responder que também não. Fiquei com receio que ele entendesse que eu o estava apoiando, que aquilo era um tipo de oração e tal, não repliquei. Passo em revista as revistas, e meu amigo Gustavo me conta que a uniban não aceita meninas de vestidinho. Se teu olho te envergonha... me cago de medo desse povo que volta e meia proíbe alguma coisa. Mirisola diz que Jesus só anda mal acompanhado. Porra mirisola, você me assusta com sua lucidez. Daí penso que lucidez também pode ser passível de proibição. Assim como também não concordar. – “você nãoconcorda? Seu filho da puta! Vou cortar fora seus testículos para que você não estupre mais ninguém!” ui. Ui. Ui. Se meu olho me incomoda... o pastor quer cortar fora pedaços das pessoas: comeu? Corta o pau. Jogou bola ruim? Corta o pé. Roubou do povo? Recebe um milhão de votos e vai eleito. Minha poesia pede pra passear lá fora, peço pra ela fazer silêncio, que pode ser que apaguem as luzes, que pode ser que eles venham com seus cassetetes pra bater a granel, que pode ser que os picolés derretam, que pode ser que William bonner seja expulso por andar de minissaia expondo a bunda branca de vergonha do jornal nacional.

12 novembro, 2009


Nada a ver com essa dor no peito. Nada a ver com a constatação absoluta e intrínseca dos meus defeitos com cheiro de cocaína e vinho tinto. Procuro o vidro com as anfetaminas coloridas. Vontade de ir assim sem sim. Vontade de ir sem dormir. De verdade, não conheço mais o cara que aparece na minha identidade. Te falo isso por telefone e você foge com seus delírios mal vestidos. Com seus vestidos cor de nada. Com suas flores de plástico recicladas de garrafas pet. Nada a ver com essa ânsia. Nada a ver com a discordância das notas desse piano. De onde veio a merda desse piano? eu mastigo os seios dos meus medos. Depois os regurgito. Pro meu deleite de fim de noite. No silencio entre uma apitada e outra de um guarda que nada aguarda da vida. Que nem eu.

09 novembro, 2009

pra quem quiser ver
o que eu vejo


http://fotosdelupeu.blogspot.com

Você me enquadra no quadrado
Do teu olho cinéfilo
Pede uma história que se roteirize
Um melodrama sem remake
Procuro meu cigarro, penso,
Te digo que
Eu posso te contar de mim.
Eu posso te contar de quando fiquei sentado
durante duas horas na porta de um cinema
e a dama do meu melodrama não foi,
depois, como se fosse preciso um pedido
ralo de desculpas, disse que tinha ficado
ocupada com o vibrador, que ela chama delicadamente
de Patrick Swayze
Eu posso te contar de quando corri como um louco
pra ver se acompanhava o sorriso do meu melodrama
pelo vidro traseiro de um táxi que
a levou embora.
Ela ria pelo vidro. Vidrodrama.
Eu posso te dizer de quando enfiei a mão no bolso
na esperança de encontrar alguma coisa
que mudasse o rumo do meu melodrama.
Retirei a mão limpa.
E o meu melodrama riu,
Disse que eu ficasse tranqüilo,
Me disse que rumo é lenda, que a vida é isso: melodrama.
Eu posso te contar que um dia
Quis encarar uma briga pra defender o meu melodrama
tomei tantas porradas na cabeça
que desmaiei,
não sei se meu melodrama soube
me disse que entende pouco isso, de dramas
Eu posso te contar algumas histórias
que ouvi sentado ao pé de uma fogueira
em cima de uma serra linda e velha
meu melodrama não foi, disse que eu fotografasse
ela via depois, se desse tempo.
Eu posso te contar de quando aprendi a cantar
uma canção inteira
dos Beatles.
Meu melodrama disse, com uma risada
Assim, meio cinema novo
Que achava os Beatles uma comédia.