28 fevereiro, 2009


O cavalo do tempo não dá muito espaço pra minha bunda magra em sua sela. E encontro o que não procuro em meio aos olhos dos que me vigiam. Alado. O homem vomita venenos em suas frases cheias de ciência e sabedoria. E nasço. E engulo a maçã que não me mostra a merda da gravidade.

26 fevereiro, 2009


não é tempo o que me sobra
é emputecimento.
daí que agora eu resolvi desafinar um pouco no coral
e pelo menos da minha parte, o côro vai comê.

evoé cidadezinha filha da puta onde como, bebo & durmo

http://cidadedemerda.blogspot.com/

Não existe sentido. Então, procurar é perda de tempo. Sair é cheirar o cheiro de outro asfalto. Olhar outras fotos. Sonhar com outra lua em cima da serra. Uma europa no papo brabo do vizinho de mesa. Não consigo aprender outra língua. Não consigo nem falar direito a minha. As fábulas... o indigente geme na porta corrediça da super mega loja de eletrodomésticos. Pede silêncio. Diz que quer morrer. A polícia chega. Agora ele consegue.

25 fevereiro, 2009


Na televisão um sábio senhor fala da vida dele. Fala que gosta de champagne. Que gosta de ler os romancistas alemães. Que o cinema iraniano tem charme. Que não gosta de acordar antes das dez da manhã. Que carros japoneses não tem design como os americanos. Que as roupas legais de usar são as italianas. Que acha um exagero as notícias de violência. Procuro as letras embaixo do vídeo. A tradução. Não há letras. Ele fala minha língua. Mas, sinceramente, eu não sei de que porra de país ele ta falando.

22 fevereiro, 2009


Os sinos não tocam no lugar onde se espera que toquem. Ódio guardado em caixas de vidro translúcidos. Morte indolor é a meta. A cidadela apodrecendo desde o alicerce. A família aprisionada em frente a uma tela de dezessete polegadas. Postais do camboja onde um menino se finge de morto e rói os cotovelos como se fome fosse. Na casa da esquina um copeiro de roupa estranha. No meio da rua a lama da última chuva. Até os não sofisticados suicidam-se aos poucos com pílulas de felicidade temporã. Deus, em sua suprema bondade, deve estar fazendo alguns ajustes no tal do paraíso.

21 fevereiro, 2009


Ela passa esmalte em seus dedos dos pés. É uma imagem bem bonita. Ela não sabe que estou olhando. Passo. Chuto o esmalte. Ela me olha querendo me matar. Faço de conta que foi acidente. Abro a cerveja. Digo entre dentes: - foda-se! E devoro os minutos com ânsia.

18 fevereiro, 2009


Doroteu não aperta campainhas. Diz que não gosta. Diz que tem medo. Que alguém pode ter deixado um fio descascado de propósito. Diz que não lê um livro se encontrar com ele aberto. Diz que não bebe água se o copo encher sem que ele veja. Diz que não ri se não escutar a história inteira. Diz que o teto é frágil. Que a escada não dá em um corredor. Diz que não tem plano de vôo. Diz que conhece uma velha, mas nem sabe direito se ela ta viva. Diz que não sabe se vem. Diz que não escuta rádio. Diz que um dia fizeram uma sangria no seu peito. E que o sangue caindo, matou ele pelo meio. Que nunca mais olhou em um espelho depois disso. Não acredita que ela venha, não acredita que exista essa palavra revelia. Que come um desejo. Que o desejo é uma palavra boa de dizer, mesmo sozinho. Não acredita no relógio. Não sabe se o sol é de verdade. Doroteu diz que detesta documentos. Que não sabe de verdade se nasceu as quatro da tarde. Diz que não sabe se vem. Se ela vem. Diz que não passa recibo. Nem a pau.

13 fevereiro, 2009


O que não muda? Meu pau indo e vindo dentro da boceta dela. Dentro de qualquer ela. Penso: pensar em futuro é utopia. O mundo até pode estar acabando. Mas continuo achando um grande barato regar minhas plantas, olhar meu beija flor passear no quintal. Sei não do ano que vem. Sei não da semana que vem. Sei não de amanhã. Sei da cerveja gelada que molha minha boca enquanto sonho. Sei do som da guitarra que toca só no meu ouvido da memória. Sei do riso da mulher que amo, que amei um dia, que amarei um dia, ou não. Sei que saberei do gosto do seu gozo em minha boca. Quando acordo sou o cara que olha, e se olhar direito, vejo. Ou não. ou nunca verei, ou quem sabe – só quem sabe - sou um colecionador de detalhes que mudam. Não mudando.

12 fevereiro, 2009


Plantei um pé de rosa e
vi uma esperança sentada nele.
Coisa feia o tal do bicho.
Esperança.
Fico imaginando.
Se tivesse um revólver,
dava um tiro nessa porra de esperança.
Na boa? Sei que atoa...
A esperança não morre assim:
façim

11 fevereiro, 2009


Pego a felicidade pelas orelhas e grito meia dúzia de meias verdades pra ela. Falo pra ela de disciplina e ela me vomita anfetaminas coloridas. Falo pra ela de violência e ela ri com seus dentes de flores de plástico. Mostro pra ela um capítulo de novela e ela me mostra propaganda de vibradores néon. Chuto sua canela e digo que ela não existe. Ela me mostra fotografias de risos banguelas no sudão. Digo que não acredito. Ela passa a mão no meu pau, me chama de burro, diz que se eu não fosse tão ranzinza, me pagaria um boquete. Vejo ela pegando o ônibus, tomara que um terrorista católico jogue uma bíblia bomba cheio de salmos nojentos dentro do ônibus.

10 fevereiro, 2009


Som pra fazer distúrbio. Grito assim. Falando alto assim. O rio marrom e triste. Medo de molhar os pés. A imagem do espelho não diz que possa estar e ser feliz. Cadê maria? Escondida na pensão, chorando, sem fazer direito o que tinha feito. Procura uma faca. Um comprimido. Acha o controle remoto. Muda o canal. Muda de vida.

Há um vazio dentro dessa coisa
que chamo dentro.
Encho de coisas que chamo
coisas.
Depois retiro,
as coisas.
Pra caber mais coisas.
Não determino isso de coração.
Não sei de que lado habito
com meus pensamentos e
me enforco com
minha boca nervosa.

09 fevereiro, 2009


Olho a nuvem chegando com o vento. Trazendo coisa que nem sei o que. Chove o quê hoje? Zeferino boca mole pegou um quarto de um ácido e foi tomar banho. A água caindo e ele imaginando: - essa bosta dá nada. Pedaço de papel sem gosto e sem barato. Na dúvida comeu outro pedaço. O bolo fermentou na cabeça. Velas coloridas. Parabéns pra você um caralho. Uma flauta transversal vomitando duzentas e trinta sons por segundo. Trem do futuro seguindo viagem na estação do passado.

08 fevereiro, 2009


O vale do nada tem isso: um nada cheio de abutres. Divinéia bebia goles de uma bebida esverdeada e me contava do vale do nada. Perguntei dos abutres. Ela me dise que não importavam. Eram só abutres. Me contou que um dia, ela não lembra que dia, entrou em um ônibus e foi pra uma cidade no sopé de uma serra esverdeada. Me contou que percebeu as mãos. Dela. Das pessoas. Que passava horas intermináveis olhando suas mãos. Me disse, assim como quem diz nada, que quando o artesão joão fez a primeira fêmea, ele começou pelas mãos. Disse a ela que seria uma escultura impraticável. Ela disse que impraticável era bater uma punheta com os cílios.

07 fevereiro, 2009


Não quero saber seu nome. Não quero saber de que lado da cidade você se esconde com tuas culpas pequeninas. Daqui te vigio voyeur. E isso não me traz culpa ou prazer. Você finge que nem sabe; mas olha pros meus cabelos com olhos de tesoura e ri, mastigando seu chiclete de sabor nenhum. Você nem é tão esperta, mas não vou te dar o mapa do campo minado. Rio também com dentes de granito e sinais da intempérie temporal: cáries e nicotina. Como? Não! Eu não te amo como me amo. Como já te disse, você não é tão esperta.

31 janeiro, 2009


Eu sempre bebo a dose de veneno que mata.
E não morro.
Eu sempre conto o fatal antes da notícia.
E ela sempre me desmente.
Quando chove derrubo prédios.
Quando seca mato vacas e gente.
Se acender um fósforo conto de bombas.
Mas solto os cadarços.
Mas sei dos sinais do semáforo.
E não adivinho.
Hesito olhando a faca da manteiga.
Hesito olhando a manteiga.
Hesito.
Depois decido beber de novo o veneno.
Dose letal.
E continuo vivo.

Tatobluesalves

O salto do artista é mágico, transformador. Rompendo barreiras, cria novas concepções do real. Dança na arena da impossibilidade, fazendo da vida um reflexo de sua destreza, manipulando, feito um artífice iconoclasta, os valores do existente, imprimindo-lhes variadas leituras, anárquicas e delirantes. Corre riscos, como todos nós, mas arrisca. Não teme o desconhecido por ser desconhecido, teme, por seus limites fronteiriços, o que aí se encontra como verdade única e imutável. Sabe que a mente flui entre espectros. Que por trás do estabelecido há um segredo perturbador de coloridas formas. Nada é único, nada é imutável, a não ser, talvez, o silêncio obtuso de alguns seres cuja existência se pauta na conformidade das regras. Quebrar essas regras seria tirar-lhes o sentido de estarem vivos, desestruturaria o círculo vicioso em que se meteram, relegando-os ao caos do novo que sempre foi repudiado.
Não obstante, somos nós, enquanto seres pensantes e, não raro, participantes de uma realidade cultural, que detemos o dever de interferir, positivamente, no processo de desenvolvimento de uma dinâmica social que, sabemos bem, segue por vias pouco afeitas à racionalidade.
É hora do salto mortal, quando, num arroubo de perícia e loucura consciente, largamos mão de um apoio milenar, lançando corpo no vazio à procura da nossa própria sensatez. Os espectadores terão que se movimentar, é um ato irreversível.
Vamos canalizar a energia para que da observação acrítica do espetáculo, todos partam para a ribalta, a atuar construtivamente na realização da performance maior da vida. Que cada um incite a novas perspectivas de ação, que cada um se conscientize da importância de agir transformadoramente.
Ainda há tempo.
E se na precipitação da busca perdermos contato com a lucidez redentora, haverá apoio seguro, antes da queda fatal, por parte daqueles que responderam nosso apelo a razão.

“o anarquismo é o anjo da guarda de todo prazer” (hanói hanói)

Para: gustavo rios, salatiel, help, rafa, domingos e zé do vale.

20 janeiro, 2009

eis o crato, com suas praças e suas árvores velhas e lindas. que bom rever manel do jardim com toda sua verve, e suas mãos mágicas tirando sons do impossível silêncio do olhar. manel continua o mesmo: uma mistura de blues,rock e rumba e metal, entre outros sons, o que sobra é gente, riso, piada. o mesmo gigante cheio de suingue, juana e coca cola nasal.
2
eis o crato, e a siqueira campos esquisita, deformada. com um monolito preto com quatro relogios de pulso com lente de aumento. já que mudaram tanto a praça, poderiam também ter mudado o nome. seria mais lógico. ou não.
3
eis o crato, notícias dão conta que dihelson já é um funcionário da prefeitura. outra coisa que precisa de mudança de nome: dihelson = McGyver. maestro, compositor, poeta, blogueiro... falando nisso, como é que vai ser? o blog do crato vai ser o órgão de imprensa oficial da prefeitura?
4
eis o crato, ainda minha cidade do coração. onde meus amigos passeiam imunes ao tempo. rindo do tempo. bebendo o tempo. cantando o tempo. comendo o tempo com pequi, e outros tempêros exóticos.

06 janeiro, 2009


A tristeza vem como uma menininha magra. Com a mão estendida. E então, quando a gente percebe, deu um prato de comida, uma roupa usada, um canto no canto da casa. No outro dia ela aparece com uma boneca. Pergunto: como é o nome dessa boneca? – mágoa. O nome da minha boneca é mágoa. E a gente se flagra sem poder mandar embora aquilo: tristeza e mágoa. Em um domingo de sol chega uma garota mais velha, e diz: - é o senhor que deu guarida a tristeza e a mágoa? – sim! Me vejo tolamente respondendo. E ela diz: - vou levá-las comigo ou ficar aqui. – você tem nome? – sim senhor. Meu nome é inveja, e o cara na moto, meu namorado, é o fracasso. Como é que vai ser? Nós todos juntos? Peço licença por um minuto. Penso com meus botões desaparecidos de minhas velhas camisetas hering: - eu agüento? Tristeza, mágoa, inveja, fracasso... estou no décimo lexotan. Continuo lúcido. Onde porra eu guardei o trinta e oito?

22 dezembro, 2008


E que deus me livre dos livros
Que a fascinação não me fascine
Que o belo passe batido
E o comum se dilua
No liquidificador de merda
E ração adocicada.
E que deus me livre da lombra
Da imagem irreal
Do mantra do vento nas árvores

E que deus me livre da preguiça
Do cio e do ócio
Das fotografias de sebastião salgado

E que deus me livre das gargalhadas
Da sensação de chuva no rosto
Da brisa na madrugada

E que deus, em sua suprema bondade
Me livre dos livres
E aumente um elo
Na corrente que prende meu pé.

19 dezembro, 2008


Arranco a pedra
que me machuca o sonho.
Lapido. Não,
depois.
Agora durmo.
Sem pedras.
O outro dia é assustado por drummond de andrade.
Com suas pedras chatas no meio do caminho.
O que sei do sr. Drummond?
Que ele é uma estátua cagada por pombos no rio de janeiro.
Que tinha uma pedra em seu caminho esquisito.
Devia estar sem óculos.

18 dezembro, 2008


Máquinas fotográficas desesperadas
Nada preso
A foto tem que parecer um pedaço de nada preso
Senão, pra quê?

Eu, turista magrelo nessa cidade que nunca quero conhecer
Saia da minha cama sua cidade filha da puta
A apague a luz da rua quando sair
Como assim que é uma outra rua na rua?
Como assim que é uma outra mariposa na luz?
Como assim que o incandescente é fato?
Cidade... cidade
Cidade, preste atenção, a coca cola incendiada
Acaba de voar das mãos do garçom drogado.

13 dezembro, 2008


1
Devagar os tijolos subiam um a um. Se abstraísse, subiam sozinhos. Casas que se montam. Maria pintava seus quadros, de olhos vendados, enquanto os homens, capacetes brancos, montavam um edifício. O que é maria, senão um edifício de tintas, pincéis e capacetes – brancos pensamentos – que a montam? O que é maria enquanto ela monta um sorriso, um corpo, uma alma crepon e pêssego, lazúli alma. E o que é um edifício, senão um montão de marias e seus sonhos coloridos por dom e desejo?
2
E então moça do sobrenome esquisito, eu resolvi dar nome aos bois. O primeiro boi eu vou chamar de eurípedes, e todos os que vierem dele se chamarão “os filhos de eurípedes”. O segundo boi eu chamarei de dumará. Porque? Eu é que sei? Bois, quase que se auto-denominam, nominam, batizam-se pelos olhos. Então, moça do cabelo preto que eu nunca vi, resolvida a questão da nomeclatura bovina, vamos ao sentido exato: saudade. É certo, nunca te vi, e muito provavelmente nunca verei. Logo, essa saudade deve ser a ausência de um ser, que sei, vem de um planeta similar ao meu. Você estuda história, eu, conto histórias. Imagino histórias, que depois de imaginadas não sei se são reais. O que é real? O que sei, penso que sei, é que em minha história meu coração é um anfitrião onipresente. E, estando em todos os lugares, ri do teu riso. E enxuga a lágrima de alguém que chora em qualquer canto. Onipresente coração moça de cor indefinida, ta vendo lá? É ele. Com o espanador na mão. Tirando o pó que não deixa seu sorriso brilhar na madrugada de sábado.
3
Os segredos que ficam de costas, nas esquinas do olho que mira. Mirando o quê? O gole grande está dentro do copo. O copo está dentro do contexto. Um bode amarrado no quintal do pesadelo. A cobra cascavel sibilina saindo de dentro da cartola do mago dos aspargos. Dancem!!! Dancem!!! Manuelina olha pro céu e quer saber, por que quer, onde termina o céu. Manuelina quer saber qual é a cara de deus. Manuelina quer saber quem é que merece um sorriso. Manuelina sabe, que em algum lugar, em um jardim existe uma fruta do conhecimento. Ela viu na bíblia.
4
Aprendo o que cabe. Abro o que posso. Olho o que me é permitido. Acredito nas possibilidades. Sonho com coisas que não podem ser vistas.
5
Não aponte o dedo para o rosto do outro. Do número oito. Do que come em pé suas bolachas recheadas de nada. Calíope da silva morde morfologicamente o livro dos vampiros. Calíope da silva sabe que cada um dos que ela conhece tem um umbigo explosivo, só esperando uma chance. O jogador inverterado encosta-se no balcão. Liga o gravador e conta sua história pra ninguém. Uma bela história de frases curtas e de sentido nenhum. Ele diz: quando era pequeno um cachorro mordeu minha perna. Um dia desenhei uma vaca. Meu pai bebia uma bebida verde. Minha mãe chorava por um olho só. Calíope da silva se apaixona. Tira do cós da sua saia larga uma gilete platinum plus. Corta de orelha a orelha o pescoço do jogador. Ela nunca suportou ficar apaixonada.
6
Daqui debaixo da ponte vejo a lua. Penso nos olhos dos hipopótamos. Realmente não sei porque penso nos olhos dos hipopótamos. Talvez por causa dos seus olhos mesmo, que vi, assim, na discovery chanel. Eles estavam com sono. Abriam bocas enormes. Um deles parecia tim maia. Olho de novo a lua. Penso em tim maia. Nos hipopótamos. Peço a conta. Acho que bebi demais.

08 dezembro, 2008


Tem gente
Que é tão especial
Que parece que o mundo
Sempre dá um jeito de esperar
Por elas:
O show, começa mais tarde
O ônibus, aguarda mais dez minutos
A lua demora
A chuva cai, ralinha

03 dezembro, 2008


No olho dela
Tem uma lagoa
Na lagoa do olho dela
Tem uma gude
Amarronzada, acho eu
Um brilho, sei que tem
De gente que veio
Bem de longe
Em uma nave, talvez.

Chego em casa querendo rua
Paredes que se estreitam, como estreitas são
As petúnias na mão da defunta sem nome do jornal nacional
Entro então, como uma samambaia entra
Vaso adentro, sabendo sim, que o vaso é finito e raso
A única luz, uma luz, a porta da geladeira aberta
Frio, frio demais, frio pra caralho,
Quero um frio desses

Stéreos, ok! Graves e médios, ok!
O menestrel fala de rudeza, diz que tudo é solidão
Pessoas indo e vindo, mastigando ausências
Na trilha um ônibus um carro de mão uma guitarra
O sol de dezembro escondido atrás da água
Água de ausência, abrindo buracos assim, assados

Olho o olho da ave que não sei o nome, andina,
Bebo ayahuasca sem liturgia, só em minha viagem
Vejo o que não determino
Vampiros juntos no presépio de um deus menino abandonado
Miração urbana soft
A fogueira acesa, a fogueira,
Solitária na mágica de transformar toras em cinzas

02 dezembro, 2008


algumas coisas
deveriam sumir antes que as víssemos
algumas coisas
deveriam nunca acontecer
algumas coisas
doem como se nunca mais fossem parar
algumas coisas
não deveriam ser sonhadas
algumas pessoas
deveriam
prestar
atenção
nas placas

01 dezembro, 2008


Algumas coisas só acontecem na madrugada de domingo pra segunda. É uma hora mágica, de começar coisas. De abrir com as duas mãos a máquina do relógio e ordenar: devagar! Ela balançou suas asas na mesa. Sorriu com os olhos. Convida? Convida não. Diz com os olhos: preste atenção! Demora pra chegar? Demora não. Chega na hora certa. Intima. Mostra o olho. Mergulha nos olhos. Depois beija? Beija não. Se deixa beijar. De leve. Gosto bom de mulher. Da fada. De fêmea. Diz um monte com o corpo. E fala pouco. Promete? Promete nada. É assim: cada vez, a primeira vez. De uma hora pra outra diz: ta na hora de dormir. E levitando, árvore que anda, sai da minha vista. Entra em minha vida. Passeia descalça em cima do meu coração. Ê pagu ê.

28 novembro, 2008


Eu tenho dezenas de ânforas
Sabia?
Em cada uma delas
Guardada do tempo,
Um bem querer.
Ali, naqueles papéis,
Guardo poemas de um tempo
Em que o tempo era
A minha preocupação nenhuma.
Naquela gaiola? Tejuro
Nunca morou nenhum passarinho.
De vez em quando remexo tudo,
Mas dói...
E o de vez em quando tem de ser só
De vez em quando.
Em uma das ânforas, dia desses,
Descobri vinte e nove interrogações.
Subi no último andar
E espatifei-as na calçada.
Não agüentava mais me responder:
Porque não fui?
Porque não comi?
Porque não aprendi?
Eu sei das perguntas, barulhentas
O que eu não sei,
É como silenciá-las.

25 novembro, 2008


Uma noite uma mulher me chamou como se chama um homem. Percebi? Senti. Sem que ela falasse, seus olhos queimaram meus braços, pernas. Quis me entender. Ser homem. Tomar atitude. Não entendi nada. Bateu medo. O pau dando sinal de vida dentro da minha velha calça jeans sem cueca. Pensei: ela tem os olhos de sangue. Ela tem os olhos de quem comete um crime. Ela tem os olhos... ela tem os olhos mais bonitos que eu já vi na porra da minha vida. O copo tremia na minha mão. Olhava. E quando ela olhava, firme, certeiro, eu desviava os olhos. Como uma presa indefesa. Devagar. Devagar ela veio. Lenta como um bicho que vai pegar um bicho menor. – eu sei teu nome. Sei onde você mora. Sei o nome da bebida que você tá bebendo. Só não sei quando é que você vai jogar esse cigarro fora pra eu te dar uma chupada na boca. Medo. Puta que pariu. Ela me assustou de verdade. Joguei o cigarro fora. Sem charme. Rápido demais talvez. Ela se encostou em mim. Não, não é verdade. Ela quase entrou em mim com roupa e tudo. Não escutei mais nada. Tinha alguém tocando no palco? Tinha alguém perto? Ela se encostava mais. Imaginei que nunca mais ia descolar dela. Não queria. Não podia. Se ela saísse naquele momento acho que morreria. Tinha um cheiro doçe. Não sei o nome do perfume. Mas ainda hoje, trinta e tantos anos depois, se sinto alguém passando com esse cheiro na rua, paro. É ela. O fantasma dela. Cheguei em casa naquela noite com um gosto que superava a falta de gosto de todo o resto. Namoramos duarante um ano. E todos os dias, era como a primeira vez. Um entrando no outro. Depois do medo da primeira vez, o tezão absoluto. O vício. O gosto bom da boceta dela na minha boca. O riso sem motivo aparente.Os olhos cor de jabuticaba tatuados nas minhas retinas. Saias coloridas. Jeans desbotados. Sandálias de couro amarradas nas pernas. O cheiro... o cheiro... um dia ela veio se despedir. Me comeu como quem sabe que vai passar fome depois. Me mordeu. Me arranhou. Lambeu o sangue. Chorou. No outro dia eu olhei o céu de manhã e rezei: - por favor, eu nunca te peço nada. Não anoiteça! Não anoiteça, pelo amor de deus. Quando a noite chegou eu tomei um porre, e chorei. Como os guerreiros vencidos. Como os países que são invadidos. Como os bichos. Ela me ensinou a ser bicho. E depois, me soltou na cidade. Um menino com a dor de um homem. O cheiro... o cheiro...

18 novembro, 2008

SHOW DE ROCK E LITERATURA NO PÁTIO DO ICBA

A banda de punk rock Pastel De Miolos (no seu primeiro show acústico em 14 anos de trajetória), o poeta Lupeu Lacerda (com poemas de seu primeiro livro "Entre o alho e o sal") e o quarteto de escritores CORTE (Gustavo Rios, Sandro Ornellas, Katherine Funke, Lima Trindade e Wladimir Cazé) participam do projeto Remix-se, no sábado, 22 de novembro, no Pátio do ICBA (Corredor da Vitória). No show, a energia e a sonoridade pesada da Pastel De Miolos se somam à modernidade urbana da literatura baiana contemporânea.



Lupeu Lacerda vem de Juazeiro (BA), onde mora, para seu primeiro recital em Salvador, a convite do CORTE. Ele fará uma leitura improvisada, com acompanhamento musical da Pastel De Miolos, e o CORTE fará intervenções com trechos de seus livros, durante a execução de algumas músicas pela banda. Gustavo Rios lerá seu poema "Ilusões", musicado pela Pastel De Miolos (que fará parte do próximo CD da banda), Lima Trindade lerá um trecho de seu conto "Queen Mary II", Sandro Ornellas lerá seu poema "Serpentário" (ao som de "Riders on the storm", do Doors) e Cazé lerá um fragmento de um texto inédito.



A Pastel De Miolos é um power trio (guitarra, baixo e bateria, respectivamente Allisson Lima, Alex Costa e Wilson Santana) com incontáveis shows na região metropolitana de Salvador, pelo interior, em outros estados e convites para Warped Tour na California (USA). "Tocamos juntos há tantos anos e nunca tínhamos feito um show com violão no lugar da guitarra", diz Alisson, que, no recital de literatura e rock, vai trocar a guitarra por um violão turbinado por efeitos de pedal. "Quando uma banda coloca elementos novos, muda tudo, o processo criativo parece que se abre", repara Alisson. Além de músicas próprias da Pastel De Miolos, a platéia ouvirá clássicos do punk nacional – "Soldados" (Legião Urbana), "Até quando" (Plebe Rude), "Astronautas" (Replicantes),"Que Vergonha" (Olho Seco), “Fênix” (Declinium) – e estrangeiro ("Brand new Cadillac" e "Guns of Brixton", do Clash).



A discotecagem ficará por conta do Dj CHICO CASTRO Jr.



FICHA TÉCNICA:



CORTE: Lupeu Lacerda, Sandro Ornellas e Wladimir Cazé (poetas) Katherine Funke, Lima Trindade e Gustavo Rios (contistas).



Pastel De Miolos: Alex Costa (baixo e voz), Alisson Lima (guitarra e voz) e Wilson Santana (bateria).



Discotecagem: Dj CHICO CASTRO Jr.



No TELÃO: Exibição do DVD “Resistir...” da banda PASTEL DE MIOLOS



SERVIÇO:



Onde: ICBA / Instituto Goethe, Avenida Corredor da Vitória, 1.809, Salvador (BA)

Quando: 22 de novembro, às 18h

Quanto: Entrada franca

Realização: Projeto Remix-se

E-mail: verbo21@gmail.com

Site: www.sequicosacro.blogspot.com

www.myspace.com/pasteldemiolos
www.remix.art.br

11 novembro, 2008


Falo uma língua
Arrevezada
Herdada da rua meio assim
Aprendi a contar usando os dedos
Os medos
Enquanto esperava
Sempre esperei
Daí que aprendi
A língua que pede
Comida
Lombra
Perdão
Arrevezada língua de deus
Na babel
Maior que qualquer escrita

10 novembro, 2008


O domingo é um dia cruel. O sol bota as unhas. A mão inteira no chão. Acho que resolveu foder com tudo. Penso em me fechar no quarto. Me sentir camisa. Me pendurar em um cabide e dormir. Morrer. Tudo dentro do guarda roupa é morto. Opaco. Cheira a naftalina e lembrança. O sol. Vai embora quando? A noite vai chegar quente. Sem alma. Sem vento. Acendo o cigarro número quarenta e quatro. Solto a fumaça número noventa e nove. Na fumaça desenho uma nuvem. Uma chuva. Talvez uma chuva. A fumaça olhada. Dissecada. O cadáver de um vício companheiro da solidão em tecnicolor. Não quero olhar da janela. A janela não existe. A janela existe. E tem um mundo vasto demais visto pela janela. Sei da impossibilidade. Não olho pela janela. De certa forma sou um fugitivo. Um exilado do mundo. Fazendo parte, não faço. Não faço nada. Não nado. O sol. Trégua nenhuma. Nada de mão passando nas costas. Nada de carícias fraudulentas e de mão única. Sem rir. Sem falar. Ordem. Seu lugar. O sol. O termômetro enlouqueceu. Quarenta e cinco. Meu personagem esqueceu a fala. A deixa. O ponto. Meu personagem não sabe que perdeu. Ou o que perdeu. Não estou bem certo do que digo. Não quero ser roupa. Quero ser a colcha jogada de qualquer jeito sobre a cama largada no quarto de qualquer jeito. O sol. Puta que o pariu. O sol. Penso nu. Penso em sair nu. Impraticável. Onde colocar cigarros, celular, carteira, moedas, amuletos, patuás, flagrantes? Falar pouco. Falar nada. Seduzir pelo silêncio. Tornar o silêncio tão denso que incomode os ouvidos. Café. Traz café frio. Gelado. Uma cerveja. Duas. Um monte. Gastar pouca energia. Levantar o braço devagar. Coçar os ovos. Passar o cigarro pra outra mão. Coçar o sovaco. Uma punheta talvez? Impraticável. Calor retado. O sol. O suor pegajoso. Um nojo sereno de mim. Da humanidade. Da água morna. Gritar. Gritar não. Gasta muita energia. Não quero mais palavras. Uma de três letras está me matando. Com mais lentidão. Como se tortura fosse. O sol. Sol. Sol. Puta que pariu.

31 outubro, 2008


O celular me liga no mundo e sei, continuo desligado. detesto isso de ser achado a qualquer hora. Gostava quando os telefones viviam presos. Iguais a cachorros ferozes. Presos em suas cordinhas enroladinhas. A gente via eles lá, nos cantos das paredes, cobertos com pequenas toalhas de crochê, ou as vezes, presos também com pequenos cadeados. Um dia eles se soltaram. Pularam das paredes para os cintos. Depois para as bolsas, os bolsos. Um dia, vão andar sozinhos. Falar entre si. Planejar a destruição de todos os humanos.

26 outubro, 2008


Minha menina jesus que nasce quando quer
Minha menina jesus criadora do mundo e da polícia
Minha menina jesus armada até os dentes como se preciso fosse
Minha menina jesus criada feito bicho entre os bichos
Minha menina jesus fumando maconha meio dia em ponto
Minha menina jesus rindo dos super-homens
Minha menina jesus amaldiçoando os violões de doze cordas
Minha menina jesus de mini-saia vomitando fliperamas
Minha menina jesus apalpando os ovos de qualquer presidente
Minha menina jesus dizendo que não tem nada a ver com isso
Valei-me
Valei-nos
nus

19 outubro, 2008


Procuro aurora. Onde é que encontrarei a louca e bêbada boreal? De cima da bicicleta vi quando o carro veio em alta velocidade. Era lógico que ele não ia conseguir fazer a curva. O carro bateu na guia da calçada. Por um momento, era como se não houvesse gravidade. Ele girou no ar por alguns segundos, e pousou. Caiu. Pedaços misturados de ferro, velocidade e gente. Um ipod amarrado nas orelhas soltas. Sem dono. Pego. Escuto: “esse é o ninho do passarinho, que já nasce voando sem asas”. Casa das máquinas. Cinco e meia da manhã. Boreal. O acidente decreta o feriado. Ontem a noite aurora me disse, com raiva: “não traduza minhas palavras como se fossem canções desses fudidos norte-americanos. Pelo menos uma vez, diga a verdade”. Não ligo. Puxo meu revólver língua e disparo seis mentiras metálicas e super modernas. Boreal retruca: “você sôa falso. Como um tenor castrado. Como a voz dos desenhos animados. Você é um... Mickey. Não. Você é um pateta”. Rio. Gosto de rir quando ela explode seus molotovs arquétipos. Ela pede ao garçom um copo de silêncio e o saboreia com vagar. Eu, gargarejo cacos de anoitecer. Subo na bicicleta. Procuro nos bares que ainda estão abertos. Aurora. Aurora. Lá está ela. Jogando pedaços de sol em minha janela mal lavada. Penso em contar do acidente. Da música. “essa é a semente da nova terra, essa é a bomba que acaba com a guerra”. Não preciso. Ela vai embora quando me vê. Grito: os cegos, coitados! Não sabem das borboletas. Nem sonham arco íris. Boreal...boreal...

17 outubro, 2008


dois
é duas vezes 365
dois
é o começo do três
dois anos:
poesia, personagens,
o subsolo de um romance
amigos
sexo
umas droguitas bacaninhas
um monte de palavras escritas,
e porque não?
um dia de tomar um porre.
séquiço sacro, na rede, há dois anos.
e haja preguiça...

15 outubro, 2008


Eu até poderia
Te dar o troco.
Eu até poderia
Te engolir aos poucos.
Nas meias medidas
Te meço:
Esqueço.

14 outubro, 2008


sim
preciso realmente perder o juizo
procurar um fundo de mar
no fundo dos olhos
de aquario
da mulher de peixes
vixe
que nada é eterno
vixe
que tudo desmorona
vixe
que tudo murmureja
e o sol paciente apodreçe
o gato do mato
atropelado bestamente
na br veloz

12 outubro, 2008


Quando me apaixonei pela primeira vez
Tinha duzentas espinhas no rosto
E um coração que me orientava desorientando
Ela assistia um filme no cine eldorado
Fazia lindas bolas de chicletes
E apertou devagarinho minha mão.
Quando me apaixonei pela segunda vez
Achava que era forte e inquebrável
E meu coração ficava na dele, só na batida
Ela tinha uma camisa sandinista
Granadas palavras, beijos ardentes
E apertava a minha mão como um companheiro
Na terceira vez que me apaixonei
Meus olhos já estavam gastos
Meu coração sussurrava: tenta, tenta porra!
Ela tinha um Hollywood trançado entres os dedos
Me comia com olhos abertos
E sua mão
Nem acenou pra mim na despedida

coneueraminino


Sinhamariquinhacadêminhaboneca conversa maluca de procurar boneca uma hora dessas da manhã. Tisconjuro. Sinhamariquinhacadê. Conversa sem eira nem beira de estrada que a gente não sabe pra onde vai. Sinhámariquinha onde fica o final do arco íris. O final do arco íris todo mundo sabe que fica no começo. Sinhá. Sinhá. Sinhá que música é essa que invade tudo como se água fosse. Aguafôsse? Aguafôsse nem inxiste. Coisa feia fazê pouco dos outros. Coisa feia chama os outros de sinhá. Coisa feia não saber o que se vai fazer todo dia. Coisa feia. Sinhá mariqui. Cala a boca abestado. Respeite as horas do dia. Te os passarinho cala a boca nessa hora. Te o rádio fica mais brando. Vou inté soltar os passarinho tudo. Hoje, se não amanhã. Sinhá. Sinhá. Sinhá. Omi seu minino. Vai pra puta que pariu.

01 outubro, 2008


Arimatéia fazia santos na rua todos os santos. Na cidade dos santos de Arimatéia tem um bar em cada esquina. E dentro de cada bar tem um demônio com a cara da Sandra de Sá. A música que toca na rua de todos os santos onde Arimatéia fabrica os seus é fora de ritmo. Benditos com pedal de distorção. Ladainhas louvando porcas prenhas. Arimatéia não nota a distorção. Sai na janela e olha o defunto que segue em seu distinto paletó de madeira ornado. O morto é pobre. Onde vão enterrar? A música volta. São Sebastião sai da madeira bruta nas mãos de Arimatéia. Pensa em fazer o padre da serra. Enjoou do padre da serra. Faz um anjo. Bota uma espingarda na mão dele. Vira cangaceiro. Anjo. Arimatéia fica com vontade de ir no bar. Ver o cão Sandra Sá. Olhos coloridos. Desiste. Acende um baseado. Vai ouvir a hora da graça.

19 setembro, 2008


Agenor acordou com uma voz estranha em seu ouvido. Achava que era uma voz de criança. Ou de velha, perto de morrer? Pensou que ainda estava dormindo. Não. Estava acordado. A televisão estava ligada. Um pastor com sorriso número trinta abençoava os fodidos da segunda feira. O jornal entrou pela fresta da porta. O escroto do garoto não se preocupava se aquela merda entrava amassado. O menino tinha pressa. A cidade tem pressa sempre. Agenor levantou devagar. Um barulho irritante vinha do banheiro. A pia. Ligada a noite inteira. Que merda. Bateu um remorso, mas depois passou. Lembrou do aqüífero guarani. Ainda ia ter muita água pros fodidos do país depois que ele se fosse. Decidiu não desligar a torneira. Nunca mais. E que se fodessem para todo o sempre os ecologistas de plantão. Pena não ter um gato pra chutar. Pensou em tomar banho. Depois desistiu. Pra quê? Não ia tomar banho. Nem sedativos. Nem fazer a barba. Abriu a porta pra varandinha ridícula de seu apartamento. Olhou a rua. O esgoto continuava estourado. A filha de dona Guiomar estava chegando. Ia tomar umas porradas. Decidiu ver o show. O tapa fez Cidinha cair. Dona Guiomar tem a mão pesada. Cidinha sempre apanha na segunda feira. Acho que acostumou. O chute pegou na boca. Vão separar. – deixa a vadia apanhar! Eles nunca deixam. Olhou de relance o jornal. Nada de novo. Os mesmos roubos. As mesmas mentiras. A mesma desesperança. E o gado segue manso. Cada um pro seu curral. – vai trabalhar não Agenor? Essa moleza vai acabar! Decidiu que não tinha escutado. Decidiu que não era Agenor. Decidiu que era um presidente exilado de uma ilha distante e sem nome. Decidiu que sempre tinha sido um preso político em prisão domiciliar. Decidiu que era um filho da puta abandonado em uma unidade de menores infratores. Lembrou de um menino. Ele? Um personagem de um livro? Filme? Ele? Ele. Com uma baladeira na mão. Uma lagartixa sem cabeça estremecendo na parede. Trocou de roupa. Botou uma bermuda larga. Uma camiseta branca. Procurou. Amassou a antena interna da televisão. Fez um V. amarrou pedaços de elástico. Improvisou uma baladeira. Disse, pra ninguém: - vou sair. Não me espere. Vou caçar lagartixas.

10 setembro, 2008

lima trindade me deu de presente a oportunidade de falar um monte em sua revista cibernética "verbo 21". a quem interessar possa, vão lá, leiam (a entrevista e a revista, que é do caralho).

www.verbo21.com.br

O MUNDO NÃO ACABA MINHA QUERIDA
Acredite. Por mais que os caras tentem, existe uma resistência. Um não morrer, ta entendendo? Tem hora que não entendo. Mas sei, assim como quem sabe andar. Assim como quem trepa pela primeira vez. Então, não se culpe. Pode jogar o papel do bom-bom na rua. Com o vento, vai parecer que ele ta dançando.

DECIDO TRATAR MAL ALGUMAS PESSOAS
Porque isso me diverte talvez. Porque é mais fácil ser assim. Porque quando leio Sade não acho o estranhamento adolescente. Porque a porra do sinal sempre fecha quando estou apressado. porque minha grana acaba na sexta. Porque não sei jogar bola. Porque tem dia que a coisa mais interessante a fazer, é acabar com o dia de alguém.

AÍ, QUANDO O OLHO ABRE
Dá pra acreditar que o inferno é aqui. Sinta o cheiro. Podre. É um cara. A barba cheia e fétida. A roupa de sabe-se lá quantos dias. O ônibus lotado. Dezenas de caras tristes. A polícia passa arregaçando. Vão matar alguém. A fila do banco serpenteia na calçada. Os camelôs vendem os últimos lançamentos em filmes. O traficante sorri quando olha os cabeludos. Fecho os olhos. O inferno é aqui.

02 setembro, 2008


Cometo
Indiscreto que sou
Ardo em frente ao fogo
Meto
Dedos, pau, língua
A conversa sem verso
Os pés pelas mãos
Cometo
Erros novos de eros
Sopro as cinzas do meu pai
De cima do meu pau
Rápido
Rápido
Cometo
Cometa.

01 setembro, 2008

dois poemas para morder


Eu acredito na verdade
Que baila no vento verde que sopra teus cabelos lavados com coisa nenhuma
Eu como o verde salada no meu prato lápide
E relincho como só relincham os homens sem nome e sem pátria
Eu acredito na verdade
Assim como acredito no aboio sereno das mulheres que pastoreiam estrelas
2
Aqui sento minha bunda
Olhando no vídeo nosso de cada dia
Oro de ora em hora pro santo pagão da hora
Aqui sento minha bunda
Súdito fiel esperando minha hóstia de nada
Pra seguir minha vida vídeo
De nada.

29 agosto, 2008


Quem escreve na certa não é para esperar o messias
Quem escreve quer o anjo degolador
Quem escreve quer a ciência
De nunca saber o suficiente
De nunca escrever o suficiente
De nunca saber qual é o limite do suficiente
Quem escreve sabe que é medíocre na sua medida
Quem escreve nunca vai escrever melhor
Quem escreve não quer escrever melhor
Porque na verdade, ninguém agüenta seguir sozinho
Porque na verdade, melhor ser estrela e ficar
Do que ser meteoro e seguir
Quem escreve se afasta
Quem escreve diz, que quando escreve, se aproxima
Quem escreve pensa, que é a linha que segura a pipa
Mas a pipa não quer a linha, quer o céu
Mas a pipa não quer a pipa, quer ser nuvem
Mas a pipa não quer a nuvem, quer vir no vento
Quem escreve pisa na água da chuva
Quem escreve sonha com uma jerusalém nunca vista, abatida a tiros
Quem escreve, odeia quase todo mundo
E ama, seu reflexo colorido
Nas prateleiras dos supermercado.

27 agosto, 2008


Então aos quarenta e três não sei de que tempo entra em campo uma dor filha da puta. Estômago. Lado direito. Penso em meu pai. Uma dor dessas. Ele se apoiou no ombro de alguém que o levou até a ambulância. Ele não voltou. Ando pela sala. Acuado. A dor silenciosa que grita em meus ouvidos. Sento. Levanto. Deito. Acendo um cigarro. Jogo fora pela metade. Acendo outro. Mudo o canal. Mudo o canal. Mudo o canal. Mudocanalmudocanalmudocanal. Nada na porra da tela que adormeça essa dor. Pego o telefone. São duas da manhã. Quem acordo na terça? Desligado. Desligado. Desligado. A dor ligada. Vou no banheiro. Enfio o dedo goela a dentro. Quero vomitar a dor. Continua lá. Belisca. Unhas pontudas como as de uma mulher na noite de sábado. Unhas vermelhas? A dor. Caralho. Que puta dor. Abro a porta do armário. Quarenta gotas de paregórico. Vomito ópio. Mais quarenta. Vomito de novo. A dor me apavora agora. Não mais a mulher de sábado. Não mais a professora simpática de voz macia e suor perfumado. Agora a velha. A escrota dor. Olho as caixas de remédio. Nenhuma bula mágica que cesse. Penso em rezas. Alquimias de quando a serra me trazia a serena idade. Dor. Penso nas cervejas. Excesso, talvez? A dama branca? A dor não quer pensamentos. Penso no tempo. Nas seis balas de revolver do tempo. Quantas atirei? Quantas ainda tenho no bolso do colete? Eu não tenho colete. Dor. Dor. Dor. O amigo do trabalho aparece. Me pega nos braços. Sem força. Choro na cabine do carro. Urgência de um hospital nojento no centro da cidade. Bebe? Sim. Fuma? Sim. Drogas? Sim. Lacônico médico. Com sono talvez. Diz que tenho de parar tudo. Pergunto: e a dor? Vai passar, por enquanto. Ele diz. Lacônico. Sono talvez. Beat demais. Ainda não tenho obra pra ser póstumo. Saio as quatro da manhã. Sem dor. Dopado. Sei agora o meu limite de dor. Sei nada. Daqui, ninguém sai vivo.

19 agosto, 2008


Agosto
Um gosto de fruta velha, pendurada do texto do verso de um velho maluco cantando uma triste cantiga nas ruas enlameadas de potengi.
Agosto
Um rabisco de uma história em quadrinho de um tempo em que os índios comiam os inimigos com maionese rançosa produzida nas esquinas de nova Iorque
Agosto
Uma folha de parreira descendo espontânea da boceta de Eva em uma performance neo punk expressionista sob a luz ilusionista dos arabescos do cocainômano Sigmund Freud
Agosto
Cachorros loucos passeando sob o luar tragicômico de Santana do cariri
Agosto
Uns nascem
Outros renascem
Uns
Se rebelam.

15 agosto, 2008


Narani serve suco de nada em jarras escuras. Fala de sorvetes. Coisas geladas fabricadas no país dos eunucos. Dão medo. Dão sede. Dão vontade. Narani fala que a estrada é lenda. E que atalhos são mentiras. Diz: existe lua? Não existe. Aquilo é o olho único do unicórnio que criou isso tudo. Pergunta: tem dinheiro? Tem? Estende a toalha de crochê na calçada matizada. Castiçais de plástico. Incensos. Cabeças de boneca. Velas tristes. Apagadas. Narani diz da mágica das velas apagadas. Do medo de acende-las. Fala de um jantar macrobiótico. De sua infância primeira. De masturbação e pecados deliciosos. Mas isso é apenas um jantar. Narani sabe. Talvez o último. Um fio de baba escorre no seu queixo antigo e belo. Narani não tem idade. Conta que comeu coisas que não existem mais. Que bebeu refrigerantes sumidos nos baús da memória coletiva. A vida é só um dos tabletes doces no tabuleiro de Narani. Narani diz que a canção que ela mais gostou na sua vida era uma propaganda de chicletes. Mas ela não lembra a letra. Cantarola: nã na nana, nara rara ra. Ninguém sabe. Ninguém conhece. Narani diz que batizou todos os seus dentes: quando eles caiam, ela os batizava e enterrava no jardim. Lembra de todos. Mas não quer mais falar nisso. Ela nos conta que sempre detestou os arranha céus. Talvez pelo contexto da palavra. Ela não imagina alguém arranhando o céu. – isso tem conseqüência! Conta que sempre gostou de insetos. Que eles foram suas companhias mais fiéis. Sempre gostou das borboletas kamikazes. Voando ensandecidas para a luz. Pela luz. Ela diz que a gente é igualzinho. Que se fode. Mas bate a cabeça na direção da luz. Diz que um dia amou um guarda noturno. Pelo som do apito. Um dia o guarda mudou. Conta que notou. Pelo som do apito. Chorou. Depois casou com um palhaço de circo. Gostava de rir. O palhaço um dia sumiu. Deixou um estojo de maquiagem. Meia carteira de cigarros. Um pé de meia azul com bolinhas amarelas. Narani diz que só notou dois anos depois. Quando morreu pela terceira vez.